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Fazer ou não fazer personagem racista, eis a questão

Com receio de falar sobre o tema em uma fase tão conturbada da América, o ator Vincent D’Onofrio pôs a questão no Twitter

Kyle Swenson  , The Washington Post

15 de agosto de 2018 | 06h00

Decidir elencos é a nova frente da guerra cultural. Discussões sobre quem deve e quem não deve fazer este ou aquele papel, levando-se isso ou aquilo em consideração, fervem a cada anúncio de um novo filme ou série de televisão.

Idris Elba poderia ser o novo James Bond? Pausa para as reações. 

Atento às novas dúvidas do show biz, o ator Vincent D’Onofrio, protagonista da série Lei e Ordem – Crimes Premeditados e indicado para o Emmy, mandou um tuíte para seus 180 mil seguidores. O post deflagrou discussões entre fãs e entre colegas de D’Onofrio sobre o que deve ser a arte de representar em tempos de intensas divisões políticas. 

“Vou fazer uma pergunta e quem quiser responda”, tuitou D’Onofrio. “Já tenho minha opinião, que não vou revelar. A pergunta é: seria esse o momento apropriado (considerando-se o mundo em que estamos vivendo) de eu fazer um personagem irrecuperavelmente racista numa série dramática?” Segundo um post do ator, foram quase 2.500 respostas. 

Em resposta a alguns dos tuítes, D’Onofrio explicou por que estava em conflito sobre mergulhar num personagem racista. Sem revelar qual seria a série ou dar detalhes sobre o papel, o ator falou em “ascensão do racismo” e na “terrível normalização” da prática na atual cultura. “Agora mais que nunca precisamos escolher um lado”, escreveu. “Quero proteger as vítimas e reeducar os culpados.”

E acrescentou: “Racismo é algo que está realmente acontecendo em nossa sociedade. Se não é em sua casa é na casa do vizinho, ou em sua rua”.

Alguns repreenderam o ator por cooptar a sociedade para suas dúvidas.

Vince D’Onofrio é um bom ator e um bom cara e não o culpo por sua cautela nos dias de hoje”, escreveu um. “Mas algo está errado numa cultura em que alguém precisa pedir permissão para tomar decisões como essa.” 

“Se você acha que deve fazer, não fique perguntando – simplesmente faça”, disse outro. Outros, porém, compartilharam as preocupações de D’Onofrio. “Mesmo histórias com finais edificantes me assustam, porque são sempre os oprimidos a dar lições aos racistas, em lugar de estes aprenderem por si mesmos”, tuitou um. 

“Não gostaria de uma história na qual racistas sejam mostrados como pessoas que podemos compreender e com as quais é possível se relacionar”, argumentou alguém. 

Outra linha de respostas incentivou D’Onofrio a fazer o personagem, pois como “bom ator que é” poderia dar mais significado ao papel. “Prefiro um ator talentoso como você fazendo o papel para mostrar bem por que o personagem é irrecuperável”, tuitou um. 

Os pensamentos conflitantes de D’Onofrio sobre representar um racista parecem também ter ocorrido a colegas atores, como Cal Wheathers, Ron Perlman e Donal Logue.

“Tudo depende de você estar promovendo um comportamento racista ou estar esclarecendo seus efeitos na sociedade”, opinou Weathers. “Brando fez isso em Roots. Somos atores, cara! Se o personagem é fascinante, você tem de fazer”, disse Perlman. “Também acho. Você dá grande autenticidade a qualquer personagem que faz, e as pessoas precisam ser confrontadas com verdades profundas”, acrescentou Logue. 

D’Onofrio não disse se tomou uma decisão. Mas a experiência de dialogar em tempo real com fãs, colegas atores e curiosos em geral parece ter sido bem-sucedida. “Não fiquei apenas impressionado com tantas respostas”, escreveu D’Onofrio. “Fiquei sensibilizado por colegas de profissão, muitos dos quais nem conheço pessoalmente, responderem. É um sinal de que as pessoas precisam de discussões cívicas.”

(TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ)

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