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Eva Todor, a húngara que se fez brasileira de coração

Atriz que morreu no domingo, aos 98 anos, brilhou no teatro, cinema e TV

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2017 | 06h00

Mais um pouco e ela teria se tornado centenária. Eva Todor comemorou 98 anos em 9 de novembro – nasceu em 1919, em Budapeste. No domingo, 10, morreu em casa, no Rio, por volta das 8h50. O anúncio, feito por amigos, acrescentou que a causa da morte foi pneumonia. O velório público está marcado para esta segunda, 11, das 9h às 11h, no Teatro Municipal, em plena Cinelândia carioca. Dali, o corpo será transferido para uma cerimônia privada no cemitério do Caju, onde será cremado, às 16 h.

Nascida Eva Fodor, tornou-se uma atriz brasileira de teatro, cinema e televisão. Em 2012, participou de sua última novela – Salve Jorge, uma trama de Gloria Perez. Depois disso, diagnosticada com doença de Parkinson, Eva recolheu-se à sua casa, na zona sul do Rio. Imediatamente após o anúncio da morte, pipocaram nas redes sociais as manifestações de pesar. O jornalista Arthur Xexéo lembrou que ela pertenceu à era das grandes companhias de teatro e era muito engraçada. Lucélia Santos, que contracenou com Eva em Locomotivas, lembrou que a artista se definia como ‘estilo Eva’, ou seja, ninguém podia fazer o que ela fazia. 

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Seus pais eram judeus-húngaros ligados ao meio artístico e Eva começou nos palcos, ainda criança, como bailarina da Ópera Real de Budapeste. Em 1929, a família Fodor migrou para o Brasil, trocando de nome – Todor – para evitar a comparação com o palavrão. Aos 11 anos, a pequena Eva retomou o balé clássico no Municipal, onde será velada. Aos 15 anos, em 1934, debutou no Teatro Recreio, na revista Há Uma Forte Corrente. A essa altura, Eva já descobrira sua veia cômica. Casou-se, e o marido – Luis Iglesias – escrevia esquetes para ela. Seu maior sucesso era como ingênua, mas ela impregnava as personagens de malícia. O sucesso foi tão grande que, em 1940, ela já possuía companhia própria – Eva e Seus Artistas –, estreando com Feia, de Paulo de Magalhães, com direção de Esther Leão.

Naquele mesmo ano, o então ditador Getúlio Vargas foi vê-la no Teatro Municipal. Encantou-se e visitou-a no camarim. À queima-roupa, disparou – “Você não quer ser naturalizada?” Eva Todor virou brasileira. Dois anos depois, ela fez grande sucesso com Deus Lhe Pague, de Joracy Camargo, e a montagem foi escolhida por Getúlio para inaugurar o novo teatro de Goiânia – a própria cidade foi concebida para ser a capital estadual de Goiás. Seu primeiro papel dramático foi como Cândida, na montagem do texto de George Bernard Shaw, em 1946. Vinte anos mais tarde, em 1966, uma nova Eva surgiu no teatro. Foi com a montagem de Senhora da Boca do Lixo, de Jorge Andrade. Dirigida por outra figura mítica – Dulcina de Moraes –, Eva abre mão de todo recurso cômico e se investe, surpreendentemente, de uma persona trágica.

Consagrada no palco, Eva foi fazer cinema – na Atlântida. Em 1960, a era de ouro da chanchada estava se encerrando, mas ela ainda deu uma contribuição final – e genial – ao gênero. O filme – Os Dois Ladrões. O diretor, Carlos Manga, o rei da paródia. O astro, Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Teresa Diaz, o lendário Oscarito. Os ladrões do título enganam velhas ricas, trocando suas joias por bijuterias. Com o lucro, sustentam uma instituição de caridade, e terminam ajudando a ‘vítima’, Eva. No filme, ela se chama Madame Gaby. Na cena mais famosa, Oscarito e Eva repetem os gestos como se estivessem se olhando no espelho. A cena, típica de Manga, inspira-se num momento clássico dos irmãos Marx.

Teatro, cinema, mas foi na TV que Eva Todor definitivamente se tornou uma referência para o público brasileiro. Foram 21 trabalhos em telenovelas, minisséries e especiais. Um dos primeiros papéis, Ambrosina Abelha, a Dona Pombinha, seria na novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, proibida em 1975 pela censura do regime militar. Eloísa Mafalda foi quem fez depois o papel. Na sequência, Eva fez a que pode ter sido sua personagem mais conhecida – a Kiki Blanche de Locomotivas, novela de Cassiano Gabus Mendes, que foi ao ar em 1977, há 40 anos. Kiki é uma ex-vedete dedicada à família e ao seu salão de beleza, na zona sul do Rio. Além de Milena, sua filha legítima, Aracy Balabanian, tem um monte de filhos adotivos, incluindo Fernanda, interpretada por Lucélia Santos. E as duas desejam Walmor Chagas.

Eva Todor deixou sua marca em muitas novelas – Te Contei?, Coração Alado, Partido Alto, A Gata Comeu, Top Model, Ti Ti Ti, na qual retomou, como homenagem, a personagem Kiki. Hilda Furacão e Incidente em Antares foram minisséries marcantes. Em 2002, protagonizou Achados e Perdidos, de Eduardo Albergaria, como uma mulher que recebe uma carta de amor escrita para ela há mais de 50 anos. O tamanho do filme – um curta – não o impede de proporcionar a Eva Todor um papel que ela leva com a classe da grande atriz que era.

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