Japonês na TV é tudo igual, né?

Elenco restrito e papéis caricatos põem a TV na contramão dos 100 anos da imigração japonesa

Thaís Pinheiro, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2008 | 22h51

Se nem tudo o que parece é, nem todo olho puxado é sinal de um japonês legítimo. Porém, na teledramaturgia brasileira, a tendência é diferente: descendente oriental acaba sempre na quitanda, na pastelaria ou no sushibar.     Veja também: Nada de espadas, tatamis ou sushis'Dorama' para não botar defeitoFigurinhas carimbadas na TVA realidade do ator brasileiro que tem ascendência japonesa esbarra no estereótipo da gueixa e do samurai, o que incomoda, e muito, aqueles que não têm esse perfil. Há oito anos no casting da Globo, Daniele Suzuki já teve momentos em que precisou carregar a mão nas características nipônicas. "No início, a Miyuki (personagem de Malhação) tinha sotaque, mas com o tempo foi mudando. Mas ela usava roupas coloridas, como alguns adolescentes japoneses usam."Já com algum tempo de carreira, ela tenta fugir dos tipos caricatos. A boca e as unhas vermelhas que mostra atualmente, em Ciranda de Pedra, em nada lembram as submissas gueixas que aparecem de vez em quando nas novelas brasileiras. Ainda que Alice, sua personagem, preserve algumas tradições da cultura oriental, ela já não usa kimono nem sapatos de madeira.Embora não tenha ligação estreita com a cultura oriental (a descendência vem dos avós paternos ), Daniele sabe que não dá para disfarçar o olho puxadinho, mas tenta driblar alguns trabalhos. "Não dá para eu pintar o cabelo de loiro, vou ser sempre japonesa. Mas hoje em dia limito meu trabalho, evito ficar fazendo coisas repetitivas", conta.Em Pé na Jaca, sua personagem vivia com uma família diferente. A mãe era a japonesa conservadora, o irmão, policial, e ela, uma baterista. Será que as coisas estão mudando? À PROCURA DE TALENTOSEnquanto os atores reclamam da falta de espaço e de personagens mais "normais", os autores sentem falta de mão-de-obra para atuar em suas histórias. "Quando resolvi mostrar uma família japonesa em Belíssima, tive muita dificuldade em montar o elenco", lamenta Silvio de Abreu.Talvez, os orientais ainda não tenham aparecido em grande número para a TV. "Estão aparecendo muitos atores negros, então é estimulante criar personagens para eles. Quando o mesmo acontecer com os japoneses, muitas oportunidades poderão aparecer", completa Abreu. Marcos Lazarini, autor de Água na Boca, da Band, também sente falta de mais artistas no mercado, mas segue esperançoso. "Acredito que pouco a pouco surgirão novas carinhas orientais no teatro, no cinema e, por tabela, nas novelas. Um bom ator, qualquer que seja sua origem, é capaz de fazer qualquer coisa num palco ou à frente das câmeras."Cem anos da imigração se passaram e tem muita gente querendo conquistar o seu lugar. "Quero pegar qualquer personagem", dispara a já experiente Daniele Suzuki.

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