Sergio Castro|Estadão
Sergio Castro|Estadão

'Hermes e Renato' volta à TV após dois anos longe das telinhas

Com piadas escrachadas, quarteto estreia nova temporada no FX

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2015 | 06h00

O humorista Felipe Torres, o Boça, chega aos berros à Galeria do Rock. Com uma prateleira portátil recheada de DVDs piratas, ele chama a atenção de quem caminha pelo imponente prédio no centro de São Paulo. “São 3 por 10 ‘real’. Promoção do dia, rapaziada. Alguém vai querer?”, brinca o ator. Ao lado de Adriano Silva, Franco Fanti e Marco Antônio, o humorista tumultua o ambiente. Alguns param os rapazes para cumprimentá-los. O quarteto se encontrou com a reportagem do Estado no local para falar sobre o nova temporada do programa Hermes e Renato, que estreia nesta quinta-feira, 19, no FX, às 22h. “Faz todo sentido conversar na Galeria do Rock. Gravamos muita coisa aqui. Ótimas recordações vêm à mente”, afirma Felipe. 

Durante a manhã de uma segunda-feira nublada, os quatro rapazes abusam do humor escrachado e dos palavrões exagerados que marcaram a carreira do grupo humorístico. Quem foi adolescente nos anos 2000 e não conheceu Hermes e Renato, certamente, não teve uma juventude feliz. Marco Antônio Alves, Fausto Fanti, Adriano Silva, Bruno Sutter e Felipe Torres revolucionaram a maneira de fazer humor na TV. As piadas nonsense dos cinco rapazes de Petrópolis, no Rio, arrancaram boas risadas de uma geração que começava a descobrir a força da internet e, ao mesmo tempo, sofria ameaças do temido bug do milênio.

O programa foi ao ar na MTV de 1999 a 2009. Tela Class, Sinhá Boça, O Proxeneta: muitas foram as invenções. Entre os personagens clássicos, alguns deles são lembrados até hoje. Caso de Joselito de Cascatinha, Boça, Cláudio Ricardo, Bichinha Pobre, Palhaço Gozo, Padre Quemedo e a banda Massacration. Após a passagem apagada pelo Legendários, da Record, eles voltaram à emissora musical em 2013, onde ficaram até julho, quando o Grupo Abril decidiu devolver a marca MTV Brasil para a Viacom e uma reformulação geral na grade da emissora foi anunciada. 

Depois de dois anos fora das telinhas, os rapazes retornam à TV. Desta vez, no entanto, sem Bruno Sutter, que deixou o grupo, e o líder Fausto Fanti, que foi encontrado morto em seu apartamento em julho de 2014. O irmão de Fausto, Franco Fanti, completa o time. Ao todo, serão 12 episódios com duração de 30 minutos. Além de Boça (Felipe Torres) e Joselito (Adriano Silva), a temporada no FX ganha novas sátiras. Os principais são Gloria Kalinho (Gloria Kalil), João Krepe (João Kléber) e Drauzio Vareta (Drauzio Varella). Os mais de 100 esquetes exclusivos contaram com a colaboração de Fausto Fanti e Bruno Sutter. 

As cenas foram gravadas antes da morte de Fausto, na metade do ano passado. “É um pouco complicado falar sobre isso. Está sendo difícil. Muitas pessoas me perguntam se o Fausto tinha ou não traços de depressão e questionam o que ocorreu. Isso, na verdade, não importa mais. Existem duas maneiras de sentir saudade de alguém: a positiva e a negativa. Eu fico com a primeira, que é justamente a mais saudável e alegre. A gente prefere se lembrar das piadas e o quanto o humor sádico dele fez e ainda faz tanta gente dar risada”, lembra o irmão Franco Fanti. “Sempre precisamos cuidar de quem amamos. Dedicar 5 minutos para as pessoas que gostamos é fundamental em tempos tão difíceis. Isso pode salvar algumas vidas”, conclui Marco Antônio Alves. 

Além do triste episódio envolvendo Fausto, os integrantes do Hermes e Renato também tiveram de lidar com o processo judicial de Gil Brother, o popular Away de Petrópolis. Em meados de 2009, o humorista deixou o grupo e, posteriormente, processou os integrantes. Gil Brother cobrava direitos de imagem, danos morais e salários atrasados, que, segundo ele, nunca foram pagos. Após uma longa batalha, Gil perdeu o processo em caráter definitivo. “O Gil ficava dançando break e cantando nas ruas de Petrópolis. A gente sempre via ele por lá. Decidimos levá-lo para o Hermes e Renato, onde atuou de 2002 a 2008. Um belo dia, ele simplesmente sumiu e não apareceu para gravar. Pouco tempo depois, quando já estávamos na Record, descobrimos que o Away estava processando a gente. Vale lembrar que ele perdeu o processo. Não temos raiva, claro. Achamos que o Gil contribuiu muito com o grupo”, afirma Felipe Torres.

O quarteto não se arrepende de ter ido para Record para trabalhar ao lado de Marcos Mion no programa Legendários. Habituados a uma avalanche de palavrões e a um humor deliberado, Hermes e Renato ficou mais “careta” e as piadas exageradas deram lugar a diálogos pouco inspirados. Alvo de brincadeiras constantes na época da MTV, a igreja evangélica, por motivos óbvios, nunca foi satirizada na Record. “Não sofremos nenhuma censura”, afirma Adriano.

Referências. A marca registrada da série sempre foi o humor politicamente incorreto e os palavrões em abundância. “Nossos maiores exemplos não estão nos programas humorísticos. O grande lance do Hermes e Renato é encontrar humor onde não há humor. Isso ocorre em quadros de culinária ou mesmo em algum programa bizarro. Tudo que é forçado perde a graça”, conclui Felipe.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.