‘Estímulo à utopia é a meta’, ressalta Lázaro Ramos durante entrevista no Roda Viva

‘Estímulo à utopia é a meta’, ressalta Lázaro Ramos durante entrevista no Roda Viva

O ator e diretor conversou sobre as narrativas feitas por pessoas negras, rememorou a infância e apresentou a ambientação do filme dirigido por ele, com estreia para quinta, 14

Jayanne Rodrigues, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2022 | 04h26

Em sua participação no programa Roda Viva, nesta segunda-feira, 12, Lázaro Ramos defendeu a participação efetiva de pessoas negras no audiovisual brasileiro. “Durante muito tempo, eu era usado como o exemplo do ator negro que existe, que está presente. Mas isso não basta, a gente precisa ter outras caras”. Ele também comentou sobre os ataques que ele e a esposa Taís Araújo  sofreram nos últimos dias por parte de membros do atual governo, além de expressar como está sendo a preparação para a estreia do longa "Medida Provisória".

"Eu sou um menino de Salvador, eu só queria ter alguma voz e, de repente, Conceição Evaristo aparece me dando apoio no filme. Isso é muito poderoso, a gente precisa se apegar nisso também", disse emocionado. Com papéis importantes interpretados no cinema e na televisão, Lázaro ressaltou que fomentar a representatividade não é suficiente. Para explicar este ponto de vista, ele citou uma palestra que assistiu da escritora Ana Maria Gonçalves. “Ela falou que não quer representar ninguém, ela quer que as pessoas tenham a oportunidade de ocupar os espaços”. 

Ele prosseguiu: “Inclusive, eu troquei o termo agora. Eu sempre falo sobre representação positiva e presença”. Uma espécie de substituição ao conceito de representatividade. “Por exemplo, nas empresas eles entenderam que é bom terem equipes diversas, porque isso é bom para os negócios”. No entanto, o ator indagou. “Muitas vezes pega uma pessoa simbolicamente que ocupa aquele lugar e que tem que responder por todas as demandas ligadas à questão racial. E que fica isolada, sozinha, fica com o compromisso de ter todas as respostas. Nós não temos, ninguém tem”, reforçou. 

O Filme “Medida Provisória”, dirigido por Lázaro, estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 14. Em um Brasil distópico, a narrativa de suspense e drama é desenrolada após o governo decidir enviar a população negra para a África, uma tentativa camuflada de reparação histórica pelos séculos de escravização. O longa sofreu ataques, conforme relatou Lázaro. “Teve um membro do governo que puxou boicote ao filme, sem ter assistido”.  A produção estava prevista para ser lançada em 2020, mas segundo o autor, houve uma burocracia sem justificativa por parte da Agência Nacional de Cinema (ANCINE), entidade responsável por assinar um documento para a troca da distribuidora do filme. 

As ofensas também seguiram para a vida pessoal do casal. Isso porque neste domingo, 10, o ex-secretário de Cultura, Mário Frias, ironizou em sua conta oficial do Twitter, que “eles [Thais e Lázaro] são dois mimizentos, que não fazem nada pelo país”. Já o ex-presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, escreveu: “Acabou! Vão trabalhar”. 

Os ataques foram feitos logo após a atriz direcionar críticas ao governo. Questionado sobre o assunto por Marina Caruso, o ator afirmou que a hostilidade é uma estratégia. “Isso é a própria política que eles estão fazendo para chamar atenção em cima de nós, que temos relevância, temos público”. 

“O que você diria para o Lázaro da Ilha do Quati?", perguntou Edu Carvalho. Para rememorar a memória do menino que começou teatro sem ter visto uma peça, em um relato emocionado, o ator deixou um conselho: se permitir sonhar. “Parece uma coisa simples, mas não é. Durante muito tempo na minha vida, eu não sabia que eu podia sonhar. Eu não tinha referências, eu não sabia que eu podia ter objetivos. Eu falo isso com pesar, porque eu sei que ainda hoje vários jovens não se sabem possíveis”. 

Na sequência, ele finalizou o que desejava para o menino Lázaro e para o futuro das crianças e dos jovens: “O estímulo ao sonho. Agora, o estímulo à utopia é a meta”, disse. Na bancada desta edição, participaram: Edu Carvalho, Alberto Pereira Jr., Semayat Oliveira, Marina Caruso e Cunha Jr., com apresentação da jornalista Vera Magalhães. 

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