Globo retrata Bahia na Bahia

Derivada do cinema, nova série da Globo subiu o Pelô e dispensou os estúdios do Projac

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2008 | 21h19

Do filme, a crítica não gostou. Classificado pejorativamente como "axé-movie", Ó Paí, Ó, de Monique Gardenberg, agora terá na TV a chance de quebrar preconceitos - e o desafio de ganhar o público do centro-sul do País. No dia 31, o longa-metragem sobre a vida dos moradores de um cortiço no Pelourinho, em Salvador, estréia como seriado na Globo, uma co-produção entre a emissora e a Dueto Filmes. "Falaremos direto com o povo. Porque o cinema ainda é uma arte que dialoga com a crítica. Mas Ó Paí, Ó dialoga com a cultura popular", diz a diretora. "Não é preciso ser metido a besta, a intelectual, para falar de problemas sociais."E é com muito deboche - marca do Bando de Teatro Olodum, criador da história para os palcos - que temas polêmicos serão retratados em seis episódios, com começo, meio e fim. De racismo a pirataria, de saúde pública a altas taxas dos bancos, passando pela adoção de criança por gays e mercado negro.No meio de toda essa contestação social, a série também quer trazer para a TV uma Bahia mais pop e, apesar dos problemas, festiva. Por isso, além de roupas e cenários coloridos, a aposta, claro, é muita música.Assim como no longa, Lázaro Ramos será Roque, o protagonista politizado, que tem o sonho de se tornar cantor famoso. É ele quem vai rebolar e interpretar canções de Riachão, Gilliard, Skank, Calipso, entre outros artistas. "Fiz dois meses de aula de canto para adaptar o timbre da voz e gravei em estúdio", explica o ator. "Foi difícil, porque a voz do Roque é aguda como a dos cantores de trio elétrico ."O tom da comédia ficará por conta dos diálogos em "baianês", do jeitinho brasileiro de resolver problemas e do visual esdrúxulo e jeito abilolado do vilão Queixão, de Matheus Nachtergaele. Chamado por Monique para substituir Wagner Moura (no filme, o vilão Boca), Nachtergaele aceitou o convite na hora, mas confessa que ficou apreensivo. "Substituir o Wagner não é tarefa fácil. Mas a gente procurou não vincular os dois vilões. O Queixão não é total do mal, é tipo maluco. Está mais para um vilão Tarantino", define o ator.CRIAÇÃO COLETIVAAlém de Lázaro e Nachtergaele, o telespectador verá na série poucos rostos conhecidos da TV. Stênio Garcia, Virgínia Cavendish e Preta Gil aparecem apenas em participações especiais. Cerca de 70% do elenco da trama é formado por atores baianos do Bando de Teatro Olodum, que participou do filme."Foram meus primeiros ídolos. É o grupo que me deu formação. Eles representam no teatro uma parcela pouco representada", orgulha-se Lázaro. O ator fez parte do começo do bando, que hoje tem 18 anos e conta com 30 atores negros.Para criar os personagens de seus espetáculos teatrais, o grupo vai às ruas observar personagens. E todos participam da criação. Assim foi com Ó Paí, Ó."Quando vi o filme, pensei: ?Quero fazer parte desse bando?", conta Guel Arraes, que escreveu os roteiros do seriado, em parceria com Jorge Furtado e colaboração de Monique e Mauro Lima (diretor de Meu Nome Não É Johnny).Depois de escritos, os roteiros iam para as mãos do bando, que improvisava situações e colocava o jeito de falar do Pelô. De volta aos roteiristas, expressões locais eram traduzidas e saía a versão final. A direção dos episódios também foi dividida entre Monique, Mauro Lima, Carolina Jabor e Olívia Guimarães. "Foi meu sonho de uma TV de criação coletiva", diz Arraes.Em busca de veracidade, a série dispensou estúdios e cenários no Projac. Tudo foi filmado em Salvador, com equipe e figuração locais.E o Ibope? Será que a série agrada quem está longe da Bahia? "O público verá as coisas em uma linguagem diferente do centro-sul. No cinema sofremos preconceito, mas na TV não há filtro. Falamos com o povo", anima-se a diretora.

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