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Há algo podre no reino do glamour

Ferina, série mostra lado B de uma capa de revista

Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo

29 de março de 2010 | 08h00

"Converso com todo mundo, em qualquer lugar. Outro dia, no calçadão de Copacabana, uma puta me chamou: ‘Miguel Falabella! Você fala inglês?’. Eu disse que sim e ela, me apontando um gringo: ‘Então diz pra ele que eu posso transar, mas não posso dormir, porque tenho que levar minha filha na escola amanhã cedo.’ Traduzi para o gringo, que topou e foi logo pagando o programa - 500 reais. E a puta tirou uma nota de 50 e me deu. Eu disse ‘o que é isso?’. E ela, apertando a minha mão ‘tá todo mundo na batalha, amor’."

 

Talvez o hiperativo mais notório da TV, Miguel Falabella também é hiperconversador. Dos taxistas aos paparazzi que dão plantão no manjado Leblon, qualquer um prende sua atenção "desde que seja interessante". São conversas que rendem histórias divertidas como esta acima e, mais tarde, material para a ficção, como a série A Vida Alheia, sua nova investida na Globo depois do seriado Toma Lá, Dá Cá, que terminou no ano passado.

 

"Parto do princípio de que gente sempre é interessante. Mas se for desinteressante, tem chance de dois minutos comigo. Assim é minha relação com a imprensa", compara ele, famoso no meio por botar repórter para correr. "Outro dia, uma chegou dizendo: ‘Você que ganhou dois prêmios Mulher...’. Eu disse: ‘Prêmios o quê, minha filha?’. Ah, tomou uma invertida que saiu até bamba", diverte-se - para constar, ele é vencedor dos prêmios Molière de 1984 e 1991. "O mundo das celebridades tem isso. Como é muito imediatista, eles (os editores) põem qualquer um para cobrir. A maioria sequer sabe do que está falando."

 

Mas, apesar dos episódios que envergonham a classe, colecionados em 30 anos como entrevistado, o autor resolveu pôr no centro de A Vida Alheia uma repórter de faro aguçado e grande valor - Manuela, ironicamente interpretada pela atriz Danielle Winits, ela mesma vítima da imprensa especiliazada em celebridades -, uma editora peçonhenta, mas de extrema competência - Alberta Peçanha, papel de Cláudia Jimenez - e um paparazzi com coração e escrúpulos - Lírio, interpretado por Paulo Vilhena que, como Danielle, é vítima dos cliques indiscretos na vida real.

 

Sob o slogan "Vida Alheia - Mais interessante que a sua", Alberta chefia a redação medindo forças com a dona da revista, a socialite Catarina Faissol (Marília Pêra). Pelas cenas apresentadas no encontro com a imprensa, há duas semanas, já deu para perceber que os embates entre as duas personagens são imperdíveis. "Em uma das cenas, a Manuela diz à Alberta que a entrevistada não quis falar sobre seu problema com alcoolismo. Daí, a Alberta começa a ditar: ‘Abre aspas. O problema dela com o álcool tem se agravado nos últimos tempos. Fecha aspas.’ E a Manuela pergunta: ‘Tá, e quem disse isso?’. E a Alberta: ‘Vírgula. Disse uma amiga que não quis se identificar’", adianta Falabella, às gargalhadas.

 

Mesmo divertida, Falabella não gosta de classificar a série como uma comédia, simplesmente. "Ela tem também um lado investigativo, que eu acho que as pessoas vão gostar bastante. E é bem realista, não tem um clima de farsa nem pastelão. Claro que tem um lado bastante ficcional, porque nem tem tanto escândalo assim na vida real", observa o autor. "Um ponto importante é que, no meio de tudo aquilo, a Manuela é uma excelente repórter. E acho que a série é humana porque é contada sob o ponto de vista dela. Mas nem posso dizer isso muito alto, que a Marília não pode ouvir (risos)."

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