'Eu não sou um inquiridor'

Criador do genial Ensaio, Fernando Faro diz que seu segredo é ser testemunha dos artistas

Shaonny Takaiama, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2007 | 17h41

Fernando Faro cria um clima intimista com qualquer pessoa. Ele toca, olha nos olhos, fala suavemente. E chama a todos de baixinho, baixinha, baixo ou baixa. Um apelido que ganhou de Cassiano Gabus Mendes. Aos 80 anos, Baixo, o criador do Ensaio da TV Cultura e atual Coordenador do Núcleo de Música da emissora, recebeu um tributo no mês de junho, onde estavam Toquinho, Paulinho da Viola, a Velha Guarda da Portela, Vanessa da Mata e outros artistas. Como foi receber um tributo em vida aos 80 anos?Baixa, nem eu estava sabendo, fizeram um mistério incrível sobre isso. Me esconderam. Se bem que quando eu cheguei lá e encontrei Paulinho, Toquinho, Vanessa, aí já comecei a adivinhar o que estavam preparando contra mim (risos). Eu gostei muito de rever e ouvir aquelas coisas.Baixo, além da Hebe e do Roberto Carlos, quem mais você sente vontade de levar ao programa?Não falei ainda com a Rita Lee. Com a Hebe falei e ela me disse: "Baixinho, eu adoro você, mas eu não tenho mais idade para aqueles closes que você faz." A Rita eu lembro que quando os Novos Baianos fizeram aquela temporada no Rio em 1969 ela e os Mutantes também estavam e a gente ficou mais ou menos amigos... Mas aí acabou o show, eles foram presos e eu me perdi dela, até hoje. Vou tentar achá-la.Qual é o segredo para deixar os artistas tão à vontade?Ah, baixa, porque não sou bem um inquiridor ou um jornalista, entende? Eu sou mais uma testemunha e amigo deles. E como testemunha eu presenciei várias coisas deles. Então tem a receptividade que vem dessa coisa de ser testemunha.E você fica bem perto das pessoas, você tem essa coisa do toque, que é bem marcante... Hoje o conhecimento é tátil. Por exemplo, eu estava entrevistando Wanda Sá: "Wanda, como foi seu relacionamento com Edu Lobo?" "Ah, foi legal, encontrei ele numa festa e eu sabia que ia casar com ele. E casei". "E a separação?" "Doeu e dói ainda, Baixo." Aí eu peguei a perna dela até a canela: "Quanto doeu?" Ela disse: "Doeu muito, Baixo". Aí ela ficou meio comovida. Nesse contato, com a perna dela, acho que passamos muita coisa um pro outro. Como você desenvolveu a técnica do ?Ensaio? - close no entrevistado e entrevistador fora do foco das câmeras?Eu acho que o entrevistado tem que ficar sozinho porque qualquer coisa em volta ou perto dele é um ruído. Uma geral na televisão não é nada. E realmente, se você assiste a um jogo de futebol, você não vê como é o jogador, eles não têm cara, é como se fosse um jogo de pebolim. Aí, esse close eu procurei aprofundar, trabalhar bem, então o close vai da boca, olhos, até orelha, até um ponto em que as coisas são pedaços de luz e aí só conta o que o entrevistado está falando e a gente se perde até da figura.O que você está achando do resgate dos programas antológicos em DVD? Me deixou muito feliz.O Sesc tinha começado a fazer os CDs e isso já me garantiu certa tranqüilidade porque pelo menos o áudio está preservado. Agora, com o DVD, é áudio e imagem preservados, então eu fico muito tranqüilo.

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