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'Empoderamento' das mulheres na ficção cresceu, mas poucas são memoráveis

Ascensão política das personagens femininas cresceu nas séries

Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 16h00

Pouca gente se lembra da efeméride, mas há dez anos a democrata Mackenzie Allen entrou para a história da TV como a primeira mulher a ocupar a Casa Branca em uma série. Em Commander in Chief, Geena Davis era uma modesta congressista do estado do Connecticut e reitora da Universidade de Richmond quando uma acomodação política a colocou no cargo de vice-presidente. Com a morte do titular, ela assumiu o comando, mas a “gestão” durou pouco. Por absoluta falta de audiência (e de carisma da protagonista), a série acabou cancelada logo no ano seguinte.

De lá para cá, a participação feminina na ficção política cresceu exponencialmente, mas foram pouquíssimas as mulheres que deixaram um “legado” na memória do público. Uma delas sem dúvida foi a ex-vice e atual presidenta dos Estados Unidos, Selina Meyer, na série Veep, que rendeu o Emmy para a protagonista Julia Louis-Dreyfus. Quando, em 2016, a democrata Hillary Clinton estiver começando sua maratona de primárias para chegar à Casa Branca, a HBO exibirá, em abril, a quinta temporada da épica carreira de Selina.

Bem antes disso, no começo de outubro, a CBS exibirá a segunda temporada de outra série que, assim como Commander in Chief, prometeu muito mais do que entregou em sua primeira edição: Madam Secretary. Para promover a atração, o canal contará com um reforço de peso. Ninguém menos que Madeleine Albright, a primeira mulher a ocupar de fato o cargo de Secretaria de Estado dos EUA, vaga que hoje pertence a Hillary Clinton, participará de um dos episódios interpretando a si própria e dando conselhos para a “sucessora” da ficção.

Nem os mais otimistas, porém, acreditam que o reforço será o suficiente para salvar a atração da inanição criativa. A protagonista, Elizabeth McCord (Téa Leoni), lembra muito a presidente Mackenzie Allen em Commander in Chief. Professora universitária, democrata e idealista como antecessora, ela também é surpreendida ao ser convocada para ocupar o cargo, nesse caso o de secretária de Estado, quando o titular morre em um acidente aéreo.

Além da falta de carisma, ambas sofrem com o roteiro precário, elenco de apoio fraco e conspirações capengas. Nesse hiato de dez anos entre as duas poderosas, a TV americana mostrou que ainda não conseguiu desvincular o poder feminino da obrigação de coadjuvá-lo por tramas domésticas. Não basta ser presidente, tem que ser mãe zelosa e boa esposa depois do expediente. 

A insistência em colocar em primeiro plano a “sensibilidade feminina” cria situações constrangedoras. Em uma das cenas da primeira temporada, Elizabeth McCord conversa com os pais de dois adolescentes norte-americanos que foram presos na Síria acusados de conspirar contra o regime nas redes sociais. “Também tenho dois filhos adolescentes. Eles são espertos, confiantes e articulados. Meu filho inclusive se diz anarquista”, diz a Madame Secretária. A preleção foi o suficiente para arrancar lágrimas e acalmar a aflição dos pais. 

As melhores gestões femininas na ficção política estão mesmo fora dos EUA. Uma boa opção é a série Borgen, que acompanha a trajetória política de Birgitte Nyborg. Nas duas primeiras temporadas, ela ascende na política até chegar ao cargo de Primeira Ministra da Dinamarca. O expediente familiar também está presente, mas as tramas políticas são mais sofisticadas e verossímeis. Na terceira e última, ela rompe com o status quo e decide criar um novo partido. 

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