Marcio Nunes/ TV Globo
Marcio Nunes/ TV Globo

Internet é celeiro de descobertas de novos talentos do humor

O rádio, que revelou mestres como Chico Anysio, perdeu seu papel para o termômetro da web

Alline Dauroiz e Cristina Padiglione - O Estado de S. Paulo,

29 de março de 2012 | 10h08

De sitcoms a esquetes e jornalismo em tom de piada, a TV brasileira nunca produziu tanto humor, mas, se antes vivia a reboque do rádio, de onde veio Chico Anysio e, até pouco tempo atrás, o Pânico, a TV agora vive à espera do que vinga na web.

 

“Creio que a TV anda muito acanhada em bancar novos talentos e ousadias como Chico City”, atesta Marcelo Tas, âncora do CQC e criador do lendário repórter Ernesto Varela, pai do gênero hoje emoldurado pelo programa da Band. “Vivemos a era das planilhas de rendimento, dos riscos calculados... Isso não contribui para o surgimento de novos talentos”, completa. “Curiosamente, os talentos estão explodindo e encontrando seu palco na internet. Penso que a TV precisa acordar logo para isso, sob pena de perder a conexão com as novas gerações que já nascem dentro desse ambiente.”

Para Emílio Surita, líder da turma do Pânico, a tendência hoje é o público gostar do humor de improviso, da espontaneidade do riso, que se pode conseguir em um vídeo amador de 30 segundos na internet.

 

Boni acredita que “no passado, um talento como o Chico era revelado aos poucos”. “Hoje, com a web, uma coisa nova pode pintar do dia para a noite. O que é preciso que os produtores de entretenimento fiquem atentos à web, ao teatro e a todos os meios de comunicação e não fiquem na zona de conforto insistindo no grotesco e na mesmice.”

 

E é no teatro mencionado por Boni que Marcelo Médici lota sessões se desdobrando em nove personagens em um palco (o do Teatro Faap, em Eu Era Tudo Para Ela e Ela me Deixou) e em outros nove tipos em outro (o do Teatro Shopping Frei Caneca, onde dá cabo da interminável Cada Um com Seus Pobrema). Atualmente fora da TV, Marcelo já venceu Prêmio Multishow de Bom Humor, esteve por três anos no banco da Praça É Nossa, no SBT, e fez algumas novelas na Globo. Capaz de se desdobrar em vários personagens, alterando voz e postura em questão de segundos, Médici atribuiu a genialidade de Chico sobretudo ao seu talento como ator. “O Chico era um grande ator. Quando fazia imitação, tinha uma criatividade imbuída, ele não simplesmente imitava o Caetano, tinha uma brincadeira em cima disso.”

 

 

No momento em que o stand up vai ganhando fôlego no Brasil e ainda procura um nicho entre a criação e o politicamente correto, sem ofender, Médici lembra que Chico era extremamente elegante sem deixar de ser ácido. Mas discorda do humorista quanto à máxima de que há dois tipos de humor: o engraçado e o sem graça. “Porque o que pode ser engraçado para um pode não ser para outro. Tem gente que se mata de rir com Corra Que a Polícia Vem Aí, eu não consigo rir.” Mas o ator carrega para a vida um ensinamento de Chico, que dizia que para ser artista é preciso de comunicar. Não adianta fazer piada que ninguém entenda.

 

Nesse contexto, Chico foi grande crítico do TV Pirata quando o programa surgiu, alegando que se tratava de um humor elitista. “Todos nós temos que tomar cuidado para não agirmos como patrulhadores do novo”, ressalta Marcelo Tas. “Lembro que o próprio Chico, dono da minha profunda admiração, foi extremamente reativo quando surgiu o TV Pirata e o Casseta & Planeta. Disse que não iam durar porque não era humor ‘sofisticado’. Estava errado, evidentemente”, conclui Tas.

 

Em entrevista ao Estado em abril de 2009, Chico discordava que houvesse um declínio da comédia de bordões no Brasil - e aí estão Janete e Valéria (“Como eu tô bandida!”), do Zorra Total, que não o desmente. Disse ele na ocasião: “O que vocês da imprensa malham como ‘humor antigo, mofado’, de personagens que se repetem, é apenas o tipo de humor brasileiro, que não é aceito pelos americanos porque eles não sabem fazer. Americano só saber fazer sitcom.”

Faltam também bons redatores de humor, para Boni, o gênero mais difícil de script. “Um Max Nunes não se acha na esquina”, cita, sobre o gabaritado profissional do ramo, hoje a serviço do Programa do Jô.

 

Redator que sentiu na pele as críticas de Chico, e depois intérprete, o casseta Cláudio Manoel compunha a equipe do então revolucionário TV Pirata, nos anos 80. Hoje, Cláudio critica o humor que se diz politicamente incorreto.

 

“Acho boba essa brincadeira de atirar pedra na vidraça e sair correndo. É um mauricismo bem remunerado que se finge de rebelde. Faz piada velha, sem graça, só para criar polêmica e aumentar o valor de seus shows no teatro”, afirma o casseta. Para Cláudio Manoel, porém, a nova geração do humor é conservadora. “Eles nos homenageiam. Não fazem nada de muito diferente do que sempre foi feito. O que de tão original, tão diferente do Chico Anysio surgiu nos últimos tempos?”, questiona.

 

Redator de diversos programas humorísticos da Globo e protagonista da série Os Caras de Pau, Marcius Melhem é do time que acredita que um humor de esquetes e bordões, cunhado por Chico Anysio, está mais vivo do que nunca. “Chico dizia que humor bom é o benfeito, assim como sorvete é gelado sempre. Hoje, o telespectador do entretenimento busca referências clássicas, retrôs.”

 

Boni encerra: “Eu tive muitas ofertas para substituir o Chacrinha”, lembra. “Nunca aceitei isso. Se aparecerem pretensos substitutos do Chico tentando usar seus tipos, considero que seria um grave crime e um estrondoso fracasso.

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