DANIEL BOAVENTURA/INSTAGRAM
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Hebe Camargo falava o que queria, sabia que tinha imunidade

Ela morreu em 2012, aos 83. Estaria hoje com o grupo do #MeToo e de todos esses movimentos, LGBT, os trans, e o que vem aflorando, brotando, regado?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 06h00

Fosse eu organizado saberia com exatidão o número de vezes que estive no programa de Hebe Camargo. Teria tudo anotado, dia, hora, assuntos. Acabei não contando nem nos dedos da mão, só digo que os da mão não dariam. Durante anos, bastava um suspiro e ela mandava a produtora Regina de Souza me chamar. Não lancei um só livro desde os anos 1980, sem que estivesse conversando sobre ele com Hebe. No dia seguinte ao programa, a editora me enviava a repercussão: a venda do livro tinha crescido. Poucos na tevê tinham tal capacidade de convencimento. Ela tinha esse poder, por muitos esnobado. Imagine falar de literatura em um programa brega? Essa mulher foi objeto de um estudo sociológico de alta envergadura, escrito por Sergio Miceli, A Noite da Madrinha. “O programa de Hebe Camargo reunia as qualidades necessárias para um projeto de tal natureza, desvendar os suportes ideológicos e as condições em que se consolidava a indústria cultural do País: era líder de audiência e capaz de duplicar no vídeo a sala de visitas da família burguesa”, escreveu Miceli.

Conheci Hebe ainda na TV Tupi, no programa Almoço com as Estrelas, de Aírton e Lolita Rodrigues. A gente comia massas frias, mas passava o recado. No final dos anos 1970, creio eu, nossa amizade se consolidou. Hebe vinha sendo atacada vorazmente porque tinha dito que era amiga de Paulo Maluf. Sei, Maluf sempre foi um controverso e patético personagem político. Foram rajadas e mais rajadas da mídia. Na época, eu escrevia no Shopping News, onde comecei a fazer crônicas, e a defendi. Porque me veio que as pessoas têm o direito de escolher suas amizades, ideologias, religiões, isso seria democracia. 

Semanas depois, fui avisado de que um carro me esperava na frente do meu prédio. O motorista me disse que eu estava convidado para uma visita à apresentadora. Seguimos. Acima de tudo, sou jornalista, curioso, interessado. Afinal, poucos personagens do chamado show business brasileiro tiveram tanto público, adoradores fanáticos quanto ela. “Mulher de sucesso, próspera, a coroa enxuta e bem apanhada, petulante nos trajes em cores chamativas, nas frestas, nos brilhos, a platinum blonde orgulhosa de suas pernas e, por que não?, dos trunfos de mulher bonita sedutora, cuidada, quiçá uma encarnação do gênero feminino tal como apreciado e invejado no circuito de TV. Ela enche os olhos do público com joias vistosas, sem posar de ricaça”, definiu-a Miceli.

Hebe abriu caminhos para as mulheres, mesmo em meio a controvérsias e incoerências (para os outros) não para ela (afinal, era assim mesmo). Era um ser humano com luz diferente. Na casa do Morumbi, próxima à antiga casa de Baby Pignatari, ela me recebeu com o sorriso rasgado, me abraçou, perfumadíssima, me pegou pela mão, me levou ao bar e mostrou. Minha crônica estava emoldurada. E emoldurada ficou nas casas em que ela morou, até o final da vida.

Hebe era a rainha do brega, tinha um programa popularesco, rainha das joias e dos vestidos esfuziantes, decotados, falava o que queria, sabia que tinha imunidade, soltava as expressões mais doidas, e registrou como dela: “que gracinha”, “fofura” e “lindo de viver”. E quem criou o selinho com cada pessoa amada, homem ou mulher? Eu falando de meu livro mais sombrio, Não Verás País Nenhum, pesado, amargo, difícil, e ela dizendo, “Loyola, não é uma gracinha?” Lembro-me de um programa dela que causou em 1987. 

No programa Hebe e Você, o jornalista Giba Um, secundado por ela, definiu nossos parlamentares com epítetos como vagabundos, corja de ladrões e safados, o que indignou até o venerando Ulysses Guimarães. Hebe ficou na dela, nada aconteceu. Os que foram assim definidos eram da Constituinte. Imaginemos se fosse esse Congresso de hoje, com a maioria denunciada por Curitiba. Este sim é show business. Hebe era fiel aos amigos, de gamas as mais variadas. Ela gostava, acabou. Fui o editor de uma Vogue especial sobre ela. Pela primeira vez, ela abriu a casa, deixou fotografar as joias (sem medo), os closets e sentou-se à beira da piscina para uma conversa muito aberta, emoldurada por muitas caipiroscas, uma de sua bebidas favoritas. Foi nessa tarde que ela me disse (e o fotógrafo Miro estava junto): “Quero, um dia, dar uma entrevista sobre sexo e amor, em que vou falar tudo. O que vivi, o que sofri, o que amei, o que fui obrigada a fazer. Muita gente vai se surpreender, vai me conhecer. Ninguém conhece esta Hebe por dentro”.

E então me veio, certa vez, em que fui ao seu programa, para ser entrevistado um bloco antes de Gloria Gaynor, em uma de suas passagens por São Paulo. Ela comentou sobre Gaynor e I Will Survive, que estourara mundialmente. “Você viu essa mulher? Está levando muita gente a sair do armário. Fico curiosa, tudo que era camuflado, escondido, contra moral, está sendo aberto para o homem e a mulher. Esses gays, lésbicas, estão se liberando. Como será esse amor entre pessoas do mesmo sexo? Não será um assunto para um grande programa? Onde vamos chegar? Mas é um mundo melhor, apesar de tudo. Principalmente se comparado com o meu, minha época, o que vi.” Ela morreu em 2012, aos 83. Estaria hoje com o grupo do #MeToo e de todos esses movimentos, LGBT, os trans, e o que vem aflorando, brotando, regado? Miceli, que abriu um caminho entre a intelligentzia, escreveria um novo livro.

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