Ronen Akerman
Ronen Akerman

'Fauda' amplifica ódio na 2ª temporada

Série disponível na Netflix mostra o sofrimento nos dois lados da fronteira entre Israel e os territórios palestinos

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 18h00

Já disponível na plataforma Netflix, a segunda temporada da série Fauda amplifica o ódio e o sofrimento nos dois lados da fronteira entre Israel e os territórios palestinos.

A verossimilhança é preservada, apesar de alguns deslizes pontuais. O principal deles é a desenvoltura dos terroristas que circulam entre Tel-Aviv e Ramallah, na Cisjordânia, carregando bombas e armas.

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Quem conhece a região sabe da dificuldade de cruzar a fronteira e como é minuciosa a verificação de documentos nos check points. Mas isso é um detalhe. A série ficou ainda mais perturbadora com a entrada em cena de uma organização que causa calafrios no Ocidente: o Estado Islâmico.

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Os protestos de ativistas pró-Palestina contra a Netflix registrados após a estreia da primeira temporada não se repetiram com a mesma intensidade. Depois de estrear na TV israelense em 2016, a série ganhou o mundo e conquistou a crítica após ser adquirida pela plataforma de streaming.

Para os não iniciados, Fauda é uma série de ação e suspense que, à primeira vista, parece uma versão israelense e fracionada do longa Tropa de Elite, de José Padilha.

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A trama, porém, é ambientada em uma das regiões mais turbulentas do mundo. Com diálogos em hebraico e árabe, Fauda coloca em cena um mosaico de polêmicas. Mas apesar da origem israelense, a série não trata com condescendência as autoridades e forças de segurança do país.

O primeiro-ministro, por exemplo, é um político ambicioso e com muitos esqueletos no armário. A política propriamente dita é um jogo de chantagens e ameaças. 

As estratégias da unidade de contraterrorismo que comanda ação, por sua vez, contemplam a tortura bárbara como rotina de trabalho. O outro lado é pintado com cores fortes.

A lealdade, a fé e o fanatismo dos “mártires” escalados para abrir mão da vida com bombas coladas ao corpo em nome da causa palestina se contrapõem ao oportunismo político dos líderes das facções terroristas, que usam seus militantes como massa de manobra.

Mas também há afeto, amizade sincera e amor na complexa relação subterrânea entre representantes dos dois mundos. Tudo é exacerbado em Fauda. Há uma urgência na rotina que deixa todas as cores fortes.

A doce filha de um líder religioso assassino é obrigada pela mãe a abandonar em um ponto de ônibus o enorme urso que ganhou de presente em um hospital israelense. Todos se afastam achando que se trata de uma bomba.

Adolescentes jogam bola nas ruas de Ramallah sem imaginar que uma tragédia está prestes a acontecer no momento em que um terrorista devora barras de chocolate Toblerone para aliviar a tensão.

Após terminar o último tablete, ele recebe de um aliado a encomenda tão esperada: gás sarin. O emissário explica então o procedimento: primeiro parece um resfriado, mas logo começa a sufocar. Então vem o vômito e, por fim, a morte.

Realismo. A peça de resistência de Fauda é a atuação de Lior Raz, cocriador da série e também protagonista. É ele que interpreta o ex-agente Doron, que foi tirado de sua zona de conforto em uma vinícola onde vive com a família para participar de uma derradeira missão: matar um terrorista que todos achavam que já estava morto.

Seu time é formado por agentes que, como ele, estão na casa dos 40 anos. São pais de família carinhosos no pouco tempo livre que desfrutam e máquinas de matar em serviço.

A eles não é permitido pensar em nada além do alvo. Se isso acontecer, como diz um agente, a imagem de casa é capaz de petrificar o indivíduo e colocar tudo a perder.

Fauda é uma série que deixa marcas em quem assiste. Quem consegue chegar ao fim, nunca mais vê o conflito no Oriente Médio do mesmo jeito. 

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