Festival Telas leva séries e programas de TV às salas de cinema

Festival Telas leva séries e programas de TV às salas de cinema

Atores e diretores vêm ao Brasil para conversar com público sobre as produções

João Fernando, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2014 | 03h00

Em um tempo em que a produção de TV não para de crescer - o número de horas de conteúdo brasileiro nos canais por assinatura quase dobrou de 2012 para 2013, chegando a 4 mil -, o veículo marca cada vez mais território. Vista hoje não só no aparelho tradicional, mas também em pequenos celulares e até no GPS, a televisão vai ocupar, de hoje, 7, a sexta que vem, salas de cinema em diferentes pontos de São Paulo durante o Festival Telas, primeira mostra internacional da cidade dedicada exclusivamente às atrações televisivas.

Com quase toda a programação gratuita, o evento reúne mais de 200 horas de séries, documentários e programas infantis de todos os continentes. Além de atrações inéditas, será possível rever produções que já foram ao ar por aqui. “Não é um evento para por na sala de cinema o que as pessoas assistem todos os dias em suas casas. Queria colocar coisas diferentes, que não têm tanto acesso, ou coisas que já são conhecidas e dar uma visão diferente sobre isso”, explica André Mermelstein, diretor editorial.

A ideia do Telas é fazer com que o público veja como a TV, antes tida com primo pobre do cinema, vem evoluindo em qualidade, ideia reforçada pelos profissionais da sétima arte que andam migrando para a telinha. “A gente tem hoje uma produção de televisão em aspecto estético e narrativo comparável a do cinema, às vezes até melhor. Há séries mais interessantes que filmes. A ideia do festival é qualificar isso, tirar o preconceito”, defende o curador. Ele reconhece, entretanto, que há programas que ainda deixam a desejar. “É claro que há muita porcaria na TV, pois é uma indústria, tem de ficar 24 horas no ar emitindo algo. Dentro dessa engrenagem tem pérolas.”


Além da maioria das sessões diárias, haverá outras de madrugada com episódios em sequência de séries, como a francesa Les Revenants, que no País foi ao ar pelo HBO Max, e a segunda temporada de Sherlock, sucesso da BBC, exibida aqui pelo canal HD da emissora britânica. Ambas acontecerão na virada de sábado para domingo, respectivamente no Museu da Imagem e do Som e no Cine Belas Artes, um dos poucos em que os ingressos são cobrados.

“A gente tem coisas que são quase inéditas, pois só passaram em canais premium. Qual o porcentual da população que assistiu?”, endossa Mermelstein, que buscou parcerias com festivais internacionais de TV, como o Fipa (Festival International de Programmes Audiovisuels, da França) e o canadense Hot Docs. “Eles fizeram curadoria internacional para nós, pegaram os selecionados do último ano e mandaram”, conta. A leva não terá apenas produções premiadas. “As pessoas podem torcer o nariz para algumas. Mas são coisas que têm qualidade na produção. Há um trabalho por trás”. 

A programação da primeira edição do Telas não ficará restrita às projeções. Apresentadores, atores, produtores e diretores estarão presentes em mais da metade das exibições dos quase 150 programas para trocar ideias e tirar dúvidas do público após cada sessão. O festival terá ainda uma exposição com os figurinos da novela Meu Pedacinho de Chão, que foi ao ar na Globo na faixa das 18 horas.

Prevista para acontecer de 9 a 16 de novembro, a mostra com 40 roupas usadas por atores como Juliana Paes e Osmar Prado estará disponível para visitação pública e gratuita na Praça das Artes, no Centro. No dia 12, haverá sessão de um capítulo da trama de Benedito Ruy Barbosa no auditório da Faap, seguida de um conversa com o diretor Luiz Fernando Carvalho e figurinista Thanara Schönardie.

Um dos focos do Telas serão os programas de ficção criados em Israel. Mesmo sendo um mercado pequeno, por causa do tamanho da população e do idioma, o país tornou-se um exportador de formatos de séries. Um dos responsáveis por esse movimento é Rotem Shamir, criador de Hostages, que ganhou uma versão norte-americana com o mesmo nome, estrelada por Toni Collette (a mãe em Pequena Miss Sunshine). Na trama original, uma cirurgiã prestes a fazer uma operação no presidente tem a família tomada como refém por um grupo que quer que ela sabote a cirurgia.

“Nos últimos anos, programas de TV de Israel foram refeitos pelas emissoras norte-americanas. Temos pouco dinheiro para fazer televisão, é sempre uma luta”, disse Shamir ao Estado, por e-mail. Segundo ele, é possível produzir material de qualidade em qualquer lugar. “O sucesso de séries como The Bridge (produção dinamarquesa que ganhou versão nos EUA) provou que o público de todo o mundo está pronto para ver TV estrangeira desde que a história seja interessante”, avalia.

O israelense, que acompanhará a sessão de Hostages no Centro de Cultura Judaica, no dia 13, afirma que um bom exemplo de produção exportada foi BeTipul, que ganhou o mundo como In Treatment, pela HBO, e no Brasil foi rebatizada de Sessão de Terapia, do canal GNT.

O Telas também dará destaque às produções infantis. Por isso, na cerimônia de abertura, hoje à noite, haverá uma pré-estreia de Que Monstro Te Mordeu?, superprodução comandada por Cao Hamburger (de Castelo Rá Tim Bum) que estreia na TV Cultura na semana que vem. “A parte infantil está desaparecendo da TV aberta, deixando uma parte do público órfã, pois não tem muito retorno comercial. A gente quis chamar um pouco de atenção para isso”, explica André Mermelstein.

Uma das tentativas do festival foi mapear o que é produzido no País que não alcança a rede nacional, como a série gaúcha Oxigênio, da TV RBS, afiliada da Globo na região sul. “A gente buscou equilíbrio regional, mas não foi fácil. O mercado ainda é concentrado. A amostragem ainda é muito do Rio e de São Paulo, onde ainda está o grosso da produção. A gente espera ter mais de outras regiões no futuro”, torce o diretor editorial. 

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