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Indignidade absurda

Usar o nome de um dos maiores ídolos da televisão, cinema e teatro brasileiros em uma campanha contra a vida é repulsivo

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 03h00

Está havendo um enorme equívoco dos negacionistas e apoiadores do presidente (se é que se pode chamar tal homem de presidente), que vêm usando a morte de Tarcísio Meira na campanha antivacinação. Mais do que equívoco, demonstração de oportunismo, safadeza e mau-caratismo. 

Usar o nome de um dos maiores ídolos da televisão, cinema e teatro brasileiros em uma campanha contra a vida é repulsivo. Vivo, Tarcísio estaria repudiando. Morto, não tem como. Poucas carreiras foram tão corretas, solidamente construídas. Homem e profissional íntegro, superstar humilde, sem a arrogância de alguns que se arvoram em deuses depois de uma única noveleta. Falo de um homem que conheci há 60 anos, que foi meu amigo. Ele a Glória. Ainda me lembro da noite em que soubemos no restaurante Gigetto que os dois estavam namorando. Namoraram até ele partir.

A família não se manifestou, não sei se tenho o direito de fazê-lo. Mas ouso quebrar o protocolo para dizer que sabíamos, nós, os amigos, os que partilhavam de seu círculo, que Tarcísio tinha um problema grave, pulmonar. Cigarros em demasia, é comum na profissão. Tinha ainda um físico sofrido por décadas de trabalho árduo, quedas graves em filmagens e gravações, uma coluna vertebral complicada, além de outros pequenos acidentes de trabalho e domiciliares. Nossa casa é uma armadilha para nossa idade. Sua vida foi intensa e ele sempre enfrentou dificuldades físicas, mas entrava em cena. Todos soubemos o esforço, por exemplo, que fez para subir ao palco e resistir bravamente por duas horas na reencenação de O Camareiro, peça teatral de Ronald Harwood, direção de Ulysses Cruz. Sabe-se que a covid vai direto ao pulmão e tenho certeza que o de Tarcísio não resistiu. Estava vacinado, sim.

Mas oito décadas e meia, e o ambiente tóxico de uma pandemia, não pouparam um ser humano. Um grande ser humano. Portanto, não deixemos que a indignidade de políticos sem piedade, compaixão, coração e amor à vida usem o nome de Tarcísio para fins criminosos negacionistas. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'

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