Globo/ Raquel Cunha
Globo/ Raquel Cunha

Figurinos históricos constroem os personagens em 'Novo Mundo'

A figurinista Marie Salles está à frente da equipe que cria e veste os atores da novela de época 'Novo Mundo'

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2017 | 05h00

Nome reconhecido no meio televisivo por seus trabalhos atrás das câmeras, Marie Salles é quem assina os figurinos da novela Novo Mundo, que ocupa o horário das 18h, da Globo, dirigida por Vinícius Coimbra. Por ser uma trama de época, as roupas e adereços dos diversos personagens necessitam de um cuidado diferenciado, desde os brincos e colares aos uniformes e belos vestidos do núcleo que ocupa a Corte brasileira.

Em entrevista ao Estado, a figurinista fala de seu amor pela profissão que escolheu e do gratificante trabalho na elaboração e confecção do vestuário da obra de Thereza Falcão e Alessandro Marson. 

Como é criar figurinos para uma novela de época. Exige muito empenho?

Eu adoro fazer figurinos, trabalhar com dramaturgia, com os variados personagens, é o que move minha vida, é meu trabalho. Nunca é difícil porque é gostoso para mim. Tenho que estudar muito e, neste caso, estudei demais sobre a família real e tive várias consultorias, uma para falar sobre a Leopoldina, outra de Domitila, e ainda outra para falar de índios. 

Onde foi buscar informações para compor os trajes?

Eu li muito, foram vários livros sobre a época, muitas cartas da Leopoldina, ela escrevia muito, para os pais, para a irmã. O universo da novela é muito rico. Fala da missão austríaca no Brasil, com os botânicos, médicos e cientistas, tem piratas, ingleses, escravos e os índios. Pude trabalhar com várias referências da época. 

Existe uma fórmula para a criação das roupas. Onde você procura sua inspiração?  

Não trabalho só com a época: pego referências de tudo, do que é contemporâneo ou de outras épocas, eu ando para trás, para frente. Os piratas, por exemplo, busquei inspiração nos vikings e samurais, mas sempre respeitando a forma da época, que é 1800, do Império. É um figurino realista, só que eu trabalho com ficção. Um exemplo que eu uso sempre é do personagem Sebastião (Roberto Cordovani), que é um mercador de escravos, austero. Quando fiz seu figurino, ‘andei’ ele para trás, ou seja, ele se veste como no século 18, e estou fazendo a novela do início do século 19. Eu digo que faço o personagem e não o livro, daí que posso ter essa mobilidade de tempo, para o passado ou para o futuro. Mas respeitando a época da trama, como os homens, que usavam casaca, meia-calça, sapatilha, só que eu tenho a liberdade para adequar a personalidade ao personagem. 

Como construir o personagem pelos detalhes das roupas? 

A primeira coisa é a dramaturgia, o personagem e sua personalidade e aonde ele vai dar. A Anna Millman (Isabelle Drummond), solteira e romântica vindo para o Brasil para descobrir o mundo, usava branco e vermelho e cabelos soltos, e, a partir do momento em que perdeu o grande amor e chegou aqui, começou a escurecer, quer dizer, ficou em cores cinza-claro e o vermelho caiu para um tom mais apagado. Depois que ela casou, que a vida dela ficou uma tristeza só porque o Thomas (Gabriel Braga Nunes) começou a enclausurá-la, ela ficou mais escura e o cabelo mais preso e, depois quando descobriu a verdade dos fatos, ela volta a ser a Anna Millman de novo, com cabelos soltos. O figurino é ligado à dramaturgia. Sem texto não tem figurino.

Você tem liberdade em criar figurinos como quiser ou há alguma norma a seguir?

Quando recebo a sinopse da novela, tem tudo lá, a personalidade de cada personagem e como a história vai se encaminhar. Ali, começo a ver o universo que eu vou trabalhar. Então, converso com o diretor artístico que vai me conduzir, vai determinar como quer o personagem, e começamos a trabalhar. É um trabalho que não faço sozinha. Tenho uma equipe de 30 pessoas, formada por costureiras, bordadeiras, arrumadeiras, alfaiate, assistentes, camareiros. Ainda tem o diretor que me conduz, é o grande maestro, além do ator que faz o personagem. Então, a troca é mútua e diária.

E a questão das cores a serem usadas, como foi a pesquisa?

O Rio de Janeiro é inspirado no Debret, nas telas dele, que pintou a cidade dessa época. Assim definimos que o Rio de Janeiro seria o Debret, nos tons pastel, as cores que ele usou para pintar a cidade. O que vem de fora – austríacos, ingleses – eu fiz pelas pinturas da época, com cores mais escuras, marrom, vinho, azul-marinho, menos a Anna, que é branco e vermelho. Assim, o que vem de fora é cor escura e o Rio de Janeiro, claro. E a partir daí, cada família e cada personagem têm sua paleta de cor, isso é muito bem definido. O médico Peter (Caco Ciocler), por exemplo, chegou verde escuro e foi se abrasileirando, começou a usar cinza-claro, linhos, tecidos próprios para o calor do Rio de 1800. Quero dizer que o personagem vai se adaptando ao clima. No caso desse especificamente, quando ele começa a cuidar de pacientes brasileiros, a usar ervas nativas, começa a se abrasileirar e deixar de usar as roupas que usava, vai se adaptar ao País. Tudo dentro do roteiro, não faço nada que não esteja escrito. O personagem está mudando, como todos mudam, faz parte do que estava estabelecido.

Que tipo de tecido você usou na confecção das roupas?

Eu não uso tecido sintético, porque na época não existia. Uso basicamente algodão, ou seda, ou lã, óbvio que não uso 100% lã, se não as pessoas ficariam torradas, mas utilizo um tecido que tenha aspecto de lã.

Em meio a tantos personagens e personalidades, tem algum que gostou mais de trabalhar?

Adoro a Elvira (Ingrid Guimarães). Quer dizer amo todos, a Anna, a Domitila (Agatha Moreira), que é uma riqueza, tem um figurino que eu criei e gostei muito, ela usa tule, tecidos transparentes. Mas o meu xodó é a Elvira, porque é grande atriz e grande figurinista. Ela cria muitos figurinos, está sempre inventando. Eu me divirto fazendo a Elvira. 

Como é ver na tela esse trabalho rico em detalhes?

Adoro os personagens e seus figurinos. Um que gosto muito é do pirata Fred Sem Alma (Leopoldo Pacheco), pois é resultado de uma intensa e maravilhosa pesquisa. E a Diara (Sheron Menezes), que virou rainha africana. Todos os tecidos que ela usa na fase atual foram estampados manualmente, pois queria que tivessem aspecto rústico, como na época. Então, desenvolvemos uns carimbos, com desenhos africanos. Outro detalhe que gosto de frisar são as dragonas, os metais que os oficiais usam no ombro e revelam sua patente. Além das insígnias, broches que os reis usam, tudo feito de estanho, igual da época, aquilo é metal, tem peso. E os adereços da realeza são todos réplicas feitas com técnicas de alta joalheria. Tudo que Leopoldina (Letícia Colin) usa é cheio de detalhes, os bordados feitos em nosso ateliê. Todos os detalhes são importantes para mim. É o que compõe o personagem, sua personalidade.

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