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Estrelada por Gael García Bernal, série mostra os bastidores da música clássica

‘Mozart in the Jungle’, que também conta com Malcolm MacDowell, fala de ego, disputas e preconceito

João Luiz Sampaio , Especial para O Estado de S. Paulo

14 Janeiro 2015 | 03h00

Um regente latino que, com 26 anos, toma o mundo da música clássica de assalto - e é convidado a assumir uma orquestra norte-americana ávida por novos patrocinadores e novas plateias. Poderia ser descrita assim a chegada do venezuelano Gustavo Dudamel à Filarmônica de Los Angeles, há alguns anos. Mas não: trata-se, na verdade, do ponto de partida de uma nova série, Mozart in the Jungle: Sex, Drugs and Classical Music, estrelada pelos atores Gael García Bernal e Malcolm MacDowell.

A série, estreada nos Estados Unidos e na Europa no fim de dezembro (no Brasil, estará disponível pelo sistema Clarovideo), faz parte do novo lote de produções do serviço de streaming da Amazon - o mesmo responsável por Transparent, que venceu alguns dos principais prêmios na última edição do Globo de Ouro. É baseada em um livro publicado em 2005, Mozart in the Jungle, de Blair Tindall. Oboísta, ela integrou grupos como a Orquestra Filarmônica de Nova York e, no livro, retratou a sua experiência nos bastidores do mundo da música clássica.

Drogas, sexo, rivalidade entre músicos, disputas entre maestros, problemas financeiros, incapacidade de diálogo, preconceito, morte: os episódios narrados por Tindall fugiam completamente do que o senso comum costuma associar ao universo clássico. Mas o livro tornou-se mais do que simples exercício de voyeurismo musical: em um artigo publicado em The New Republic, o musicólogo Richard Taruskin referiu-se a Mozart in the Jungle como a “mais inteligente e construtiva” intervenção no debate sobre a dificuldade da música clássica em se relacionar com as plateias e o cenário sociocultural mais amplo, permanecendo à margem da vida cultural.

Na série, há duas narrativas que se encontram. De um lado, está a jovem oboísta Hailey Rutledge (Lola Kirke), que se muda da Carolina do Norte para Nova York em busca de uma oportunidade; quer tocar na sinfônica da cidade, mas, para sobreviver, acaba tendo de dar aulas para crianças mimadas e nada interessadas em música, além de tocar em peças da Broadway. Ao mesmo tempo, na célebre Sinfônica de Nova York, o maestro veterano Thomas Pembridge (Malcolm McDowell) é substituído pelo jovem regente latino Rodrigo de Souza (Gael García Bernal), figura exótica, egocêntrica e envolvida em enorme estratégia de marketing.

Hailey quer ser aceita entre os músicos da orquestra e enfim entrar para o mundo com o qual sempre sonhou; Souza, por sua vez, esconde por trás de todo o exotismo e ego, o desejo de ser mais que um popstar: quer ser respeitado como grande intérprete de uma música pela qual tem profunda veneração. É esse desejo comum de aceitação que acaba unindo as duas personagens e dando o mote da série.

Mozart in the Jungle tem produção de Roman Coppola, mais conhecido por seu trabalho com o diretor Wes Anderson. Em entrevista concedida no fim do ano à imprensa americana, ele explicou como se deu a adaptação do livro. “Não se tratava de um romance, mas, sim, de um livro de memórias, sobre uma jovem mulher e seu contato com o mundo da música clássica. Esse é claramente o ponto de partida. Mas o original se passa nos anos 1980, uma época bastante diferente da nossa. E nós queríamos que a série fosse mais contemporânea. E por conta disso inventamos e adaptamos muita coisa.” A alusão a Dudamel é explícita e os diretores brincam com ela - a certa altura, passeando por NY, Souza é visto saindo de um restaurante chamado Caracas. Mas, é disso mesmo que se trata: apenas uma alusão. 

Para o fã da música clássica, a série, claro, atrai pelas piadas internas e pelos assuntos que evoca, tocando em temas bastante familiares, das dificuldades do início da carreira à mesmice que estraga o fazer musical. Mas o retrato do mundo clássico não é um fim em si mesmo. Coppola insiste que, acima de tudo, esta é uma história a respeito de pessoas. “Eles tiram seus trajes de gala e vão para casa, são pessoas normais, como cada um de nós.” Algo que, tanto no palco como nas plateias, a gente acaba esquecendo frequentemente. 

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