'Eu rezo, minha filha'

Maria Adelaide Amaral: Dramaturga e escritora: com 7 minisséries, está a escrever sua 2ª novela

Alline Dauroiz, de O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2010 | 16h00

 

Depois de uma primeira experiência traumática como colaboradora da novela Os Gigantes, em 1979, a jornalista, dramaturga e escritora Maria Adelaide Amaral cogitou nunca mais escrever para a TV. Na época, a trama enfrentou a insatisfação do elenco e da direção da Globo, e a crise chegou à imprensa. Foi Cassiano Gabus Mendes, autor que morreu em 1993, famoso pelo bom humor e o dom de escrever novelas cheias de ironias, quem a convenceu a voltar, em 1990, para ajudá-lo em Meu Bem, Meu Mal.

 

Hoje, aos 68 anos, Maria Adelaide é a rainha das minisséries na Globo, com sete obras no currículo. Também colaborou em cinco novelas, e Ti-Ti-Ti será sua segunda experiência como autora principal. Da primeira vez, em 1996, também homenageou o mestre Cassiano com um remake, Anjo Mau. "Comecei a escrever Anjo Mau cheia de dedos, sendo fiel ao Cassiano, mas o (diretor) Carlos Manga disse que aquilo estava ultrapassado", conta a autora. "Então, o Silvio (de Abreu) disse: ‘Não é para fazer a novela do Cassiano, é para fazer a sua novela.’ Aprendi e hoje já começo livre para voar."

 

Em seu apartamento em Higienópolis, na zona oeste de São Paulo, a autora e suas duas gatas receberam o Estado para o bate-papo a seguir:

 

Por que optar de novo por uma novela do Cassiano em vez de uma trama só sua?

Se fosse fazer novela das 8, seria uma trama minha, mas não queria estar no lugar do Silvio de Abreu (autor de Passione). A pressão é bem maior. Depois que você passa por uma situação limite (ela teve câncer de mama há 12 anos), passa a prezar a saúde. É mais fácil me divertir em uma novela das 7.

 

E por que não fazer uma trama sua no horário das 7?

Fico preocupada quando os mais jovens não sabem a maravilha que era o Cassiano. Foi com ele que descobri que podia ser divertido escrever para a TV. Pensei que está na hora de resgatá-lo para o horário das 7. Ti-Ti-Ti foi uma das poucas tramas que assisti duas vezes. Não tinha a menor dúvida do que queria fazer. E quis misturar com Plumas & Paetês, que é o mesmo universo.

 

Foram quatro anos para a novela sair. Demorou, não?

Estava ocupada com outras coisas. Minhas minisséries eram longas, trabalho durante um ano inteiro, às vezes dois. É muita pesquisa, fora a repercussão maravilhosa. Você acha que eu queria fazer outra coisa da vida? Mas as minisséries de 40, 50 capítulos estão suspensas. Não posso fazer uma minissérie de cinco capítulos por ano.

 

Assistiu às novelas de novo?

Vi as tramas inteiras e só vou aproveitar o melhor. As cenas todas do Victor Valentin falando castelhano são imperdíveis. E, em cima daquilo que vimos, criamos novos personagens, fizemos atualizações.

 

A fórmula do folhetim continua a mesma nesses 25 anos?

As novelas eram mais curtas, cada capítulo tinha 19 páginas, hoje têm 25. E as tramas das 8 tinham 25 páginas, hoje têm quase 40. O número de núcleos e de personagens era muito menor. Mas no fim dos anos 80, o público se acostumou com mais núcleos. Nos anos 70 e 80 havia páginas e páginas com personagens jogando buraco, cenas de feira. Não havia controle remoto. Hoje você tem de manter o espectador ligado.

 

Seu estilo é diferente do Cassiano. Como vai fazer agora?

Quando você fala em estilo, está pensando em minissérie. Mas sou boa em comédia também. Tenho prazer em fazer rir. Tenho muito "humor-bicha" (risos).

 

Imagino que escrever novela seja diferente de escrever minissérie.

Completamente. Tinha um ano para fazer a minissérie, quatro dias para escrever um capítulo. Hoje, sento para trabalhar às 10h e fico, no mínimo, 10 horas por dia no meu computador. E minissérie é uma obra fechada, não tem a pressão da audiência (ao escrever).

 

E como lida com a intervenção do público, já que novela é uma obra aberta?

Anjo Mau foi uma das maiores audiências do horário das 6. Às vezes o público, ajuda a gente. Autor não é onipotente. Temos de ser humildes e partir do pressuposto existe o imponderável. É um quebra-cabeças delicado. Como eu lido com tudo isso? Eu rezo, minha filha.

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