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'Hora da Aventura', uma história simples que vira uma maravilha visual

Exibido no Cartoon Netwok, 'Hora de Aventura' é um dos programas mais emocionalmente realísticos da TV

James Poniewozik, THE NEW YORK TIMES

10 Setembro 2018 | 06h00

Hora de Aventura não costuma aparecer nas discussões sobre os cânones da TV do século 21. (Sou tão culpado disso quanto qualquer crítico; é certamente meu programa favorito e sobre o qual jamais escrevi). Talvez seja porque é da Cartoon Network; talvez por cometer o pecado de ser divertido e diversificado em vez de triste e sombrio.

Mas este épico animado, cujo último episódio será exibido no Brasil às 21h do dia 23 de setembro, pelo canal Cartoon Network – antes, às 14h, terá início uma minimaratona com as últimas temporadas da série –, é uma das maravilhas visuais e artísticas da última década, um picolé maravilhosamente revestido com um recheio agridoce.

Para quem não está familiarizado, Hora de Aventura é uma história de um menino e seu cachorro. Um menino e seu cão mudando de forma e sua cópia feita de grama, e um reino pós-apocalíptico, um vampiro baixista e um perverso rei Gelado e um Abraham Lincoln marciano e um controlador jogo eletrônico consciente de sexo fluido e ...

O que estou querendo dizer é que ninguém nunca acusou o Hora de Aventura de excessivo realismo. Mas, apesar de todos os seus voos e fantasias e invenções alucinógenas, Hora de Aventura é um dos programas mais emocionalmente realísticos da TV.

A série, criada por Pendleton Ward, começou em 2010 com Finn, de 12 anos, brandindo uma espada em toda a Terra de Ooo e com Jake, um canino de corpo elástico cuja família encontrou o bebê Finn abandonado na floresta. (Na realidade, Finn é tanto o humano de Jake como Jake é seu cão.) Seu patrono e aliado é a Princesa Jujuba do Reino dos Doces, uma governante do bem com um toque de cientista louco, cujos temas deliciosamente polimorfos incluem balas de goma, porta-bananas e rolinhos de canela. 

Era uma comédia caprichosa e de camaradas e caça ao monstro em uma terra de junk food, traduzida em uma implacável estética imaginativa que misturou Hayao Miyazaki e Yellow Submarine com uma gota ou duas de Hieronymus Bosch. O que mais uma criança – ou um adulto que gosta de prazer – poderia querer?

Mas como muitos de seus épicos contemporâneos da cultura pop (Lost, ou a série Harry Potter), Hora de Aventura se ampliou, aprofundou e desdobrou. A Terra de Ooo, se revelou, é o mundo que surgiu após a Guerra dos Cogumelos, um holocausto sugerido pelas bombas semi-soterradas nos créditos de abertura. É um mundo de sonhos de Willy Wonka que evoluiu de um pesadelo.

O típico episódio Hora de Aventura tem cerca de 11 minutos de duração, mas sua ambição é ilimitada. Ooo desenvolveu uma história e uma cosmologia descontrolada que você pode encontrar analisadas em dezenas de horas de vídeos explicativos da “lenda” no YouTube.

Mas, acima de tudo, a série se comprometeu a construir seus personagens. Sua lista chega às centenas; vozes de convidados incluíram Marc Maron como um esquilo falante e Maria Bamford como uma princesa de lodo e uma piñata. Hora de Aventura compartilha com Orange is the New Black e Os Simpsons a crença de que qualquer personagem, por menor que seja, deve ser bem imaginado de forma suficiente para tornar-se a estrela de sua própria história.

Isto é especialmente verdadeiro para os vilões do programa, que tendem a ter histórias de fundo simpáticas e até trágicas. O Rei Gelado, um dos primeiros adversários da série, já foi um gentil antiquário, enlouquecido por uma coroa mágica que usou para tentar proteger Marceline, de 7 anos de idade (a vampira mencionada) em meio às ruínas da Guerra dos Cogumelos.

O mal, em Hora de Aventura, simplesmente não existe. Vem de algum lugar, muitas vezes de boas pessoas com boas intenções. O conde de Lemongrab (um canibal estridente e de cabeça cítrica) foi um experimento da Princesa Jujuba que deu errado. Em um dos episódios mais estranhamente afetados, Você me Fez, ele a confronta (“Eu estou sozinho! E você me fez assim!”). E ela percebe que tem a responsabilidade de ajudá-lo, em vez de simplesmente destruí-lo...

A princesa também criou o grande malvado final do show, seu tio Gumbald, em um esforço para dar a si mesma uma família.

Famílias, especialmente aquelas ausentes ou alienadas, são um grande tema de Hora de Aventura. Em uma minissérie extensa, Finn parte para finalmente descobrir os segredos do destino da humanidade e seus pais desaparecidos. Em outro enredo, Marceline tenta consertar as coisas com seu próprio pai, um irresponsável rei-demônio viciado em sugar almas.

Isso é pesado para um público jovem, ou seja, é um material perfeito para um público jovem. Hora de Aventura existe em uma espécie de zona liminar entre as emoções otimistas de As Meninas Superpoderosas e a fantasmagoria da madrugada Adult

E é também uma história de transição – órfãos e crianças buscando a independência, construindo famílias substitutas, crescendo.

Em geral, desenhos animados e quadrinhos negam a mudança e negam o tempo. Bart Simpson e Eric Cartman são essencialmente os mesmos de décadas atrás; Lucy van Pelt passou quase meio século puxando o futebol para longe de Charlie Brown.

Finn, de sua parte, tem idades de 12 a 17 anos no decorrer da série. Jeremy Shada, que faz a voz de Finn, fez 13 anos quando o programa foi ao ar pela primeira vez, e você pode ouvir sua voz se aprofundar e amadurecer à medida que o próprio Finn se torna mais maduro e filosófico com a idade. (Esse efeito Boyhood: da Infância à Juventude é especialmente pronunciado para espectadores compulsivos como eu).

A experiência de Finn se aprofunda com sua voz. Ele encontra seu pai, um vigarista, e perde o braço tentando impedi-lo de deixar Finn novamente. Ele desenvolve uma queda pela Princesa Jujuba e tem seu coração partido. (Jujuba, o programa sugere gradualmente, tem uma história com Marceline, um avanço na representação do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo que Steven Universo da ex-escritora de Hora de Aventura, Rebecca Sugar, construiu recentemente com um casamento lésbico).

Como em Harry Potter, essa outra fantasia mágica de amadurecimento, Hora de Aventura amadurece quando Finn descobre que a vida não é tão simples. No começo, ele é um garoto entusiasmado, empolgado em sair de qualquer situação difícil. Lá pelo final da série, ele é muito mais ambivalente sobre a violência, um conflito Hora de Aventura externaliza, dando-lhe um clone, Fern, que é literalmente criado a partir da fusão de duas espadas mágicas.

Por um tempo, Finn tem um tipo de relação de irmão mais velho com Fern, mas na temporada final, Fern tornou-se seu rival – a versão adolescente e agressiva de si mesmo que ele tem que dominar e crescer além. (“Eu vou voar e destruir as coisas até me sentir melhor!”, chora Fern no final).

Hora de Aventura é uma das melhores representações que vi na TV sobre esse aspecto de crescimento: de início ficando animado com o que você está se tornando e lamentando o que você era. E não é só Finn e seu irmão espada que têm que lidar com esse problema de (digamos) dois gumes.

Em um episódio, por exemplo, Jake fica perturbado ao saber que seu irmão Jermaine, um pintor de paisagens, inexplicavelmente começou a pintar abstratos. Jake presume jogo sujo – feitiçaria?, controle mental? – então Jake parte para uma missão de “resgate”.

Mas Jermaine explica que ele é diferente agora, e vê as coisas de forma diferente. “Eu pintei tantas paisagens que as formas da terra começaram a perder o sentido”, diz ele. “As formas se separaram para mim, então eu as pintei assim. E não é como se minhas novas pinturas substituíssem minhas pinturas antigas. Ambas são eu.

O final é cheio desse tipo de visão – para não mencionar as chamadas de cortina para dezenas de personagens e uma batalha climática que é metade Armagedon, metade sessão de terapia familiar. É emocionante e doce e um pouco comovente.

Mas, como as despedidas da infância – graduação, mudança –, o fim de Hora de Aventura parece ao mesmo tempo comovente e correto, o tipo de final que é necessário para possibilitar novos começos. As aventuras foram inesquecíveis. Mas o que realmente fez esse programa especial foi a época. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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