Débora 70/Divulgação
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Fome de criar

Forçado a se reinventar com pouco dinheiro, Canal Brasil vira a casa da transgressão com a grade mais eclética da TV

Patrícia Villalba / RIO

03 de abril de 2010 | 16h00

Imagine que você é um executivo de um canal de televisão e alguém lhe propõe: "Que tal a gente dar um talk show para o Zé do Caixão apresentar?". Ou então "Vamos botar um maluco na cozinha, que não entenda quase nada de culinária, para comandar um programa de culinária destinado a solteiros?".

 

Dito agora, que O Estranho Mundo de Zé do Caixão e o Larica Total já provaram ser divertidos e cult, a proposta não soa tão absurda. Mas dá para imaginar qual foi a dose de ousadia necessária para levar ao ar programas como o Sem Frescura, no qual o ator Paulo César Peréio entrevista personalidades sob uma ótica bastante particular, e o Larica Total, sátira aos programas de culinária comandada por Paulo Tiefenthaler - ainda mais na TV atual, tão engessada pela guerra de audiência e pela simples e preguiçosa compra de formatos estrangeiros?

 

No Canal Brasil, apresentadores pouco prováveis são mais do que bem-vindos e ideias absurdas à primeira vista são praticamente uma linha editorial. Nesse espírito, o ator Michel Melamed (o Bentinho da minissérie Capitu, da Globo) teve carta branca para criar o Campeões de Audiência, que estreia dia 15, à meia-noite. É, sem sombra de dúvida, o programa mais ousado do canal e que deve coroar uma reestruturação de grade iniciada em 2004, quando os tempos eram de "ou vai ou racha".

 

Campeões de Audiência surgiu, em primeiro lugar, do convite que o diretor-geral do canal, Paulo Mendonça, fez a Melamed para bolar um programa - no Canal Brasil é comum que artistas sejam convidados a propor projetos. Já a ideia veio da incredulidade do ator diante da TV- na verdade, diante do computador, porque ele só vê televisão pela internet -, ao se deparar com os programas sofríveis que recheiam a tarde e os domingos da TV aberta. "Como é possível que certas coisas passem às quatro da tarde, para milhões assistirem?", questiona o ator, em entrevista ao Estado. "É o nada, o que está sendo dito é o nada e a pessoa que está apresentando não tem a mínima condição de elaborar qualquer pensamento que preste."

 

Laboratório. Se na maior fatia da TV convencional há o nada, em Campeões de Audiência há o tudo ao mesmo tempo agora. São 26 programas independentes, dois por episódio, exemplares de um tipo de programa que não faria brilhar os olhos de qualquer executivo de TV - exceto, claro, os olhos do pessoal do Canal Brasil. Uma das ideias mais bacanas é o Celebrity Sono TV - "a última barreira do mundo das celebridades". Melamed acompanha o ator Rodrigo Santoro até a beirada de sua cama, minutos antes do sono. "Eu pergunto como e a que horas ele costuma dormir, se sonha muito, coisas do tipo", detalha o apresentador.

 

Há ainda uma degustação animada de águas, com presença do músico Jorge Mautner e das atrizes Luana Piovani e Letícia Sabatella - no Canal Brasil chama a atenção, aliás, a qualidade de apresentadores e entrevistados, alguns dos nomes mais consagrados do meio cultural -, e a Novela em Vermelho, na qual tudo remete àquela cor.

 

Transgredir. Se não agradarem a todos, e realmente não há pretensão alguma nesse sentido, os 26 programas de Melamed vão, no mínimo, elevar a dose de transgressão na TV.

 

E a transgressão é, em última análise, a tábua de salvação para um canal que começou há 11 anos como guardião da memória do cinema nacional e quase morreu na praia, em meio à disputa de gigantes como Telecine e HBO pelo filé dos filmes brasileiros. "De 2004 para cá, tivemos de diversificar a programação, com criatividade", observa Paulo Mendonça. "Imagina que melancólico seria um canal pequeno, com um orçamento pequeno, e tentando ser igual aos outros."

 

A oportunidade de transgredir é o que leva atores que estão no ápice da popularidade - como Lázaro Ramos (do Espelho) e Selton Mello (do Tarja Preta) - a desenvolverem projetos ali. Eclético e cheio de prestígio, o time de apresentadores é o grande trunfo do canal - vai do dramaturgo Domingos Oliveira (Coisas Pelas Quais Vale a Pena Viver) ao músico Charles Gavin (O Som do Vinil). "Nossos apresentadores são verdadeiros curadores. E como é um canal menor, podemos experimentar mais. Eles fazem aqui o que não podem fazer num ambiente normal de televisão", justifica Mendonça.

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