'Falo mais do que deveria'

Lucas Mendes fala ao 'Estado' sobre a mudança de casa do 'Manhattan Connection'. Depois de 17 anos no GNT, programa migra hoje para a Globo News

Patrícia Villalba, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2011 | 09h00

Lucas Mendes nem imaginava, mas eis que o seu Manhattan Connection, há 17 anos no GNT, era o programa de audiência mais masculina do canal que, ao longo dos anos, foi ficando cada vez mais feminino. A informação, conta ele ao Estado, apareceu numa pesquisa que lhe foi repassada pela diretora do GNT, Letícia Muhana, pouco antes da notícia fatídica. "Só soube disso no dia em que ela me falou que estávamos sendo despejados do GNT", diz ele que, recuperado do susto ao saber que o programa migraria para a GloboNews, está certo de que a mudança será para melhor.

A troca do Manhattan Connection é a primeira de uma série de mudanças que o GNT fará em sua grade neste ano, especialmente a partir de março - o canal promete estrear 20 produções nacionais originais em 2011. A GloboNews, por sua vez, também se repaginou no final do ano passado e, por isso, esse pareceu um momento mais do que conveniente para receber Lucas Mendes e seus companheiros de bancada. A ideia é que, no canal de notícias, inserido num contexto mais apropriado, o Manhattan Connection encontre seu público de maneira mais natural.

No ar desde 1993, o programa de debates sobre política, economia e cultura é a atração brasileira no ar por mais tempo na TV paga. Na GloboNews, acompanhado dos mesmos Caio Blinder, Ricardo Amorim, Diogo Mainardi e Pedro Andrade, Lucas Mendes estreia hoje, no mesmo horário de sempre, às 23 horas. E direto de Nova York, claro. De lá, o jornalista conversou com o Estado sobre a mudança e os rumos do programa.

A mudança de emissora vai trazer também alguma mudança na forma ou no conteúdo do Manhattan Connection?

Não vai haver uma mudança na forma, mas o conteúdo será um pouco mais jornalístico e os assuntos serão explicados com mais detalhes e mais contexto.

Nestes 17 anos de programa, o Brasil parece ter mudado muito para quem o vê daí de Nova York?

O Brasil mudou muito desde Fernando Henrique Cardoso, uma mudança para melhor. O Lula colheu muito bem o que tinha sido plantado e acho que não houve outro período na nossa história de um Brasil tão admirado e bem tratado pela imprensa. É claro que há reservas. Ainda temos um pé grande no terceiro mundo, como mostraram essas enchentes e mortes no Rio, São Paulo e Minas. Choveu muito mais na Austrália, por exemplo, mas o número de mortes por lá não chegou a 40. Mas hoje há mais ênfase no Brasil campeão de exportações de matérias-primas, agropecuária, aviões... E no Brasil do Eike Batista.

Pelo que ouvi dizer, na saída do programa da grade do GNT foi levado em consideração o fato de o Manhattan Connection ter um público mais masculino - e o GNT ser considerado, cada vez mais, um canal feminino. Você compartilha dessa opinião, acha que o público do programa é mesmo mais masculino?

Não sei qual foi a negociação de bastidores, mas é mais ou menos isso, e tenho a impressão que a ida para a GloboNews dependeu muito da ação do Carlos Schroder e do Ali Kamel (diretores de jornalismo da Globo). Eu fiquei sabendo desta pesquisa sobre nossa audiência masculina pela Letícia Muhana, diretora do canal, só no dia em que ela me contou que estávamos sendo despejados do GNT. Primeiro ela deu a notícia ruim. E, uma hora antes, eu tinha voltado de viagem da Europa e a Angélica (Vieira, a famosa produtora do programa) me contou que a (agência) Reuters, onde funcionava nosso estúdio, estava fechando as operações para equipes estrangeiras. Foram dois choques em menos de uma hora. E, no final, tudo pode não só dar certo, mas até ir para melhor. Como dizia o Fernando Sabino, se não acabou bem é porque ainda não acabou.

Depois de tanto tempo à frente de um programa que propõe uma reflexão a partir da exposição das opiniões de seus debatedores, você acha que ficou mais fácil emitir sua própria opinião?

Meu papel é tirar o máximo e o melhor dos participantes e contribuir só com informações de apoio. Mas acabo falando mais do que deveria.

Na era do politicamente correto ficou mais difícil se posicionar?

Um dos prazeres de fazer o Connection é fugir do politicamente correto.

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