José Patricio/ Estadão
José Patricio/ Estadão

Hebe Camargo ganha exposição interativa, que coloca público ao seu lado

Apresentadora, que faria 90 anos em 8 de março, é homenageada em mostra no Farol Santander, em São Paulo

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 05h02

Contar a vida de Hebe Camargo é praticamente falar da trajetória da televisão brasileira, pois ela esteve presente desde os primórdios desse meio de comunicação. Nascida no dia 8 de março de 1929, a apresentadora, que conquistou o grande público com sua forma de fazer tevê, ganha agora uma exposição inédita, no Farol Santander, em São Paulo. Em Hebe Eterna, o público poderá acompanhar o que seria um dia na vida da artista. A abertura será no dia 19, ficando em cartaz até 2 de junho. 

Ocupando dois andares do prédio do Farol Santander, o 19º e 20º, a exposição é dividida em 11 ambientes, onde o público e fãs poderão ver de perto como era um dia normal na vida de Hebe Camargo. Com curadoria de Marcello Dantas e Camila Mouri e cenografia de Patrícia Anastassiadis, a mostra é recheada de momentos do dia a dia da apresentadora, com seus vestidos, joias, inúmeras fotos e alguns vídeos raros, o lado religioso, e muitas curiosidades. 

O que deve impressionar bastante é o fato de se tratar de uma exposição extremamente interativa, possibilitando o contato com Hebe por meio do uso de várias tecnologias. E mais: o trajeto entre as fases é feito de forma cronológica, o que faz o visitante saber como ela começava seu dia, desde o café da manhã e a leitura o jornal, passando por outros estágios, como a hora do cabeleireiro, até chegar à fase noturna, com a hora de participar do seu programa.

Hebe teve uma carreira longínqua, começando ainda menina no rádio, como acontecia com boa parte dos artistas, lá nos anos 1940. E esse início foi como cantora, na Rádio Tupi, seguindo depois para a fase em que montou um grupo musical e depois fez parceria com a irmã Stella, formando a dupla caipira Rosalinda e Florisbela. Hebe era versátil, transitou por alguns segmentos: além de cantora, foi atriz e depois se firmou como apresentadora. 

Consta na história da televisão no Brasil que Hebe integrou o grupo que foi buscar, no porto de Santos, os equipamentos que dariam a largada para a TV no País e no surgimento da primeira emissora, a Tupi. Já enfronhada no círculo televisivo, ela participou dos primeiros programas, foi uma das pioneiras, nos anos 1950. Teve ao seu lado nomes como Ivon Curi e Walter Foster e, já nessa época, começou a usar os cabelos platinados, que antes eram escuros. Passou por quase todas as emissoras de tevê - na Record, nos anos 1960, esteve à frente de um programa aos domingos, sendo acompanhada pelo músico Caçulinha. Nele, entrevistou inúmeros artistas, como os músicos que estavam à frente da Jovem Guarda.

História de Hebe é o que não falta - ao contrário, são tantas que o curador Marcello Dantas afirma que “uma só exposição, um filme, um livro, não são capazes de dar conta de relatar toda essa trajetória”. E é uma parte dessa história que a mostra do Farol pretende mostrar para o público paulistano.

Uma artista que conquistou gerações, essa foi Hebe Camargo, que deixou uma marca única, não apenas como a apresentadora irreverente e sincera, mas como cantora também. Não tem como falar dela sem lembrar do sorriso largo, das entrevistas descontraídas e dos invejados selinhos dados em seus convidados. Na exposição Hebe Eterna, que vai ocupar dois andares do Farol Santander, a partir do dia 19, muito dessa artista será mostrado e o público poderá se sentir próximo dessa diva da TV brasileira.

O curador Marcello Dantas, conta que planejou a mostra há alguns anos. “Ao visitar a casa da Hebe, eu vi claramente como essa mulher estava integrada à rotina da vida do brasileiro, tendo um lugar muito especial dentro disso tudo, e reparei que um dia na vida dela, era como se fosse um dia que nunca termina”, conta. “Ela marca toda a história da televisão, e tem uma onipresença, como se nunca saísse do ar, sempre estivesse lá.”

A partir desse contato com a vida da artista, Marcello definiu como gostaria que fosse montada a exposição. “Vamos fazer um dia na vida de Hebe, que começa com ela tomando café da manhã, lendo jornal, se arrumando, escolhendo a roupa, rezando, e vai evoluindo, ao mostrar ela cantando, e, ao virar a noite, ela entrando no programa”, revela o curador, que diz que isso propiciará ao público fazer “toda essa vivência, entrar nesse mundo, ao mesmo tempo louco e mágico”.

Nessa exposição, interativa e imersiva, o público vai passar pelos 11 ambientes e, em cada um, vivenciará momentos intimistas com a dama da TV. “Como no Encontro com Hebe, onde você vai sentar no sofá da apresentadora, em frente de um espelho, e será entrevistado por ela, o que vai acontecer através de uma holografia”, conta Marcello. Mas sua vontade era ter conseguido algo mais pessoal da apresentadora? Pois o curador avisa que em um “outro momento, o público vai tirar uma foto, em uma cabine, e quando observar o retrato feito, verá que Hebe está lhe dando um selinho”. A foto tirada será enviada em tempo real para o e-mail ou celular do visitante. 

Em outro espaço, as pessoas podem curtir um momento de transformação. “Tem um local, intitulado Camarim, em que você vai sentar na cadeira de cabeleireiro e, ao se olhar no espelho, vai perceber que vai se encaixar em peruca da Hebe, e mais, os cabeleireiros dela vão arrumar seu cabelo, narrando histórias sobre ela”, explica o curador sobre outro destaque da mostra, que será uma diversão de começo ao fim, sempre com essa interatividade. 

Uma outra atração da mostra é uma ala em que foram colocadas 360 lentes e o público passa no meio delas e percebe como é essa relação do artista com a exploração do visual. “Hebe foi a primeira estrela da TV brasileira cuja fotogenia foi essencial, antes dela, todas as artistas eram somente do rádio, e aí, de repente, chega ela que imprime sua marca por meio de sua imagem”, explica o curador sobre o motivo de ter montado essa ala com tantas lentes.

O público vai se deslumbrar ao entra no Closet, local onde foi recriado um dos pontos da casa da artista. Nele, está uma parte importante para a apresentadora. É onde os curadores tiveram o trabalho de selecionar vestidos, bolsas, sapatos, acessórios, em suma, o guarda-roupa de Hebe, que soma, ao todo, 27 modelos, que inclui peças assinadas por grandes estilistas, mas, em cada um, terá uma imagem da artista usando as roupas expostas. 

E essa questão do acervo de Hebe, o curador disse que nem tinha tantos objetos assim. “Ela tinha muita coisa guardada, mas ela também deu muita coisa em vida”, explica Marcello, que diz que isso se deve ao fato de Hebe não se apegar às roupas. “Em vida, ela dispersou essa memória, por isso, coisa muito antiga não tem, porque ela não ligou para isso, acredito que nunca tenha imaginado, que poderia se transformar em personagem histórico, pois não se via como uma lenda, nem como uma diva.”

O lado cantora de Hebe Camargo também mereceu um espaço pensado especialmente para ele. É o Hebe em Canto, no qual o visitante vai conferir vídeos com ela cantando e com suas imagens sendo projetadas sobre seu piano de cauda. E tem ainda o lado espiritual de Hebe, que está registrado no último espaço, que ficou denominado Fé na Vida. Neste, um pouco dessa religiosidade dela, que era católica praticante. 

O curador Marcello Dantas finaliza dizendo que “o que parecia ser um projeto de vaidade, de superficialidade, ganhou outra conotação, ao enxergar Hebe Camargo como aquela pessoa que conseguia juntar os pedaços da sociedade, capaz de unir extremos e tornando natural as diferenças”.

HEBE ETERNA

Farol Santander. Rua João Brícola, 24, tel. 3553-5627.

3ª a sáb., 9h/ 20h; dom., 9h/ 19h. R$ 20. Até 2/6.

 

 

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