Globo/Caiuá Franco
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Fim de ‘Tapas & Beijos’ encerra fase de longas temporadas das séries do País

Seriado abordou questões do dia a dia e de afeto com humor, sem jamais cair no lugar-comum

Cristina Padiglione e Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

13 de setembro de 2015 | 05h00

Foram cinco anos de DR (discutindo a relação), sem que Fátima (Fernanda Torres) e Sueli (Andréa Beltrão) se permitissem cansar o interlocutor. Tapas & Beijos se despede de vez das noites de terça esta semana, com o 168.º e último episódio do seriado criado por Cláudio Paiva e Maurício Farias. O título sai de cena sem nenhuma perspectiva de que um novo seriado capaz de ficar no ar durante o ano todo o substitua. O que prevalece são enredos que se revezam em temporadas mais curtas, de 10 a 13 episódios, caso de Mister Brau, com Lázaro Ramos, que entra na vaga de Tapas na terça-feira da semana seguinte, dia 22. E se aí não está o fim de uma era, está, no mínimo, o marco de uma TV em profunda transformação, como reconhece Fernanda Torres.

“Não sei se seriados como A Grande família e Tapas voltarão a existir nesse formato de 37 capítulos inteiros por um ano todo”, diz a atriz. “Acho que haverá seriados mais curtos e com meias temporadas. Parece que 13 é o número forte. E tem a TV sob demanda: você compra os 13 episódios de uma vez. São muitas janelas para se experimentar, uma certa abertura e uma diluição do dinheiro por várias plataformas.” 

Já que a proposta era fechar a lojinha antes que o público se exaurisse das duas amigas vendedoras, pode até ser que elas voltem em um longa-metragem, plano que habitou as conversas de elenco e equipe durante algum tempo e depois foi engavetado. Faltava alguém que tivesse tempo para sentar e escrever um bom roteiro, mas um filme em torno de Fátima e Sueli ainda não é carta fora do baralho. A Grande Família teve seu longa-metragem e Os Normais, também encerrado em seu auge, após três anos, rendeu dois filmes, o que deu ao público a sensação de ter durado mais tempo na TV. “Até hoje, as pessoas veem”, comemora Fernanda, a Vani daqueles dias.

Na próxima terça, 15, Fátima e Sueli se mostram em um novo tempo e espaço. Já faz dois anos que não frequentam aquela rua de Copacabana que as abrigou por quase cinco anos. Finalmente prontas para subirem ao altar, agora com novos namorados, as duas recebem a notícia de que Djalma (Otávio Müller) está à beira da morte e quer vê-las em seu leito de moribundo. Lá vão elas ao encontro do ex-patrão e do vizinho, seu Chalita (Flávio Migliaccio). Ao tomarem conhecimento da história, Jorge (Fábio Assunção) e Armane (Vladimir Brichta), também já distantes de Copa, correm ao encontro das duas no antigo cenário. Se elas ficam ou não com eles, só vendo.

À espera do desfecho, Andréa Beltrão anda pela sombra – “debaixo das marquises” – para não ser vista por São Pedro. “Não quero chamar atenção”, anuncia. Depois de quase 15 anos ininterruptamente no ar – emendou os oito anos e meio de A Grande Família com cinco de Tapas & Beijos –, ela se confessa exausta. “Sabe quantas novelas é isso? Um monte. As pessoas acham que, porque o programa é semanal, é moleza. Só que um capítulo de Tapas & Beijos exigia quatro dias de gravações. Quatro! E, durante boa parte desse tempo, eu estava fazendo peça, filme.” Justamente, o cinema. Na quinta-feira, 10, estreou Pequeno Dicionário Amoroso 2. O longa da diretora Sandra Werneck retoma os personagens Luiza e Gabriel, que Andréa e Daniel Dantas interpretaram no primeiro filme, de1997.

Andréa admite estar sentindo uma sensação de tristeza pelo fim de Tapas & Beijos, mas tinha de acabar. Como foi se despedir da Sueli? “Ainda não foi, está sendo. E foi um processo que começou há pelo menos um ano e meio. Não foi uma decisão repentina. Tivemos tempo de conversar entre nós e com a emissora. Então, foi um processo que foi amadurecendo. Mas é claro que dá uma dorzinha. O casamento da Sueli e da Fátima foi um dos mais bem-sucedidos que conheço. Uma história de amizade consolidada. Quer coisa mais bonita? Ando muito suscetível ao que une as pessoas. Por exemplo, a personagem da Glória (Pires) em Pequeno Dicionário Amoroso 2. Ela faz a ex-mulher do Gabriel (Daniel Dantas), que virou vidente. Ela sabe o ex-marido que tem, conhece as fraquezas dele melhor que ninguém. Mas o casamento, que não deu certo, virou uma grande amizade. Tem uma certa tristeza nisso, mas acho muito lindo.”

Também tem essa tristeza em relação a Fátima e Sueli? “Claro. Assim, como as personagens, Fernanda (Torres) e eu passamos boa parte desses cinco anos gravando. É muito tempo juntas, compartilhando tudo. E não só com ela. Eram atores, técnicos, escritores, diretores. Acho o maior barato que uma emissora (a Globo) tenha mantido esse grupo grande unido por tanto tempo, para criar um produto que a gente foi ajustando, ‘perfeccionando’, e o público percebeu isso. Fátima e Sueli viveram altos e baixos. Acima de tudo, mantiveram-se amigas, às vezes sacrificando até os namorados. Essa amizade não tem preço.” 

Se todo mundo queria liberdade para desenvolver novos projetos, qual o de Andréa? Meu projeto atual é cultivar o ócio. Nada de peça, filme, TV. ‘Nadica’ por enquanto.” Ela está jogada, então? “E lá sou mulher de ficar jogada? Estou linda, gostosa”, provoca.

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Ficou satisfeita com o final?

Fiquei satisfeita com o programa em geral. É uma trajetória feliz, um texto que dava prazer de fazer. Gosto do arco todo, de duas mulheres que trabalham, são empregadas. O programa tratava de pessoas que resolvem suas vidas afetivas no trabalho, na rua. Eu chamava de ‘Os Sem Família’. Tinha A Grande Família e ‘Os Sem Família’. O meu personagem era uma tragédia, uma mulher que tinha um homem que não era dela, mas que tinha uma amiga. É um programa sobre a amizade, o amor de rua, o amor do trabalho, pessoas que fazem análise no ônibus. A gente passa muitas horas no trabalho. A casa, às vezes, é um dormitório, e a sua vida afetiva se dá na rua.

O seriado dispensava a ideia de que toda mulher precisa casar para ser feliz, não?

Elas tinham esse interesse por casar, mas não viviam para isso. No segundo ano, a gente casou. Falei, ‘nossa, Cláudio (Paiva, roteirista), você vai casar as duas no fim do primeiro ano?’. A gente está acostumado que a curva dessas comédias românticas é casar no final e ali elas já casariam? E aí o casamento não resolve a questão afetiva, ele complica. Nisso, muitas mulheres vinham falar comigo, que se viam nelas.

Você esteve em dois seriados longevos, Os Normais e Tapas. Tem planos a seguir para a TV? 

Estou conversando com a Globo. Sinto que a TV está mudando muito.

Para pior ou melhor?’

Isso ninguém nunca sabe. Sinto que há uma nova maneira de se entreter, que inclui internet, televisão. Atualmente, vejo TV no celular, vejo GloboNews no trânsito, vejo os programas não necessariamente na ordem que eles passam na televisão. A TV está enfrentando o que a indústria fonográfica enfrentou há mais tempo. As TVs estão tentando se manter fiel a uma grade, mas experimentando outros formatos, como a novela das onze, seriados que ficam na gaveta esperando a hora certa. É uma hora de muita transformação.

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Quer dizer que sua prioridade atual é o ócio. Por quê?

Porque é muito bom quando a gente pode ficar sem fazer nada. Mas a verdade é que ninguém fica. Tem a casa, os livros, os filmes, tudo o que a gente vai deixando de lado no dia a dia. Emendei muito trabalho em muito tempo. E preciso agora de um tempo para mim, para a minha casa, meus filhos, meu marido. Estou adorando.

E como é sua vida ociosa?

Muita gente vai achar que sou louca, porque continuo levantando às 7 da manhã. Mas agora é para mim. Vou nadar no mar, jogo frescobol na praia, pratico exercícios. É ótimo.

Com tanto exercício seu, já estou cansado. O que anda lendo?

Não seja rabugento. Exercício não é só bom, é necessário. Como a leitura; estou lendo tudo. E algumas coisas ao mesmo tempo.

Não tem nada programado, mas você diz que Fátima e Sueli poderão voltar. Como reagiu quando (a diretora) Sandra Werneck acenou com a sequência de Pequeno Dicionário Amoroso?

A Sandra é muito prática. Tem gente enrolada, mas ela não. Um dia, me falou que gostaria de retomar aquele casal, ver o que ocorreu com eles. Achei interessante, disse que topava. Ela fez a mesma proposta para o Daniel (Dantas), que também topou. A partir daí, tudo foi muito rápido. A gente deu uns picotes no roteiro. E, de repente, já filmávamos.

Fui ao set e era a filmagem do começo, no cemitério. Havia um sol de rachar, a luz era complicada. Havia dois diretores, a Sandra codirigia com Mauro Farias, mas tudo funcionava, e rápido. Como foi a aventura toda?

A filmagem no cemitério? Tem gente que fica suscetível. Eu, não. Era uma cena realmente complicada, porque tinha muito diálogo, uma caminhada debaixo do sol. Mas não tem obstáculo que a Sandra não desmonte. E, se o sol cozinhava a gente, poxa, é o Rio, a gente aguenta. E havia a Camila Amado, com quem eu compartilhava a cena, maravilhosa. O bom de ser ator é ter esses encontros. Estou adorando meu ócio, mas, daqui a pouco, vou sentir falta do set, da troca, e vou querer voltar. 

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