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'Eu Que Amo Tanto' vai da paixão à loucura

Nova série do 'Fantástico' é inspirada em histórias verdadeiras de mulheres que amam demais

CRISTINA PADIGLIONE / RIO, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2014 | 02h05

Nem Susana Vieira se reconhece na imagem que fecha a série Eu Que Amo Tanto, que estreia no próximo domingo, no Fantástico. Ciosa de figurino e make up, a atriz se permitiu gravar de cara lavada, sem o glamour que lhe é de praxe. Foi persuadida pela diretora Joana Jabace e pela diretora de núcleo, Amora Mautner. "Elas começaram pisando em ovos comigo. Quando vi, já estavam me dando na cara", brinca a atriz, que se disse impressionada com o trabalho.

O mesmo foi feito com Mariana Ximenez, Carolina Dieckmann e Marjorie Estiano, cada uma protagonista de um episódio - ou de um curta-metragem, já que as histórias são independentes. São dramas de personagens reais, apaixonadas ao extremo, ainda que humilhadas, quase sempre com desfecho de crime passional. Foi Marília Gabriela que as conheceu, por meio do Mada, grupo de apoio a Mulheres que Amam Demais, e as relatou no livro Eu Que Amo Tanto, que dá nome à série. E foi Euclydes Marinho quem as transportou das páginas impressas para a TV.

O Estado acompanhou a exibição dos quatro curtas em primeira mão, ao lado do elenco e da equipe, em sessão promovida por Amora no Projac, no Rio, e conversou com as atrizes na sequência. "Nós todas aqui só temos a agradecer a vocês, não é sempre que a gente tem a oportunidade de aparecer desse jeito", atesta Mariana.

Intérprete do par de Carolina, Antonio Calloni comparou a nova série a A Vida Como Ela É, que o mesmo Euclydes adaptou há 20 anos, da obra de Nelson Rodrigues, para o Fantástico. "Quando falamos de Nelson Rodrigues, falamos de uma doença comum em todos nós", diz Amora. "E a gente aqui está falando também de uma patologia, mas acho que a série não ficou só na patologia, pois não queríamos que ficasse uma coisa moralista, não queríamos recriminar as mulheres que chegaram até ali, até porque crime passional, no Brasil, é uma coisa estatisticamente enorme e muito dolorida."

"Foi das coisas mais difíceis que já fiz", confirma Susana Vieira. A dificuldade estava em iniciar as gravações conversando quase com a parede. Como o enredo é contado de trás para frente, a personagem surge já transtornada, relembrando como chegou àquele estágio. "Não havia um histórico, um tema, a gente não contracenava com ninguém, contracenava com um fantasma, que era a pessoa tinha morrido", lembra a atriz, que diverte o restante do grupo ao contar que nunca amou daquela forma. Sua personagem, afinal, mata o namorado, vivido por Tarcísio Filho.

Protagonista de romances com homens mais jovens na vida real, Susana não conseguiu encontrar memória pessoal para interpretar. "Eu pensava na minha cachorra, que morreu, mas nada vinha, chorava por essa menina, a Joana (Jabace, diretora), que tentava tirar de mim a emoção. Eu estou há 44 anos só na TV Globo, acostumei a pegar um texto e, em três minutos, entrar no estúdio e fazer o melhor possível. Só que eu procurava aquela emoção dentro de mim e não vinha. Foi uma constatação também muito chata, para mim, saber que nunca amei um homem a ponto de matar", conclui. "Ainda bem, não é, Susana?", rebate Euclydes Marinho. "Que bom", emenda Amora.

E se já era difícil extrair emoção quando gravava sozinha, pior foi contracenar com Tarcisinho, que conhece desde o berço. "Meu amor, eu olhava para o Tarcisinho... O Tarcisinho nasceu no mesmo dia do meu filho. A Glória Menezes e o Tarcísio Meira foram para uma maternidade, eu e o Régis (Cardoso) fomos para outra. Aí, o Tarcisinho ali, me pegando, imagina o que se passava na minha cabeça. E ele foi muito profissional, herança do pai, da mãe, da avó. Ele podia até me chamar de 'tia', e tinha que pegar nos meus peitos, não foi fácil."

Ao final da sessão, Amora só se penitenciou pelo bigodinho que Márcio Garcia, par de Mariana, usa em cena. "Ele entretém tanto a gente, que não percebemos que esse bigodinho estava demais", constatou a diretora. Foi contrariada por alguns dos presentes, que aprovaram o recurso como caracterização para um cafajeste que, apesar de casado, faz juras de amor a Leididai, papel de Mariana. "Palmas para o bigode", fechou Calloni.

Carolina Dieckmann, que contracena com Calloni, protagoniza talvez o enredo mais forte dos quatro. Dona de uma infância infeliz entre pais que se estapeavam, a personagem ainda era molestada por um tio. Quando encontra quem parece lhe dar o mínimo de atenção, submete-se a todo tipo de humilhação, até chupar o dedo do pé ou levar cerveja na banheira, enquanto ele está com outra, dentro da própria casa.

As cenas que remetem a sexo, diga-se, não pecam por omissão. Desnudam as personagens sem muito pudor. Até por isso, a série estará no último segmento do Fantástico, ou seja, vai ao ar após as 23h, só para não perturbar as normas da classificação indicativa. O único par que não tem direito a beijos lascivos é formado por Marjorie Estiano e Paula Burlamaqui, por quem a outra se apaixona loucamente, deixando para trás marido e filho. Marjorie aparece chupando um pirulito, enquanto a amante lhe fará carícias que só os adultos hão de entender.

"Esse programa é um B.O.", comemorava Amora, em meio à equipe, "e eu acredito muito nisso: é um produto de baixo orçamento em uma empresa como a nossa, um nicho de mercado maravilhoso". Para a diretora que levou a audiência a vibrar com as cenas na sala de Tufão em Avenida Brasil, o acerto está no erro. A premissa está presente em todo o seu expediente no set. Nessa concepção, a emoção só vem à tona quando todo mundo sai de sua zona de conforto. Daí o valor do erro. "Esse projeto tem várias coisas novas: uma é escolher a emoção como item principal dentro do conteúdo. Segundo, é uma ode à atuação. Eu brinco que esse projeto é 'Eu Que Amo Tanto os Atores'. Brinco, como Fassbinder, que quero ver os atores sangrando, e elas aqui sangraram. Só trabalho com ator que dá alma para mim".

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