Claire Merchlinsky / The New York Times
Claire Merchlinsky / The New York Times

Sterling Brown e Andre Braugher, indicados para o Emmy cujas vidas continuam se cruzando

Em entrevista, atores trocam conselhos e falam da admiração mútua, desde suas casas durante a respectiva quarentena

Candice Frederick, The New York Times

27 de agosto de 2020 | 11h00

Anos antes de serem indicados para o Emmy de 2020, Sterling K. Brown estava na plateia na  Universidade de Nova York (NYU), onde fazia seu mestrado em Artes ouvindo extremamente interessado uma conversa com Andre Braugher – mais conhecido então por interpretar o papel de Frank Pembleton no importante drama policial Homicide: Life on the Street.

Para Brown, que acompanhava de perto a carreira profissional de Braugher, era um privilégio ouvir a sabedoria de um ator preto realizado em um setor repleto de brancos. Algumas frases o impressionaram. “Alguém perguntou como você consegue chorar na tela”. Brown, de 44 anos, lembrou a Braugher, de 58, em uma recente entrevista pela Zoom com três pessoas. Brown sorriu. “E você diz: 'Bom, antes precisa hidratar-se'”.

Brown lembrou algo que Braugher havia dito: palavras profundas para um jovem ator preto cuja aspiração era chegar a Hollywood, mas estava cauteloso por causa dos desafios que poderia encontrar devido à cor de sua pele. 



“Também perguntaram a ele: ‘Como se sente, sendo preto, por ser ter sido provavelmente excluído de oportunidades dadas a seus colegas brancos?”. Brown lembra: “Ele disse: ‘Eu não tenho um Andre Braugher branco pra colocar no mundo a fim de provar a eficácia desta hipótese. Eu tenho as cartas que recebi, e vou fazer com elas o melhor que puder”.

Braugher lembrou: “Minha convicção, nesse período, sempre foi que a gente precisa fazer o que pode, naquele momento, com o que a gente tem. Sempre achei que se eu era capaz de olhar para mim mesmo no espelho, então tinha feito a coisas certa”.

Vinte anos mais tarde, e com dois Emmys cada um, Brown e Braugher irão compartilhar os holofotes do Emmy e esta não será a primeira vez. (Ambos foram indicados em 2016). Também estão competindo entre si. Ambos foram indicados por papéis de coadjuvantes em uma comédia: Brown por The Marvelous Mrs. Maisel, Braugher por Brooklyn Nine-Nine. (Brown também foi indicado como ator principal no drama da NBC This is Us.)

Mas esta será a última vez que suas vidas aparentemente se  cruzarão. Ambos estudaram em Stanford, onde Brown disse que frequentemente era comparado a Braugher. O primeiro papel de ator convidado de Brown na TV foi na série da CBS Hack, estrelado por Braugher. E o único aceno de Brown ao Emmy foi como coadjuvante em Brooklyn Nine-Nine.

Quando Brown foi contatado para uma entrevista com um colega indicado, de sua escolha, obviamente escolheu Braugher. “Houve tantos paralelos e momentos de grande sincronismo”, disse Brown, acrescentando que se sentia “honrado” pela possibilidade de falar com Braugher de temas pessoais. “Esta é a verdade”.

Os dois trocaram conselhos e falam da admiração mútua, este mês, de suas casas durante a respectiva quarentena: Braugher de Nova Jersey e Brown de Los Angeles, vestindo uma camisete preta com as palavras Todos contra a Injustiça. Abaixo alguns trechos da conversa.


 

Andre, você foi indicado para os seus dois Emmys em 1996. Ainda fica esperançoso com a temporada de prêmios?


BRAUGHER: À medida que o tempo foi passando, a minha família se tornou mais importante – filhos maiores, problemas maiores. Não sou tão ansioso por atenção como era. A minha preocupação é minha família, a nossa saúde e a nossa coexistência pacífica. Não acho que deva sempre correr para ganhar o primeiro lugar ou mostrar a mesma ambição de Sterling. Eu fiquei um pouco surpreso quando ouvi que Sterling me havia convidado para fazer parte desta conversa porque ideias como esta nunca passam pela minha cabeça.


BROWN: Andre, você fez parte da minha vida sem saber e por muito tempo.


BRAUGHER: Lembro da conversa que tivemos na NYU. Há uma parte da gente que acho que quase todo mundo consegue ver logo externamente – e talvez a gente não consiga ver de dentro – você era muito meticuloso em sua preparação. Você se dedicou à sua arte e procura um contato emocional mais profundo com os seus personagens. Você seria Sterling K. Brown e faria um tremendo trabalho se nunca tivesse sido reconhecido. Mas estou feliz pelo fato de o universo reconhecer você, porque você é uma pessoa extraordinária, admirável.


BROWN: Andre Braugher, você acabou de fazer um preto ficar vermelho. Talvez não esteja percebendo, mas aconteceu. Muito obrigado.


BRAUGHER: Por nada.


 

Como você enfrenta a responsabilidade esperada de um ator de interpretar – de retratar seus personagens de determinada maneira por causa do que eles representam?


BRAUGHER: Quando peguei pela primeira vez o papel (de Raymond Holt em Brooklyn Nine-Nine), um dos meus filhos me disse: ‘Você vai fazer o papel de um capitão de polícia gay?’. Respondi: ‘Não, vou fazer o papel de um capitão de polícia que é gay’. Aí está. Sempre me interessei pela humanidade que está por trás dos meus personagens porque quando cresci, a gama de sentimentos aceitáveis para pretos era muito limitada.

Estamos conversando de Homicide. Sou muito orgulhoso do personagem e muito orgulhoso do trabalho que eu fiz. Mas agora, olhando para o passado, digo a mim mesmo: ‘Esses policiais estão no serviço para que? E como vou lidar com meus sentimentos confusos a este respeito?'. Meu objetivo era descobrir o coração deste brilhante detetive que se considerava o primeiro entre iguais e segue nesta linha até ser por fim humilhado. Esta era a jornada importante para mim, porque os personagens pretos excepcionais são ...não digo um clichê, mas o fato é que você vê muitos assim.


 

Você acha que isto se refere a um patamar mais elevado para o sucesso, que se coloca para uma pessoa preta – ou seja, que você precisa ser excepcional para ser valorizado?


BROWN : Reggie (o personagem de Brown em Maisel) reflete as conversações neste sentido que muitos indivíduos pretos tem com os pais, isto é, que eles precisam ser duas vezes melhores ou dez vezes melhores, para chegar a este ponto. Você fala com dois recém-formados em Stanford, um deles fazendo uma carreira em engenharia, o outro em economia, antes  que algo os impelisse a fazer a escolha menos razoável. Acho que eu ficaria fora da carreira de ator. Eu fiz teatro no secundário e gostei. Mas não era uma coisa prática. Você não vai para Stanford para se formar em teatro.

 

BRAUGHER: Certo.


BROWN:... até que ele escolhe você. Você se apaixona pela possibilidade de iluminar a condição humana. E pensa: Não acho que conseguiria me afastar disso, mesmo que tentasse.


 

A celebridade aumentou suas expectativas?


BROWN: Não sei exatamente como usá-la, mas o benefício da celebridade está no fato de que as pessoas querem ouvir o que você tem a dizer, e você pode voltar a sua atenção para coisas que acha que merecem a atenção de todos. Por isso, a ideia de que ’92 e Rodney King foram acidentes isolados é algo que neste momento particular – depois de Ahmaud Arbery, Breonna Taylor, George Floyd – as pessoas, pensam: “Ah, não, algo está muito errado'. Eu posso chamar a atenção para isto porque é importante para mim e para a minha comunidade.


 

Como você percebe quando a pressão está em você ou quando é uma reação ao que se espera de você?


BROWN: Ainda estou traçando o meu caminho, mas não posso ficar nos bastidores; isto significaria concordar tacitamente que a situação está OK. Por isso, pus certa pressão em mim mesmo para assumir a responsabilidade de compartilhar uma mensagem. Não sei se teve sucesso. Tentando representar a negritude, talvez você não consiga fazer isto. Mas representar a si mesmo, felizmente é uma representação apropriada do microcosmo. Porque a minha vida negra importa.


 

Andre, você sente pressão semelhante?


BRAUGHER: A celebridade como plataforma para ajudar estas vozes que talvez não sejam necessariamente ouvidas, ou cheguem aos ouvidos aos quais se dirigem, sempre foi de grande interesse para mim. Mas eu sempre quis elevar estas vozes muito acima da minha. Porque sempre nos pedem para dar a nossa opinião a respeito de coisas com as quais nós não nos envolvemos necessariamente, ou mesmo compreendemos.


BROWN: É isso aí.


BRAUGHER: E é sempre perigoso. Eu não quero chegar ao ponto de achar que sei tudo. Por isso, tento me manter na sensação geral como 'Andre Braugher, pai suburbano'.


 

O que o inspira hoje?


BRAUGHER:  A procura do próximo papel importante. Não achei ainda o próximo. Só costumo trabalhar em um projeto de cada vez. Brooklyn Nine-Nine está terminando. Este é o momento. Todos estes anos de experiência como pai, marido, colega, cidadão e como homem serão muito úteis para contar a próxima história. Estou realmente ansioso para que isto aconteça.


BROWN:  O teatro. Fico com coceira quando fico longe dele por muito tempo. São quatro anos. Estou tentando encontrar o momento certo, mas outras pessoas pensam: 'Você não pode fazer uma peça neste momento. Há uma oportunidade para fazer parte desta franquia'. Eu tento encontrar esse equilíbrio em termos da minha ambição e da minha sensação de satisfação artística, e poder fazer com que estas duas coisas coexistam pacificamente.


TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.