Espíritos guiam trama de Daniel Ortiz, sob supervisão de Silvio de Abreu
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Espíritos guiam trama de Daniel Ortiz, sob supervisão de Silvio de Abreu

Eles ouvem gente morta na próxima novela das 7; leia entrevista com o dramaturgo veterano

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2014 | 03h00

Novela sobre espíritas que já foi chamada de Buuu e virou Alto Astral, o próximo folhetim das 19h apresenta os créditos de mais um autor estreante na condição de titular na Globo. Daniel Ortiz reforça a proposta da emissora em renovar seu time de criadores e chega com a bênção de Silvio de Abreu, com quem trabalhou como colaborador em Passione e Guerra dos Sexos. O padrinho também supervisiona esse primeiro trabalho solo do afilhado na emissora. Foi na companhia dele que Ortiz falou ao Estado sobre a trama que substituirá Geração Brasil a partir de 3 de novembro.

Alto Astral nasceu de um argumento apresentado a Abreu por Andréa Maltarolli, autora da Globo que morreu em 2009. De lá para cá, uma série de coincidências com outras novelas sobre espiritismo e com a agenda do autor foram adiando a trama. Ao trabalhar com Ortiz, já em Passione, Abreu reconheceu nele talento para tocar uma novela sozinho e sugeriu-lhe o material de Andréa. Ortiz acrescentou outras linhas e deu seu contorno ao enredo, que vem sendo desenvolvido desde 2011.

“É uma novela bem amadurecida, uma comédia romântica”, define o novo autor. Mas o tom agora nos coloca no mundo dos espíritos de modo cômico, e não sob a ótica dramática que Ivani Ribeiro emprestava a A Viagem, um clássico do gênero no tema. O foco aqui é cômico, sem resvalar para o deboche, avisam. 

“Ela usa os espíritos pra fazer piada, quer dizer, ela não ridiculariza os espíritos, não é um deboche, mas mostra a comédia que resulta de situações em que alguém com capacidade de falar com espíritos é visto por pessoas a sua volta, que acham que ele é maluco”, conta Abreu. “O público”, continua, “sabe que ele não é maluco, mas os outros personagens, não.”

Ainda que siga a linha “I see dead people”, a novela aposta num tom mais realista que as comédias rasgadas do horário. “Não é uma novela para se assistir gargalhando, mas é uma novela muito leve, divertida”, diz Abreu. A aposta é de que o público, no Brasil, tanto acredita que vai encontrar outras pessoas depois da morte, que o assunto pode perfeitamente ser tratado com alguma realidade. Daí o fato de os espíritos aparecem na história em carne e osso, sem figurino uniformizado ou cenário próprio. “Queremos que os espíritos sejam normais. Se morreu com aquela roupa, vai aparecer com aquela roupa o tempo todo, não vai aparecer de branco. E também não tem o lugar onde se fica depois de morto, como o Paraíso. A Ivani tinha aquele campo de golfe (risos), agora não tem nada disso”, conclui Abreu.

Ortiz se diverte com os rumos que a coisa tomou. Na base do enredo, há o mocinho, um médium vivido por Sérgio Guizé, e a mocinha, função de Nathália Dill, que está para se casar com o vilão da história, personagem de Thiago Lacerda, que vem a ser irmão do mocinho. Correndo por fora, está Cláudia Raia, loira e ligeiramente vigarista. Médium como o mocinho, ela começa a usar seu dom para faturar em causa própria. Abre site, ganha fama e dinheiro, graças ao poder de salvar pessoas em situações de desastre que lhes foram previamente comunicadas por um espírito. O mau uso dos dons fará com que a boa voz desapareça, e ela então inicia uma etapa de vidente fake. Após algum tempo, outra voz aparece, mas só lhe dita previsões erradas. “É um espírito de porco”, ri Abreu.

“É uma vilã meio atrapalhada”, avisa Ortiz. “Assim que a novela começa, ela avisa sobre a queda de uma ponte, que na verdade será derrubada por seu irmão, para fazer valer a profecia. Há também a família “mapa Mundi”, que põe Leopoldo Pacheco como um viúvo que se casa com Elizabeth Savalla e leva seus quatro filhos: Afeganistão, Itália, Israel e Bélgica.

Embora esteja estreando como titular no Brasil, Ortiz já assinou novelas fora daqui, Após fazer curso de roteirista em Los Angeles, aventurou-se em novelas no Peru, trabalhou para um reality show no México, pela TV Azteca, e ficou mais seis anos na gigante Televisa, fazendo novelas. De lá seguiu para o Oriente Médio, onde, acredite, escreveu a primeira novela com mais de 100 capítulos,

Fazia as escaletas, sequência dos acontecimentos de cada capítulo, todas em inglês. “Eu não tinha como revisar depois. Para o primeiro capítulo eu ainda consegui sentar com uma moça da produção e ela traduzia pra mim, fala por fala. Só no primeiro capítulo havia várias coisas diferentes do que eu tinha escrito. Eu falei ‘nossa, não vai ter condições. Ou vocês põem alguém para checar, ou não vai dar certo, porque não vai ser possível fazer isso toda hora’. Mas a novela foi um sucesso.” 

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Chefe de um dos cinco fóruns criados pela direção-geral da Globo para uma permanente reflexão sobre a programação, Silvio de Abreu cuida justamente do elemento mais precioso para a grade da emissora: a telenovela. Quando o folhetim das 9 vai mal, todo o resto desanda. Quando a trama das 7 vai mal, os noticiários, salvo o teor da desgraça do momento, também patinam. Apesar disso, a casa demorou a apostar na renovação do time de criadores de folhetim, o que Abreu tem abraçado há anos, como iniciativa quase pessoal.

Dos veteranos, você sempre foi o que mais se interessou em lançar novos autores. Por quê?

Eu tenho esse negócio de arrumar encosto (risos). O Daniel (Ortiz) é muito talentoso. Aliás, todas as pessoas com quem trabalhei são muito talentosas – o João Emanuel Carneiro, o Carlos Lombardi, a Maria Adelaide Amaral. E quando faço supervisão de alguém que está começando, não quero enfiar na cabeça deles o que está dentro da minha, senão vai ser uma cópia minha. E se não tiver gente pra escrever, isso vai acabar, não pra mim, que daqui a pouco vou parar. Não vou ficar com 100 anos fazendo novela. Estou com 72, mais oito e acabou.

Mas a Globo demorou a apostar em novos talentos.

Foi. Quem começou isso fui em mesmo, quando começou a morrer Cassiano (Gabus Mendes), Ivani (Ribeiro), Dias Gomes, Janete (Clair), Walter George Durst... A novela também se sofisticou demais. A Ivani escrevia novela sozinha, mas um capítulo tinha 14 páginas. Alto Astral tem 30 páginas. É o dobro. Uma novela das 9, hoje, com 55 minutos de programa, tem 45 páginas. Não dá pra escrever sozinho.

Vale a pena experimentar uma aproximação da novela com a linguagem de série? 

Novela tem que ser colocada como novela, não é filme, não é série. É uma bobagem querer aproximar o folhetim da série. Pode fazer a modificação que quiser, desde que se respeite o público de novela. O melodrama tem que estar lá. Quando se faz uma novela como Filhas da Mãe, como fiz, que subverte tudo, o público não se liga.

Mas é saudável arriscar, não?

É legal arriscar pra mim, como autor, mas, para a empresa, não. A empresa perde público. No caso de Filhas da Mãe, ainda com todos os problemas que teve, da filha do Silvio Santos ter sido sequestrada... 

Você competiu com um enredo muito mais ficcional que o seu?

Exatamente. Se eu estivesse fazendo uma novela muito mais pé no chão, convencional, provavelmente eu teria tido um resultado melhor. A novela estreou e no dia seguinte sequestraram a filha do Silvio Santos. Na outra semana, ficaram atrás do sequestrador, que tinha fugido de um hotel, descia da janela, como Homem Aranha. Na outra semana, ele entrou na casa do Silvio Santos. Quando isso acabou, a novela subiu pra 38 pontos de audiência. Deu 38 na segunda, 39 na terça e na quarta-feira, eu tô lá escrevendo, de manhã, toca o telefone. É o (diretor) Jorge Fernando: ‘tá vendo televisão?’; ‘Não’, respondi, ‘tô escrevendo’. E ele: ‘explodiram o World Trade Center!’. Quem queria ver novela?

Isso realmente acontece?

Ô. Deus nos Acuda debochava do governo do Collor. Estreou em agosto. Quinze dias depois teve o impeachment, ele saiu e a novela não tinha mais o que gozar. Aí veio o massacre do Carandiru, mataram a Daniela Perez e caiu o helicóptero do Ulysses Guimarães. Não dava pra concorrer com Aqui Agora. / C.P.

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