Juliana Coutinho
Juliana Coutinho

'Já passei dos 50, mas não me troco por dois de 25', diz Marcos Palmeira

Prestes a completar 50 anos de carreira - ele estreou aos 5 - ator revê, aos 54, sua trajetória profissional

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2017 | 06h00

Marcos Palmeira está no ar com Os Dias Eram Assim, que termina dia 18, na Globo. Certo? Em termos. Marcos Palmeira está no ar há tanto tempo que se pode escolher a origem dessa história. No cinema, estreou aos 5 anos em Copacabana Me Engana, de Antônio Carlos Fontoura, em 1968. Serão 50 anos no ano que vem. Na TV, o primeiro grande papel em novela foi o Creonte de Mandala, em 1988 – e serão 30 anos em 2018. A estreia na Globo, porém, ocorreu pouco antes – no Chico Anysio Show, em 1985. Você encontra o registro no YouTube. O jovem Marcos Palmeira na pele de um cabeleireiro gay, contracenando com... Painho.

Cinema, TV, teatro. Marcos Palmeira tem grandes papéis em todas essas mídias e uma história familiar riquíssima. Filho do produtor e diretor Zelito Viana, sobrinho do lendário Chico Anysio. “Minha casa era o próprio palco de filmagem. Cresci em meio à efervescência do Cinema Novo. Meu pai filmou com o Glauber (Rocha), Terra em Transe. Depois, estou falando de Terra dos Índios, de 1978. Há 40 anos... Parou aquela van diante de casa e desceram todos aqueles índios. Era Natal e eles vieram para a nossa comemoração. Grandes lideranças xavantes. Depois, eu fui à aldeia e me acolheram como um deles. Estava no fim da adolescência e a tribo celebrava justamente os ritos de passagem. Foi um choque para mim. De repente, fazia parte daquilo, estava dançando aquelas danças rituais. Ninguém vive essas experiências impunemente. Fui muito marcado por tudo isso.”

O tio – Chico Anysio, irmão de seu pai – achava que ele tinha jeito para a coisa. “Fazíamos muito teatro em casa. Minha irmã, a Betse (de Paula) dirigia, eu era o protagonista. Meu tio via um dom naquilo e dizia para minha mãe que era preciso ‘explorar o Marquinhos’, mas ela achava que eu tinha de estudar. Não seria o homem, e o cidadão, que sou sem essa formação. Hoje posso dizer – sou ator, mas não só.” Marquinhos – a forma carinhosa não o incomoda, embora já seja pai – fez filmes que fazem parte da história do cinema brasileiro. A lista é imensa. Memórias do Cárcere, A Cor do Seu Destino, Romance da Empregada, Um Trem para as Estrelas. Dedé Mamata, de Rodolfo Brandão, de 1987, foi um marco – há 30 anos. E ele não parou mais. Stelinha, Carlota Joaquina – no qual fazia dom Pedro, o 1.º –, Anahy de las Missiones, O Casamento de Louise, O Homem Que Desafiou o Diabo, E Aí, Comeu?, Vendo ou Alugo...

Lembra com carinho de Villa-Lobos – Uma Vida de Paixão. “Meu pai dirigiu e esse ‘paixão’ no título diz tudo. O Villa foi um gigante. Um grande personagem.” Na TV, fez novelas que enriqueceriam qualquer currículo. Vale Tudo, Pantanal, Irmãos Coragem, Renascer, Torre de Babel. Outra lista enorme, até Velho Chico. Tem muito orgulho do remake de O Rebu, e de Os Dias Eram Assim, que está no ar. “Falar desse período da história do Brasil, como a gente está fazendo, é necessário. Fico feliz que o público esteja gostando. Não sei dizer a audiência, mas percebo que está todo mundo feliz na emissora.” Seus mestres? O tio. “Minha primeira atuação na Globo foi no Chico Anysio Show. Fazia um gay bem afetado. Quando contracenava com o Chico, ele me dava o tom. Veio desse convívio uma forma de entendimento.” Ser pai lhe abriu um outro patamar. “Quando veio a Júlia, sofri uma liberação. Sempre tive a maior dificuldade para chorar. A Júlia liberou meu choro, me tornou mais emotivo, mas acho que, como ator, não posso ser piegas. Tenho de dosar, me controlar.” E ele dá sua definição de ator – “É emocionar os outros, mas sem que a gente, necessariamente, se emocione.”

Vinte anos depois de ter celebrado sua adolescência com os xavantes, Marcos Palmeira voltou à tribo, em 2004, para ser padrinho de um garoto indígena que ia reviver todo aquele cerimonial. “Foi outro momento muito rico. Fizemos o documentário A’uwe, que virou série e depois programa na TV Cultura. Foi um programa pioneiro no debate sobre a causa indígena. Tudo o que interessava aos índios era nosso tema. Não durou muito, porque mudou a direção e o novo diretor achava que o público não queria saber dessas coisas.” Marcos Palmeira discorda. O público quer saber, sim. E ele insiste nos temas de meio ambiente. Tem pronta agora outra série, ainda sem data, no Cine Brasil. Manual de Sobrevivência para o Século 21. O título já diz tudo.

Índios, meio ambiente. A própria experiência de vida fortaleceu a militância de Marcos Palmeira. Hoje, ele é completamente engajado. Tudo lhe diz respeito. A corrupção, o agronegócio, a alimentação orgânica – tem uma loja ‘natureba’ no Leblon, no Rio. Se não está gravando nem fora do Rio, você o encontra em conversa com clientes. Bate forte na bancada ruralista. “Eles falam em nome de todos os produtores, mas na verdade produzem milho e soja, que são commodities. Só se interessam pelo business e eu quero saber é do alimento saudável, que quem produz é a agricultura familiar.” Critica a decisão do presidente Michel Temer de revogar o decreto que extingue a Reserva Nacional do Cobre e o seu propósito de assinar um novo texto para ‘clarificar’ a questão.

“É uma vergonha isso, qualquer coisa, qualquer ação. A mineração envolve milhões de problemas, e numa área que está totalmente preservada. Quer dizer, a gente está em 2017, é um retrocesso enorme do governo Temer. É surpreendente. É uma coisa incrível o que ele está fazendo. Espero que não vá adiante com isso, que a sociedade civil se revolte e exija que a Amazônia seja preservada, que as nossas florestas fiquem preservadas. Diga não à mineração. É um retrocesso monstruoso. Queremos apenas que seja respeitado o que já está na lei, nada mais.” Seu maior prazer? “Tenho uma fazenda orgânica em Teresópolis, no Estado do Rio. Ela abastece a loja no Leblon. Adoro meter a mão na terra, cavalgar. Dá uma sensação gostosa de liberdade.”

Aos 54 anos – nasceu em 19 de agosto de 1963, no signo leão –, Marcos Palmeira não tem nenhuma religião específica, mas diz que o foco, para ele, tem de estar na natureza. “É o que pode nos salvar.” Nesses anos todos de carreira já fez tanta coisa. Chegou a concorrer no Emmy internacional com Mandrake, a série de TV da HBO Brasil em parceria com a Conspiração Filmes. Mandrake é um drama policial e baseia-se nos livros A Grande Arte e Mandrake, a Bíblia e a Bengala, ambos de Rubem Fonseca. O diretor José Henrique Fonseca, filho do escritor, assina a adaptação com Felipe Braga e Tony Bellotto. Para resumir – encerrar? –, como Marcos Palmeira vê sua trajetória? “Cara, eu não vejo. Não fico pensando, planejando. Muita coisa ocorre na vida da gente por acaso, ou no susto. O que eu posso dizer é que o que começou sem muito grilo – ‘Vamos!’ – me trouxe muito mais longe do que poderia imaginar. Conheci pessoas incríveis, vivi todas essas experiências. Não falo como velho. Já passei dos 50, mas, sinceramente, não me troco por dois de 25.”

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