Humor de mau humor

O que ‘Pânico’, ‘CQC’ E ‘Casseta’ têm em comum? O deboche faz rir, mas também rende ibope nos tribunais

Alline Dauroiz e Keila Jimenez, de O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2010 | 09h42

Vivo na justiça. Danilo Gentili, do CQC, é um dos campeões de processos no programa

 

Quem ri por último... Geralmente tem de pagar um bom advogado. Alvos de eterna comparação e, ao mesmo tempo, negando denominadores em comum, Pânico (RedeTV!), CQC (Band) e Casseta & Planeta (Globo) têm encontro marcado mesmo é nas esquinas dos tribunais. Além de azucrinar celebridades, perseguir políticos e fazer graça com vergonhas nacionais, a turma de humor afiado tem em comum a antipatia do pessoal do jurídico de suas respectivas emissoras: são os reis dos processos na TV.

 

Entre o trio, quem mais fortalece os braços dos advogados (com pilhas de processos) é o Pânico na TV! No ar desde 2003, o programa lidera o ranking de processos da RedeTV! (batendo o famigerado Te Vi na TV, de João Kléber) e fazendo frente aos 20 anos de confusões do Casseta.

 

A encrenca mais recente foi com a Globo: um processo por invasão de propriedade e captação de imagens não autorizadas. No quadro O Invasor, o Pânico mostrou os bastidores do paredão de Tessália, do Big Brother Brasil 10, infiltrando-se na torcida da moça. "Qual o problema de mostrar o (Pedro) Bial jogando banho de cheiro na plateia?", fala Emílio Surita, líder do grupo. "O estranho é como as coisas acontecem. Quando sobrevoamos a Fazenda da Record avisando os participantes com uma faixa que o Michael Jackson havia morrido, a Justiça foi acionada mais rápido do que nunca", diz Emílio. "Fizemos no sábado e, no domingo, às 8 horas da manhã, tinha um oficial de justiça na RedeTV! com uma liminar impedindo a exibição da brincadeira no Pânico. A Record achou um juiz no sábado de madrugada?"

 

Emílio, que se mostra indignado com o valor das indenizações pedidas contra o programa, garante que o fato de o Pânico ser alvo de processos - muito mais no passado -, não atrapalha a criatividade da trupe. Entre os com mais "ibope" com os juízes estão Vesgo e Silvio. Na época em que corriam atrás de pés ilustres para as Sandálias da Humildade foram processados por Carolina Dieckmann e até foram presos por tentar chegar à janela do apartamento da atriz, no Rio, com uma escada Magirus. Após alguns rounds na Justiça, Luana Piovani conseguiu uma indenização do programa de R$ 150 mil por perseguição, e Dado Dolabella, seu namorado na época, mais R$ 50 mil. Com Preta Gil, a briga judicial começou após tentarem entregar a ela um ovo de Páscoa gigante.

 

"Não queremos prejudicar ninguém. E não são tantos processos assim, só quatro ou cinco deles foram para frente", garante Emílio.

 

 

Eleições

 

A turma do Casseta & Planeta também não facilita a vida dos advogados da Globo. Já deram mais trabalho, é fato, mas ainda são brasa acesa no humor. Entre os que processaram os humoristas estão o ex-presidente Fernando Collor, Jorgina de Freitas, acusada de fraudar o INSS, e o empresário do Papa Tudo, Arthur Falk.

 

Em 1997, o Casseta foi alvo de mais de 130 ações movidas por policiais militares de Diadema, região metropolitana de São Paulo. As ações não deram em nada - mas cada uma pedia cerca de R$ 200 mil por danos morais. Os cassetas também foram vetados na Parada Gay em São Paulo e processados por uma entidade gaúcha, por causa de piadas questionando a masculinidade dos sulistas.

 

"Deixamos de lado esses senhores de terno que ficam limitados ao ambiente governamental e ninguém sabe quem são, mas não podemos ignorar um caso como o do Arruda (ex-governador de Brasília acusado de corrupção)", fala o casseta Cláudio Manoel, explicando por que a atração hoje pega mais leve com os políticos. "Temos um feedback do nosso público, que quer um programa mais família. Mas sempre vamos esbarrar em alguém que não tem humor."

 

Segundo o casseta, a época em que os humorísticos podem levar mais processos se aproxima: eleições. Para evitar confusão, piadas sobre os candidatos ficam na gaveta. "Se falar da Dilma, tem de falar do Serra, e vice-versa. Sem contar os outros candidatos, que podem exigir direito de espaço."

 

Peritos em perseguir os tais "senhores de terno" do Congresso, o CQC, também coleciona processos ao longo dos quase três anos de vida - nenhum com ganho de causa, garante o diretor Diego Barredo. A maioria parte de políticos que acreditam terem suas imagens maculadas pelas brincadeiras.

 

 

Pressão psicológica

 

Marcelo Tas, o líder dos "homens de preto", deveria ter se acostumado a ser levado à Justiça, já que desde a década de 80, quando fazia o repórter inconveniente Ernesto Varela, azucrina personalidades. Porém, define como censura a horda de processos que se acumulam contra os humoristas. "A pressão psicológica e financeira causada pelas ameaças de processo joga os artistas, jornalistas e empresas de comunicação contra a parede. A palavra para definir essa pressão é uma só: censura!".

 

Paradoxalmente, Tas diz que tinha muito mais liberdade durante a ditadura e a transição para democracia do que agora, época em que humoristas são processados "simplesmente por expressar opinião ou fazer crítica". "Há uma escalada galopante do politicamente correto que tenta aplainar e uniformizar toda forma de pensamento inusitado", critica. "Há um retrocesso grave e preocupante quanto à liberdade de expressão no País."

 

Juntamente com o colega Rafinha Bastos, Danilo Gentili é um dos campeões de processos no programa. Segundo ele, a ordem na casa é para que os repórteres não se preocupem com ibope ou Justiça. Depois, é a direção do humorístico quem resolve o que vai para o ar.

 

Para Gentili, o limite do humor é o bom senso. "O comediante só se ferra se a piada não tiver graça. Aí, sim, ele tem de se desculpar." Porém, antes de sofrer qualquer dano material por causa da patrulha da piada, Gentili se precaviu: transferiu seus bens para o nome de sua mãe. "Se me processarem, na conta só vão ver uns R$ 200."

 

Além dos melindres das celebridades e políticos, Gentili acredita que a razão para tantos processos é o fato de o movimento de comédia no Brasil ser "bunda-mole". "Só uma meia dúzia de gente está realmente disposta a fazer piada. Abro a revista e vejo colegas querendo estar na primeira fila da classe artística, quando deveriam ser o cara chato do fundão, que uns dão risada e outros dizem: ‘vou ter que aturar esse chato’.

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