Frank Ockenfels 3/AMC
Frank Ockenfels 3/AMC

‘Fear the Walking Dead’ confirma a tendência da TV em abraçar prelúdios de sucesso

Quando a origem da história vale a pena ser contada

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

22 de agosto de 2015 | 19h00

Havia uma melancolia por trás da canastrice de Saul Goodman, advogado pilantra de Breaking Bad, grande sucesso da TV criado por Vince Gilligan. Ao fim das cinco temporadas nas quais acompanhamos a trajetória de Walter White, o professor de química com câncer no pulmão e traficante de metanfetamina, o personagem interpretado por Bob Odenkirk saiu sem que tivesse ganho a profundidade necessária. Quem era ele? Como se tornou esse advogado especializado em pilantragem? Assim nasceu Better Call Saul, a história de origem de Goodman – quando ele ainda respondia pelo nome recebido dos pais, Jimmy McGill. 

Better Call Saul trouxe uma nova alegria aos fãs de Breaking Bad, sem apostar em obviedades da série da qual ela se origina. É uma história independente, cujo protagonista ainda está a anos-luz de distância daquele que atende pelo sobrenome de Goodman. A mesma experiência terão os fãs de The Walking Dead, série que adapta os quadrinhos de Robert Kirkman, com Fear the Walking Dead, que tem estreia mundial neste domingo, 23, às 22 horas, no canal AMC. A transformação da figura central, como de McGill a Goodman, neste caso, é com os zumbis. 

Sim, nossos amigos mortos-vivos que dão trabalho para Rick Grimes (interpretado por Andrew Lincoln) e companhia são a maior praga que dizimou a humanidade em The Walking Dead, mas nunca foi bem explicado como sobraram tão poucos seres humanos com o coração ainda batendo. A série acompanha Grimes, um policial que entra em coma quando os zumbis ainda são coisa de videogame e acorda cercado por eles. 

A derrota da civilização como ele a conhecia sempre foi um mistério. Como o governo lidou com pessoas mortas caminhando pelas ruas, comendo pessoas vivas? Esconderam por algum tempo? Espalharam o terror? E a tentativa de encontrar uma cura para essa zumbilândia toda? Não sabemos. Ou melhor, não sabíamos. O canal AMC, que recentemente chegou ao Brasil, e emissora de The Walking Dead, traz algumas das respostas a esses questionamentos em Fear the Walking Dead, com a origem de toda a história. Ambas as séries habitam o mesmo universo, em períodos diferentes, e dividem o inimigo, os zumbis. De resto, seguem caminhos opostos. 

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Prelúdios não são novidade para a TV – ou para o cinema, como pode ser visto no quadro abaixo. Tudo se encaixa na máquina da grande indústria cultural. Um sucesso comercial é transformado em trocentos outros sucessos. Isso inclui desde merchandising, como canecas, camisetas, coisas do tipo, a novos produtos culturais. 

Na TV, as tentativas que funcionaram foram aquelas que, de fato, não são uma cópia fajuta da série original. Um prelúdio precisa cumprir sua função primordial de contar essa história anterior, mas é preciso ter vida própria – e uma qualidade equivalente ao original, obviamente. 

Com Breaking Bad e Better Call Saul, tudo fluiu muito bem, embora as séries tivessem ritmos diferentes, o bom roteiro da segunda deu cabo da lentidão aparente. 

The Carrie Diaries, por sua vez, não passou de duas temporadas. A história que mostrava a adolescência de Carrie Bradshaw, a personagem principal do quarteto de mulheres da série Sex and the City. A falha ali foi outra, contudo, o público alvo. Adolescentes e jovens não eram as mesmas pessoas que liam as desventuras de Carrie e suas amigas. Erro primordial e responsável por fazer com que a atriz AnnaSophia Robb, protagonista de Diaries, tivesse que procurar um novo emprego bem antes do planejado. 

Bates Motel e Hannibal são dois outros exemplos bem-sucedidos porque, além da qualidade acima da média, fogem da mesma mídia. Inspirados em clássicos do cinema, no caso Psicose (1960) e na trilogia iniciada com O Silêncio dos Inocentes (1991), os seriados deram vida própria aos vilões dos longas e mostram novos lados dos personagens. 

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O desafio de Fear the Walking Dead é mínimo. A fórmula de humanos vivos contra humanos mortos deu certo em The Walking Dead. O grande diferencial dela era a relação entre humanos vivos, como os cacos de sociedade sobrevivem ao apocalipse. É o caminho que deve seguir o novo prelúdio a tentar a sorte entre as produções de TV, ao acompanhar a família disfuncional de Cliff Curtis e Kim Dickens. Enfrentar as comparações deve ser um duro golpe para a derivada, mas o contexto histórico diferente deve ser suficiente para garantir boas temporadas. 

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