Ivana revela à família ser trans em 'A Força do Querer', e cena pode ser histórica

Ivana revela à família ser trans em 'A Força do Querer', e cena pode ser histórica

A personagem da atriz Carol Duarte vai conversar com família nesta terça, 29; para a autora Gloria Perez, debater o tema em uma novela "é jogar o assunto na mesa, transformar em discussão nacional"

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2017 | 06h02

A cena que vai ao ar no capítulo desta terça, 29, da novela das 9, A Força do Querer, de Gloria Perez, promete entrar para a história da teledramaturgia. Conhecida pelas campanhas sociais que encampa em suas tramas, a autora, desta vez, joga luz sobre a questão de identidade de gênero por meio de duas figuras centrais: a travesti Elis Miranda (Silvero Pereira) e Ivana (Carol Duarte). E, nesta noite, Ivana revelará para a família que é transgênero – e ela deixará de existir ali, dando lugar para o ‘nascimento’ de Ivan. 

As últimas semanas, sobretudo, prepararam o campo para culminar nesse momento, que Carol Duarte considera o ápice de sua personagem. A jovem atriz, que veio do teatro e estreou na TV com o desafio de interpretar Ivana, conta que os bastidores de gravação dessa revelação foram de muita emoção. E de muito cuidado. “Me preparei muito. Vai ser uma cena bem pesada para a trajetória dessa personagem”, afirma Carol, ao Estado

“O pai e a mãe não sabem exatamente o que é transgênero. Então, é um choque a princípio. E a Ivana está sedenta por uma certa liberdade, porque toda a vida dela foi construída a partir da Joyce (a mãe, vivida por Maria Fernanda Cândido). A mãe colocou na filha a felicidade dela, então é uma carga muito grande. Em contrapartida, a Ivana se sente um garoto, é o oposto disso tudo.”

Para esse momento dramático, Carol usou em sua preparação as histórias que ouviu de homens trans. “Todas as vezes que eu ouvia essas pessoas falarem sobre a família, era muito marcante. Afinal, se a pessoa não consegue mais viver dentro de casa, está rompendo com muita coisa.”

Com direção de Rogério Gomes, a cena reunirá o núcleo familiar de Ivana: o pai Eugênio (Dan Stulbach), a mãe Joyce, o irmão Ruy (Fiuk), sua prima Simone (Juliana Paiva) e a governanta Zu (Cláudia Mello). A revelação de Ivana deixará todos estarrecidos, especialmente a mãe. Em seguida, ela cortará os longos cabelos. Gloria Perez conta que não se inspirou em nenhum caso em específico para escrever a cena. “Não ouvi nenhum relato parecido. Essa cena foi criação minha”, diz a autora. Segundo ela, o público, mesmo o mais conservador, “deu colo a Ivana”. “Penso que a importância (de se debater o tema dentro de uma novela) é jogar o assunto na mesa, transformar em discussão nacional. Esse é o alcance da novela. Ela é capaz de abrir espaço para que as instituições e os grupos ligados à defesa dos direitos dessas pessoas conquistem benefícios práticos”, pondera Gloria. 

Para interpretar Eugênio, Dan Stulbach também conversou com diversos trans. Essas entrevistas, inclusive, foram gravadas e publicadas pelo ator em formato de série, Transversal, em sua página no Facebook. E ele constatou, nesses relatos, que o homem reage pior do que a mulher nesse tipo de situação. Diferentemente do que ocorre na família de Ivana, em que Joyce se mostrará mais resistente à transição da filha. “Eugênio é mais indeciso, é bom de coração. Ele com a filha tem um entendimento enorme.”

Para ele, discutir a questão é de grande importância. “Mostrar que toda forma de amor é possível, acabar com a ignorância, mostrar quem são essas pessoas. Acho que a novela tem outro caminho para que esse esclarecimento aconteça, que é através da emoção. As pessoas só se cativam por uma discussão na novela se elas se cativam pela história. O caminho para qualquer mudança acontecer é a emoção.” 

Essa discussão na novela acaba se alinhando com outras ações, internas e externas, realizadas pela Globo. E, também nesta terça, 29, será lançada uma campanha estrelada por transgêneros que têm auxiliado a emissora a entender esse universo. “O filme Transgêneros é parte de uma plataforma mais ampla, a Tudo Começa pelo Respeito, que lançamos há mais de 1 ano. Nesse período, já falamos sobre homofobia, violência contra mulher, intolerância religiosa, violência no futebol e outros temas importantes para estimular uma mudança no mundo em que vivemos, sempre pelo respeito. O que estamos lançando no ar, agora, é uma nova etapa dessa caminhada de mobilização sobre identidade de gênero”, diz Sérgio Valente, diretor de Comunicação da Globo. “Tudo o que a gente não precisa mais é de preconceito. Então, ajudar a entender alguns assuntos é fundamental para garantir o respeito a que todos temos direito.”


Leia entrevista na íntegra com a autora Gloria Perez:

Qual foi sua preocupação na construção da personagem Ivana? 

Construir a empatia da personagem com o público. Ivana foi apresentada como alguém que vive uma crise de identidade, atravessa um momento de insegurança, sente-se diferente e desencaixada do universo em volta, e sofre com isso. São sentimentos que as pessoas reconhecem, que em algum momento da vida todo mundo enfrentou, por motivos diversos. Criado o laço, criada a empatia, as pessoas passam a torcer para que ela seja feliz.

 

Como foi o processo de escolha da atriz que interpretaria Ivana e como chegaram a Carol Duarte?

Fizemos testes. Carol se destacou de imediato. O teste era um monólogo que perpassava toda a trajetória de Ivana. A sensibilidade, a delicadeza, a profundidade com que Carol o interpretou, não me deixou a menor dúvida: a Ivana era ela!

 

Como você vê o público, sobretudo o mais conservador, reagindo a Ivana?

O público, mesmo o mais conservador, deu colo a Ivana.

 

Em que você se inspirou para escrever a cena que vai ao ar na terça, em que Ivana contará à família que é transexual? Em relatos?

Não, não ouvi nenhum relato parecido. Essa cena foi criação minha.

 

Na história da teledramaturgia, a cena da revelação de Ivana deve ser um marco, assim como foi, por exemplo, o beijo gay em ‘Amor à Vida’. Qual a importância de se tratar e debater esse assunto dentro de um produto ainda de grande alcance como é a novela?

Penso que a importância é jogar o assunto na mesa, transformar em discussão nacional. Esse é o alcance da novela. Ela é capaz de abrir espaço para que as instituições e os grupos ligados à defesa dos direitos dessas pessoas conquistem benefícios práticos. 

 

‘A Força do Querer’ toca em assuntos que estão na ordem do dia também dentro da própria emissora, por meio de uma série de ações de mobilização. A Globo lançará uma campanha inserida na plataforma 'Tudo Começa Pelo Respeito'. Qual a importância dessas múltiplas ações adotadas internamente pela casa e refletidas em suas produções?

Mais do que nunca está sendo importante falar de tolerância e respeito pelo próximo, de modo que a adesão da emissora empresta uma força ainda maior à causa.


Leia entrevista com Beatriz Azeredo, diretora de Responsabilidade Social da Globo

A novela ‘A Força do Querer’ foi, de alguma maneira, catalisadora dessas iniciativas, uma vez que a trama trata de temas como transexualidade? 

Temos trabalhado em cima deste tema, como parte das ações de Responsabilidade Social da Globo, desde 2014, quando identificamos que o assunto estava sendo discutido entre os jovens, surgindo em diferentes ações realizadas com esse público. A decisão da Gloria Perez em abordá-lo também na novela foi totalmente artística, autoral, sem qualquer intervenção da nossa equipe. Contudo, quando soubemos da intenção, convidamos a autora para participar de nossas ações, dos nossos debates e nos colocamos à disposição para ser a ponte entre ela e nossos parceiros como Unesco, UNAIDS, ONU Mulheres e Unicef, além de ativistas e influenciadores que têm nos ajudado a entender e nos aprofundar no tema. Ter o assunto discutido na novela foi e é ainda muito importante para fomentar a conversa fora da programação, ampliar o alcance das nossas iniciativas e mobilizar ainda mais pessoas com conteúdo e informações relevantes. 

 

Como vocês estão colocando esses debates em prática no dia a dia dos funcionários da Globo? 

Além do fórum que abriu o calendário de atividades no começo do ano, e que foi totalmente dedicado a introduzir o assunto e iniciar a discussão entre os funcionários, o trabalho com o público interno foi planejado para compartilhar as informações que levantamos ao longo do processo. Produzimos uma publicação exclusiva para circulação entre os funcionários, especialmente para os profissionais do Jornalismo e para os responsáveis pela criação de conteúdo do Entretenimento, que traz um grande guia de termos e das diversas nomenclaturas de gêneros e orientação sexual. Esse material apresenta, ainda, um guia de fontes, ou seja, de especialistas, entidades e pesquisadores que têm conhecimento sobre o tema e podem ser consultados para matérias e ações especiais. Além disso, tanto a versão impressa quanto a virtual do nosso caderno 'Corpo: Artigo Indefinido' circulou amplamente entre os funcionários, também como forma de chamar a atenção e incluí-los na conversa.

 

A Globo tinha realizado debates, ações e campanhas com outros temas importantes nos anos anteriores? 

Esse trabalho de mobilização e conscientização é realizado há muito tempo e, independentemente do tema, nos dedicamos com o mesmo afinco a todas as iniciativas que apoiamos. Apenas em novelas, é possível identificar diversas tramas que já abordaram temas socialmente responsáveis e importantes para a agenda nacional como  a questão ecológica, sustentabilidade, violência contra a mulher e orientação sexual, entre outros. Somente no ano passado foram exibidas mais 1.280 cenas tratando de questões como essas na dramaturgia da Globo. 

 

Também no ano passado, tivemos uma ação muito bacana em 'Malhação – Seu Lugar no Mundo' para discutir o aumento do número de jovens infectados com o vírus HIV. Quem nos chamou a atenção para o tema foi nosso parceiro Unaids (Programa da Nações Unidas sobre a temática), com quem temos trabalhado há alguns anos. Pensamos juntos em uma forma de conversar com os jovens brasileiros sobre o assunto e iniciamos uma campanha, criada pela Comunicação da Globo e assinada com a Unaids, incentivando a testagem entre os jovens. Na sequência, levamos a equipe da Unaids para ‘Malhação’. Na época, o autor Manuel Jacobina compreendeu a gravidade da situação e inseriu, na trama, um casal adolescente do ensino médio e sorodivergente, em que o menino era soropositivo e a menina não. Assim, a questão foi abordada na história, na TV, e virou depois um spinoff,  uma websérie com veiculação exclusiva no GShow, que teve uma das melhores performances de web série da Globo. 


 

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