Rich Fury/Invision/AP
Rich Fury/Invision/AP

‘Estatísticas não podem determinar nosso futuro’, diz Viola Davis

Primeira negra a ganhar um Emmy na categoria drama, atriz diz que as mulheres já sabem o quanto são talentosas e não dependem de números

Entrevista com

Viola Davis

Rachel Syme, THE NEW YORK TIMES

25 de setembro de 2015 | 05h00

Quando Viola Davis recebeu o Emmy na categoria de melhor atriz em drama, no domingo, dia 20, tornou-se a primeira afro-americana a ser galardoada com o prêmio. Sentindo toda a importância do momento, ela citou Harriet Tubman (“Mas não quero que pareça que cheguei aqui de qualquer maneira. Não quero que pareça que passei por cima da linha”) e atribuiu à indústria televisiva a falta de oportunidades para mulheres negras. “Não se pode conquistar um Emmy por papéis que não são importantes”, afirmou.

Na quarta-feira, 23, ela falou por telefone sobre os momentos que se seguiram à premiação e à sua esperança em relação às mulheres na indústria do entretenimento. 

Como está se sentindo a respeito de tudo isto?

Ótima! Estou surpresa. Em geral, sempre que algo de bom acontece, começo a refletir e falo comigo mesma de alegria. Mas desta vez não fiz isto, deve ser um sinal de maturidade.

Qual foi a reação ao seu prêmio?

Acho a resposta que obtive é realmente fantástica e foi além do prêmio. O fato de as pessoas apreciarem o meu discurso me faz sentir realmente ótima. Meryl Streep me disse certa vez: “Sabe, Viola, estas jovens costumam nos ouvir sempre; cada palavra que dizemos as toca de uma maneira que sequer conseguimos imaginar”. E descobri que esta é uma grande verdade.

Você selecionou a citação de Harriet Tubman há muito tempo?

Eu e meu marido estamos com um projeto sobre Harriet Tubman e, quando a HBO o escolheu, um dos produtores me enviou a citação. Fiquei muito impressionada por causa do espírito avançado desta mulher, então a guardei, faz vários meses. Achei que seria muito oportuna, dado que nenhuma mulher de cor jamais havia ganho nesta categoria. Este momento tinha de ser reconhecido, ou seria uma oportunidade perdida. Seria um daqueles momentos de que eu sempre lembraria, e me arrependeria por não tê-lo aproveitado.

O que você e Taraji P. Henson, sua colega indicada na categoria drama, disseram uma à outra quando você ganhou?

Ela disse: “Adoro você”, e eu: “Amo você mais do que tudo neste mundo!” Acho que, no fundo, as pessoas querem ser vistas. E é por isto que foi importante para mim e para Taraji reconhecer isto, não nos sentirmos concorrentes, dizer apenas: “Estou vendo você, também amo você. Você está comigo”.

Para você o significado é de inclusão. 

Se houve alguma reação, é porque as pessoas querem se sentir incluídas num discurso. Sei que houve uma reação de uma atriz que não se sentiu incluída.

Você se refere à atriz de novelas (Nancy Lee Grahn), que afirmou no Twitter que o discurso de Davis não era autêntico porque ela faz parte de um grupo de atrizes de elite que nunca sofreram por causa da discriminação?

Sim. Mas não sei se quero levar esta conversa adiante.

Nas festas que se seguiram à premiação, você viu Uzo Aduba que ganhou como atriz coadjuvante na categoria drama, ou Regina King, atriz coadjuvante numa série limitada de filmes?

Ah, eu vi todas elas! Vi Uzo, Regina, Lorraine Toussant, Niecy Nash, Queen Latifah; não consegui ver Mo’Nique nem Kerry Washington. Vou renovar meus votos (de casamento) no dia 13 de fevereiro, e espero ver Kerry Washington e Taraji por lá. Oprah me mandou um buquê de flores. Estas são atrizes com quem me encontro todos os anos, na comunidade, por simples companheirismo, na irmandade. Não tem sentido competir; isto só contribui para aumentar a pressão que a indústria coloca sobre nós.

Você mencionou que quer que a indústria sofra alguma mudança. Um estudo recente diz que as mulheres continuam em grande parte pouco representadas na TV, tanto diante das câmeras quanto atrás dela.

Estava lendo A Mística Feminina, de Betty Friedman, na semana passada, e ela fala muito sobre a difícil situação das mulheres nos anos 50. Elas se escondiam atrás da imagem da perfeita dona de casa, dos assoalhos bem encerados e de um batom bem aplicado e sofriam em silêncio. E não quero mais que isto aconteça. As mulheres são corajosas! E agora que estou produzindo, vejo o que acontece nos bastidores com pessoas como Alfre Woodard, como Sanaa Lathan, Taraji P. Henson, Kerry Washington. São mulheres que estão produzindo seu próprio material. Elas sabem o quanto são bonitas; sabem o quanto são talentosas. As mulheres que conheço não aceitam mais as estatísticas. Elas não aceitam que os números determinem o seu futuro. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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