Carl de Souza/AFP
Carl de Souza/AFP

Inspirada na Lava Jato, 'O Mecanismo' traz retrato desesperançoso do Brasil

Série, de José Padilha, estreia dia 23 na Netflix e será exibida em 190 países

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

15 Março 2018 | 13h35

Rio - “No Brasil, as pessoas pensam que ser policial é subir favela e trocar tiro com traficante. Isso não é ser policial. Isso é ser policial burro. O que f... nosso País não é a violência nas favelas, não é a falta de educação, a situação da saúde falida, o déficit público, a taxa de juros. É a causa de tudo isso”. A voz melancólica de Selton Mello, na abertura do primeiro episódio da série O Mecanismo, narra o que o criador e diretor, José Padilha, vê como a principal mazela brasileira: a corrupção. A produção brasileira da Netflix é inspirada na Operação Lava Jato. Estreia dia 23, e será exibida em 190 países.

Selton é Marco Ruffo, policial federal de métodos heterodoxos e obcecado por um doleiro que, o espectador verá, será o ponto de partida para a maior investigação sobre corrupção do País, com movimentação de bilhões de reais e desbaratada uma década depois. O público nacional já conhece essa história – a acompanha há quatro anos pelo noticiário.

Tudo começa num lava jato até então insuspeito de Brasília, onde havia uma casa de câmbio, cujo operador tem relações íntimas com o governo federal e diretores da maior empresa estatal do País. E acaba (por ora) nas grandes empreiteiras, no Palácio do Planalto e no Congresso Nacional.

O elenco foi apresentado nesta quinta-feira, 15, no Rio. Enrique Diaz é o pilantra Roberto Ibrahim, que nasceu da figura do doleiro Alberto Youssef. Carol Abras é a idealista Verena Cardoni, policial que tem Ruffo como mentor e que irá impulsionar a Lava Jato quando este sai de cena. Leonardo Medeiros é o cínico João Pedro Rangel, o diretor corrompido da petroleira. Os primeiros três episódios, liberados para a imprensa, têm como eixo a atuação desses quatro. A roteirista é Elena Soarez, de Eu, tu, eles e Filhos do Carnaval (HBO).

Padilha, que utilizou o livro Lava Jato: O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, do jornalista Vladimir Netto, como base, falou muito mais de política do que de dramaturgia no lançamento da série. Disse que “o sistema” de que tanto falava o Capitão Nascimento nos dois filmes Tropa de Elite, não é tão abrangente quanto “o mecanismo”. Este ele entende como a corrupção estruturante, generalizada, que atinge todos os níveis de poder, e que se deriva da promiscuidade entre grandes empresas e os partidos, tenham eles a coloração que tiverem.

“Não é a exceção, é a lógica, a norma. É assim em todos os municípios do Brasil. Esse mecanismo é subjacente a todas as grandes mazelas. Ele não vê ideologia, existe nos governos de direita e de esquerda. Eu não tenho lado”, afirmou o diretor, que foi criticado em Tropa por quem considerou o Capitão Nascimento de caráter fascista.

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“O Brasil teve uma ditadura de direita, então a cultura era de esquerda. O herói do filme brasileiro tinha que ser o excluído. O Nascimento não é o excluído, é o inimigo do excluído. Tanto que até o Tropa não tinha tido filmes de policiais. O Cacá Diegues inventou o termo ‘patrulha ideológica’. Espero que o Brasil, no longo prazo, se livre das amarras que impedem que se vejam as coisas com clareza”, continuou.

Ao longo dos episódios, o público desvenda não só os meandros das investigações, das escutas telefônicas aos mandados de busca e apreensão, mas também as tentativas de brecá-las, inclusive dentro do sistema; os estratagemas adotados pelos fraudadores, procurando brechas nos contratos para incluir aditivos que lhes garantissem milhões; as relações interpessoais entre policiais, promotores e juiz (Sergio Moro virou Paulo Rigo, interpretado por Otto Jr).

Mais tarde na série, Padilha adiantou, a narrativa focará mais o Ministério Público Federal e o Supremo Tribunal Federal. O desafio narrativo, disse Elena Soarez, para além do equilíbrio entre ficção e realidade, foi dar tratamento de entretenimento ao tema, árido, e dar conta da dimensão que tomou a Lava Jato. A operação já fora retratado no filme Polícia Federal – A lei é para todos, uma das maiores bilheterias de 2017.

Em sua abertura, a série, que se alterna entre Curitiba, Brasília e Rio, mostra que Ruffo e Ibrahim, como foi na vida real, se conheciam da infância. Eles se veem em lados opostos num momento crucial de suas vidas: um é honesto (“em 20 anos de Polícia Federal, nunca me vendi”, repete), pobre, desequilibrado e adoece por não conseguir levar seu caso à frente; o outro é um pilantra charmoso e racional, que enriquece ilicitamente e se safa por ter costas bem quentes.

“É uma mistura de Caim e Abel com Tom e Jerry”, brincou Diaz, na apresentação desta quinta-feira à imprensa brasileira e estrangeira. “O lado cidadão do Ruffo é comovente, e a relação dos dois é bem interessante. A série é um thriller dramático com momentos de humor e tensão”, definiu Selton.

Padilha – que divide a direção com Marcos Prado, Felipe Prado e Daniel Rezende – optou por trocar nomes não só dos personagens (Dilma Rousseff é Janete), mas da Petrobras (Petrobrasil), de obras investigadas (a refinaria Abreu e Lima virou Antonio e Lima) e de empreiteiras (o nome Miller & Brecht é autoexplicativo).

O tom geral é de desesperança. “Se o Brasil fosse um país sério, se houvesse justiça divina e o bem sempre vencesse o mal, tudo seria diferente”, reflete a delegada vivida por Carol Abras. “Mas o Brasil não é um país justo, Deus não existe e não é brasileiro”, ela conclui. O doleiro Ibrahim conta a piada que fez o empreiteiro da vida real ao se deparar com um político no dia de sua posse. O eleito falou: “Você por aqui?” E o empresário respondeu: “Eu estou sempre aqui, vocês é que mudam”.

No lançamento, Padilha defendeu o fim do PT, do MDB e do PSDB, e zombou da possibilidade de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ser preso – a primeira temporada ele vai ver em casa; se tiver segunda temporada, ele vai ver na cadeia”, debochou. Por fim, disse: “Existe político honesto. Mas eles não têm a massa necessária para fazer a diferença, e não vão ter nunca, se o mecanismo não for desmontado. Para entrar na política tem que aceitar o jogo. É um darwinismo ao contrário: a seleção dos piores”.

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