Rede Globo/Divulgação
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Hoje é dia de Odete Roitman na TV

A grande vilã de 'Vale Tudo', fenômeno da TV paga, fala sobre seu papel

Patrícia Villalba, Roberta Pennafort e Flávia Guerra,

10 de novembro de 2010 | 06h00

O telespectador só vê os olhos - grandes, verdes, lindos - e ouve a voz - esnobe. "Você fica com a gente?", pergunta Celina (Nathália Timberg). "Não, viajo acompanhada. Reserve uma suíte presidencial num desses hotéis limpinhos, mas sem mendigos na porta", recomenda Odete Roitman (Beatriz Segall), na cena que vai ao ar hoje, na reprise de Vale Tudo no Canal Viva e marca a volta à TV de uma das maiores, senão a maior, vilã da teledramaturgia.

 

Morta e enterrada após levar o tiro que, a gente já sabe, vai tirá-la de cena no capítulo 193 e instalar a dúvida "quem matou Odete Roitman?", a péssima senhora é esperada por notívagos saudosistas que fizeram da novela de 1988 fenômeno de audiência da TV paga - é o programa mais visto no horário, 0h45, e ainda movimenta as redes sociais, que repercutem as cenas madrugada adentro. Na frente da TV também está o autor Gilberto Braga, que escreveu a trama com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. "Vi os primeiros capítulos, a sensação é boa. O sucesso vem do fato de a novela ser boa, a história prende e os personagens são muito fortes", analisa ele, em entrevista ao Estado, afastando qualquer comparação com as tramas atuais e as ideias de falência do gênero.

 

Braga não precisa de falsa modéstia, porque é notória a importância de Vale Tudo para a história da TV, não só pela qualidade do texto e das interpretações, mas também por ser um espelho bastante realista dos primeiros anos da abertura política, quando a identidade do País era questionada. Um ano antes da que seria a volta do voto direto para presidente, 1988 foi o momento perfeito para a novela perguntar "vale a pena ser honesto no Brasil?", dúvida ilustrada pela história de Raquel (Regina Duarte), mulher recém-separada e batalhadora que leva um golpe da filha ambiciosa, Maria de Fátima (Glória Pires). Não foi a primeira novela a usar temas atuais - lembremos de Roque Santeiro (1985) -, mas a que fez isso de maneira mais contundente, num primeiro plano.

 

Surpresas. Vale Tudo é o tipo de programa que transporta o telespectador no tempo, com pensamentos como "onde eu estava na época em que os moços e as moças dançavam música lenta?". Braga não escapa da situação, e conta que teve algumas surpresas ao rever a novela. "Não lembrava, por exemplo, que a Regina Duarte estivesse tão brilhante. Nos dez primeiros capítulos só dá ela, fantástica."

 

 

Imerso em inflação alta e às voltas com a promulgação de nova Constituição, o Brasil foi avacalhado pelas frases cortantes de Odete e atitudes de personagens de caráter duvidoso, como Marco Aurélio (Reginaldo Farias). Talvez nenhum recado tenha sido passado de maneira tão direta pela teledramaturgia até então. "Quanto menos eu ouvir falar português, melhor", diz ela ao finalizar o tal telefonema que anunciou sua volta de Paris. Mas embora hoje o País esteja no grand monde (para usar uma expressão da época), Braga não parece tão otimista. "Não acho que (o País) tenha mudado tanto assim, e gostaria que tivesse", compara o autor, que acredita que Vale Tudo esteja atraindo tanto os que viram a novela no original quanto telespectadores de primeira viagem. "Felizmente as pessoas já não aceitam a impunidade como aceitavam em 88, inclusive acho que a novela ajudou a que isso acontecesse."

 

Costumes. Alcoolismo, homossexualismo, corrupção e outros temas pouco frequentes na TV da época foram usados com a polêmica no volume máximo para compor os personagens da novela. Talvez por isso que a trama pareça tão atual, apesar do salto de qualidade de imagens que a TV teve nestes 20 anos e das mudanças na moda e de costumes - é até engraçado e estranho, por exemplo, ver os personagens fumando em cena, sem culpa. "Certas coisas soam estranhas, por exemplo, as roupas femininas, era a moda oversize", diz Braga. "Também estou achando que o texto sobrevive. Às vezes acho didático demais, mas nada é perfeito."

 

Prestes a estrear Insensato Coração, que substituirá Passione de Silvio de Abreu na metade de janeiro, Gilberto sabe que Vale Tudo é referência carregada de responsabilidade, mas nunca se preocupou com a possibilidade de a novela se tornar um fantasma na sua carreira, a persegui-lo e gerar comparações com o que ele escreve hoje (veja entrevista com Beatriz Segall). "Nunca senti que isso tenha acontecido comigo. E adoro quando a novela provoca discussão", garante ele que, no entanto, não se anima a lançar uma nova versão para a história de Raquel. "Prefiro que não tenha remake, porque seria difícil reunir um elenco como aquele." (Patrícia Villalba)

 

ENTREVISTA COM BEATRIZ SEGALL

 

Beatriz Segall, aos 84 anos, não tem disposição para ficar acordada até as 2 da manhã para assistir a Vale Tudo. Prefere esperar os amigos que estão gravando a novela para ela. Costuma dizer que Odete Roitman a persegue. Mas agora que a reprise, um fenômeno das madrugadas do Canal Viva, coincide com a estreia de sua peça, Conversando com Mamãe, no Rio, espera que ela traga o público para vê-la também no teatro.

 

Não é incrível um personagem que ainda tenha essa força, passados 20 anos?

Foi uma novela muito especial. A Heleninha também foi um personagem interessante. Todo mundo estava muito bem: a Renata (Sorrah), Nathalia (Timberg), Glória Pires... O Riccelli fez ali o melhor trabalho dele.

 

Na época, a repercussão da Odete foi imediata?

Eu fiquei reclusa durante a novela, porque tinha texto demais pra decorar. Só fui ter noção quando acabaram as gravações... Até hoje, é muito chato as pessoas chegarem para mim falando "Quem matou Odete Roitman?", isso com uma cara de quem está atingindo um objetivo importante na vida...

 

Odete foi boa de fazer?

Ficou muito marcada. Até então, os atores não gostavam de fazer o vilão, porque não conseguiam fazer comerciais. Depois se viu que o vilão é quem dá movimento à novela. (Roberta Pennafort)

 

MODA: DAS FRANJAS ÀS OMBREIRAS

 

 

"Nossa mãe era jeca mas não vendia sanduíche na praia." Assim Odete Roitman (Beatriz Segall) retruca à irmã Celina (Nathália Timberg) e defende Maria de Fátima (Glória Pires) ao saber, momentos antes que seu filho se casasse com a jovem vilã, que foi ela quem virou a cara para a mãe, a honesta, mas cafona, Raquel Accioly (Regina Duarte). Isso quando viu a mãe vendendo sanduíche na praia. Raquel, que vestia um frugal vestidinho florido, com ombreiras, claro, e bolsinha tiracolo, ficou arrasada, bateu na filha quando as duas foram deixadas a sós na antessala do casamento e ainda rasgou o vestido de noiva ‘todo trabalhado na manga comprida e gola alta’. Quando Odete volta à cena, diz: "Estas rendas levaram um mês para ficarem prontas".

 

A cena é antológica não só por ser ‘reveladora’, mas também porque mostra exatamente que o que ditava moda na época era o estilo over. Nos anos 80, ‘mais era mais’. Mais volumes, mais cintura alta, calça bag, mega laços, franjas. A franjinha da jornalista Lídia Brondi (Solange) virou febre nacional. E o chanel clássico super simétrico de Maria de Fátima? Quem era criança nos anos 80 e não viu a mãe desfilar ou de franjinha, ou de chanel em 1988 e 1989? As mais ousadas apostaram no pigmalião de Heleninha Roitman (Renata Sorrah). Com ares de Tina Turner tupiniquim, a cabeleira da artista plástica ganhou versões mais contemporâneas nos últimos anos. O chanel é um clássico, mas a franjinha tem ganhado adeptas e surgido em vilãs contemporâneas. Basta conferir o visual de Melina (Mayana Moura) de Passione. Apesar do corte de Mayana ser inspirado na diva americana Louise Brooks (1906-1985), não há como não se lembrar da fase em que Maria de Fátima também adotou a franjinha angelical. Já no figurino, se um item deve ser lembrado, definitivamente são as ombreiras. Enormes, elas estavam lá, desde o clássico tailleur pérola de linho de Odete (que se espera que nunca mais volte) até os vestidinhos de Raquel, passando pelos ternos de Marco Aurélio (o inescrupuloso Reginaldo Faria, que deu aquela ‘banana’ inesquecível ao Brasil no último capítulo). O que também não deve voltar jamais são as tanguinhas de César Ribeiro (Carlos Alberto Riccelli), aquele que não transava violência, mas adorava uma cuequinha cavadinha. (Flávia Guerra)

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