Pierre Yves Refalo
Pierre Yves Refalo

'Eu sou o que se pode chamar de um contador de histórias', diz Rolando Boldrin

Apresentador do ‘Sr. Brasil’, da TV Cultura, gravou show com o Casuarina, que será exibido como especial de fim do ano

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 05h00
Atualizado 19 de novembro de 2021 | 09h55

Rolando Boldrin acaba de completar 85 anos, desses são 16 à frente do programa Sr. Brasil, da TV Cultura. Com uma trajetória que cruza com a história da televisão brasileira, o apresentador tornou-se, ao longo do tempo, um dos nomes mais respeitados quando o assunto é cultura popular. Dono de uma memória invejável, o também ator e compositor é nome fundamental no resgate e na valorização da música caipira de raiz. “E eu tenho 175 obras gravadas, gravei tudo o que você possa imaginar, de ritmos brasileiros, do samba de breque à moda de viola”, contou Boldrin ao Estadão, em entrevista por telefone. 

Com tudo o que ele representa, não seria de esperar outra coisa a não ser muita comemoração. Foi assim que surgiu um show do grupo carioca Casuarina com a sua participação e que foi gravado em um teatro na sua cidade natal, São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo. Ele será tema também de um documentário dirigido pelo cineasta João Batista de Andrade, que contará sua trajetória pessoal e artística. O primeiro será exibido no dia 29 de dezembro, na emissora paulista. O segundo, também estará na Cultura, mas chegará somente no ano que vem. 

Além disso tudo, Boldrin brinda o seu público com um livro que escreveu durante a pandemia e que foi lançado recentemente. Em Causos da Televisão “Ao Vivo” e... Outras Histórias, o autor aproveitou o isolamento forçado pela pandemia para colocar no papel fatos envolvendo o início da TV no Brasil e personagens que ele observou em momentos divertidos. “Eu sempre quis fazer um livro de crônicas, então foi uma oportunidade boa que aproveitei para preencher meu tempo”, conta.

Quando partiu de São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo, incentivado por seu pai, o garoto Rolando Boldrin carregava consigo os sonhos que nutria desde a infância, viver de música, de arte. Hoje, aos 85 anos de idade, muito bem vividos e celebrados, o múltiplo artista colhe os frutos desse trabalho tão longevo e reconhecido Brasil afora.     

Tanto é verdade que o apresentador, que está à frente do programa Sr. Brasil há 16 anos, será homenageado com um especial da TV Cultura, a ser exibido dia 29 de dezembro. Para isso, gravou participação em show do grupo Casuarina, que fez um tributo às suas composições, em sua cidade natal, e que será levado ao ar como especial de fim de ano da emissora. Além disso, ele se diz lisonjeado, pois o cineasta João Batista de Andrade deu início, na própria São Joaquim, a um documentário acompanhando a sua trajetória artística e pessoal, que chegará ao canal no ano que vem. 

Ator, cantor, compositor, apresentador e escritor, Boldrin é tudo isso e muito mais. “Eu sou o que se pode chamar de um contador de histórias”, se autodefine o simpático e falante artista. Em sua extensa carreira, que começou no rádio e viu os primórdios da televisão no País, foi o primeiro a interpretar, por exemplo, Odorico Paraguaçu, de O Bem Amado, nos anos 1960. “Eu fiz a primeira novela da televisão, a segunda, também. Fiz tudo”, diverte-se o ator. 

Além de toda sua obra, que conta com inúmeras canções e atuações, ele revela que usou o tempo em casa, no isolamento por causa da pandemia, para escrever um livro de crônicas, Causos da Televisão “Ao Vivo” E... Outras Histórias (Ed. do Autor, 158 págs., R$ 38), que teve lançamento no dia do seu aniversário, 22 de outubro, em sua cidade natal. 

Em entrevista por telefone, Rolando Boldrin conversou com o Estadão e relembrou passagens de sua vida profissional, falou de amigos dessa caminhada, entre outros assuntos. A prosa foi boa e o entrevistado mostrou que realmente tem uma memória que deixa qualquer jovem para trás. Invejável como lembra de fatos desde a infância, passagens da sua trajetória e os tantos causos que estão tatuados nas lembranças. Divulgador ferrenho da cultura popular brasileira, o também compositor tem mais de 170 discos gravados, atuou em diversas novelas e participou de alguns filmes. “Fiz dois filmes muito bons com João Batista de Andrade, e há uns quatro anos fiz um com Selton Mello”, conta, referindo-se a Doramundo (1978) e O Tronco (1999), do primeiro cineasta, e a O Filme da Minha Vida (2017), do segundo. 

Nessa sua trajetória artística, Boldrin foi se destacando como um contador de causos, o que ele foi aprimorando com o tempo. “Essa é uma característica minha desde moleque”, revela sobre essa veia de observador da vida cotidiana e de seus personagens. Mas não foi só isso que o influenciou a seguir esse caminho. “Também assistia a muitos artistas quando iam para o interior fazer shows em praça pública”, relata o cantor se divertindo ao lembrar que ali mesmo viu grandes nomes da Rádio Nacional. “Vi, ao vivo, Cornélio Pires, responsável por lançar a música caipira gravada no Brasil, contando causos de caipira na pracinha junto com a duplinha que ele trazia”, afirmando ter sido ali que sua veia de contador começou a pulsar mais forte. “Já percebia como eu gostava daquilo e hoje eu conto causos dele, que ele contava. Sempre gostei dessas histórias com efeito engraçado no final.” 

“Eu morro de rir da criatividade do povo brasileiro. Sempre gostei disso, desde criança, comecei contando histórias de tipos da minha terra.” E foi assim que, em 1981, encantou o público com o programa Bem Brasil, que apresentou na Globo, no qual colocou em cena nomes da cultura popular. Ali ficou por três anos, mas levou seu projeto para outras emissoras, até chegar, em 2005, à TV Cultura com o Sr. Brasil. Mas deixa claro: “Eu não sou apresentador e também não sou um cantor, eu sou um cantador, eu gosto de cantar, eu sou um ator que canta, nunca me julguei um cantor”, explica. 

Em sua trajetória, Boldrin lembra também do incentivo que recebeu de alguns colegas e amigos no início, quando engatinhava na profissão de ator na TV Tupi. E destaca, entre eles, o dramaturgo Plínio Marcos. Boldrin conta que o dramaturgo, colega de emissora na época, o via contando suas histórias e as pessoas rindo muito e perguntava por que ele não fazia um show. “Mas eu falava, um show de quê?”, retrucava o artista. 

E Plínio, como conta Boldrin, explicava que a sua contação de histórias era muito engraçada, e enfatizava “isso é Brasil”. “Ele me incentiva a criar o espetáculo.”

Firme na forma de pensar e agir com relação ao que faz questão de ter em suas produções, seja um nome consagrado ou um em começo de carreira, o certo é que Boldrin procura destacar quem lida com o que é cultura popular brasileira, em seus mais diversos formatos. Com relação ao que produz para a TV, afirma que se trata de “um programa estritamente cultural, que mostra todas as correntes musicais e culturais do País”. Ele mesmo tem obras que provam isso. “Eu gravei tudo o que você possa imaginar de Brasil, de ritmos brasileiros, do samba de breque à moda de viola”, conta. 

Trajetória

  • Aos 16 anos, Boldrin sai de São Joaquim da Barra, onde nasceu em 22 de outubro de 1936, rumo a São Paulo
  • Entra no mundo das artes pelo rádio, a partir de 1958, trabalhando como figurante em radionovelas 
  • Aos 22 anos, faz teste na TV Tupi e inicia sua carreira com pequenos papéis
  • Nos anos 1950, começa a atuar em novelas, como ‘A Muralha’, na Record
  • Foi o primeiro ator a interpretar o icônico personagem Odorico Paraguaçu, de ‘O Bem Amado’, em 1960
  • Chega ao cinema e faz os longas ‘Doramundo’ (1978), ‘O Tronco’ (1999) e ‘O Filme da Minha Vida’ (2017)
  • Em 1981, Boldrin mostrou ao País o que era cultura popular, ao comandar o ‘Bem Brasil’, na Globo
  • Finalmente, em 2005, chega à TV Cultura e continua sua empreitada pela cultura brasileira com o programa ‘Sr. Brasil’

     

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