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‘Fariña’ acompanha trajetória de pescador que se torna um poderoso traficante

Baseada em história real, nova série espanhola da Netflix confirma boa fase das produções do país

Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2018 | 06h00

Depois das bem-sucedidas La Casa de Papel, Merlí, El Ministério del Tiempo e As Telefonistas, a série Fariña, que entrou em agosto no cardápio da Netflix, confirmou o excelente momento das produções espanholas na plataforma. 

O produto mais recente da safra também consolidou o país como o principal polo de produção de séries da Europa. Não foi por acaso que Madri foi a escolhida para receber o primeiro estúdio (na verdade um complexo) da Netflix no velho continente.

Fariña é uma superprodução baseada nos mesmos fatos reais que inspiraram Narcos, a série sobre o narcotráfico que mostrou a ascensão e queda dos cartéis de drogas colombianos. 

A duas histórias se cruzam e se complementam. Alguns personagens estão presentes nas duas narrativas sobre como nasceu e se espalhou pelo mundo a epidemia da cocaína

A série espanhola, porém, supera Narcos em quesitos como rigor histórico, desempenho do elenco, reconstituição de época e trilha sonora. 

A história começa nos anos 1980, quando a Galícia se transformou na maior porta de entrada de drogas da Europa. Pablo Escobar já era um mito quando os colombianos enxergaram nos milhares de quilômetros de costa da região uma oportunidade de promover uma expansão sem precedentes nos negócios. 

Havia ali uma combinação perfeita que ia muito além da geografia. 

Com a indústria pesqueira em decadência, muitos comerciantes e empreendedores locais passaram a se dedicar ao contrabando de tabaco, uma atividade que contava com a aceitação velada do povo, já que aquecia a economia. 

Para as autoridade regionais e o governo central o negócio do tabaco ilegal era tratado como uma contravenção menor. Ninguém ia preso se flagrado carregando centenas de caixas de cigarros da marca Winston.

Pagava-se uma multa e estava tudo certo. O risco valia a pena. Quando o tabaco substituiu o peixe, os pescadores com mais faro para os negócios se uniram em torno de uma espécie de cooperativa. 

Liderados pelo veterano Vicente Otero Pérez, o ‘Terito’ (Manuel Lourenzo), eles eram felizes, mas não sabiam. Não eram milionários, mas levavam uma vida confortável. Era mantido um código de ética e conduta parecido com o da Máfia, mas a violência era algo raro.

Não eram usadas armas de fogo e todos eram respeitados (e admirados) pela comunidade. 

Havia uma fraternidade entre os membros da cooperativa, que jogavam dominó e promoviam jantares de confraternização. 

Hábil piloto de lanchas rápidas e pescador, Sito Miñanco (Javier Rey) foi o último a se integrar ao grupo. 

Chegou de maneira involuntária: foi obrigado a transportar tabaco após ser responsabilizado pela perda de uma carga.

Era para ser só uma viagem, mas foi ficando e acabou montando o próprio negócio. Largou a pesca ilegal e tornou-se um dos ‘capo’ da cooperativa de tabaco. 

Foi o começo do fim da inocência. Parece contraditório, mas a “culpa” pela abertura da Galícia para os cartéis colombianos foi do governo. 

Ao fazer uma ofensiva legalista para acabar com o contrabando de tabaco, o que implicou a aplicação de leis mais duras – o que incluía a prisão – o poder público colocou os inofensivos cigarros no mesmo patamar de qualquer outro produto ilícito.

Foi Sito que se aproximou dos colombianos e convenceu todos da ‘cooperativa’ que, se era para correr riscos, que fosse então por um bom motivo. 

Esse é só o começo de uma história que marcou a Espanha e apresentou para o país um obstinado juiz chamado Baltasar Garzón – o mesmo que nos anos 1990 ganharia fama mundial ao emitir uma ordem de prisão contra o ex-presidente do Chile, Augusto Pinochet, pela morte e tortura de cidadãos espanhóis.

Produções espanholas na Netflix 

O que mais chama atenção na supersafra de séries espanholas é que elas transitam muito bem em todos os gêneros. A febre mais recente no Brasil foi com Merlí. Quem chegou ao fim da saga do professor de filosofia que leva o nome da série sofreu da mesma abstinência dos fãs de La Casa de Papel ao fim da último episódio da última temporada.

El Ministerio del Tiempo não faz feio ao brincar de Túnel de Tempo e As Telefonistas, primeira produção original da Netflix na Espanha, é um novelão competente com mulheres na linha de frente. 

A sequência passa pela caprichada produção O Tempo Entre Costuras, que é baseada no livro homônimo da escritora espanhola María Dueñas.

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