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Os atores Romulo Arantes Neto e Gabrielle Joie em cena da série 'Toda Forma de Amor' Canal Brasil

Em 'Toda Forma de Amor', personagens LGBT ganham novas dimensões

Com direção de Bruno Barreto e Gabrielle Joie no elenco, série quer abordar múltiplas condições humanas

Thaís Ferraz, especial para O Estado

25 de outubro de 2019 | 03h00

Duas histórias se desenvolvem na série Toda Forma de Amor, que estreia no Canal Brasil nesta sexta-feira, 25, às 22h30. Daniel (Romulo Arantes Neto) tenta salvar sua boate transformando-a em uma casa noturna voltada ao público LGBTQI. Coordenador de políticas LGBT de São Paulo, Claudio (Otavio Martins) tenta descobrir quem é o assassino em série que ataca travestis no centro da cidade. 

Com uma temporada de 6 episódios, de 50 minutos cada, a série leva o título ao pé da letra. Traz personagens homossexuais, bissexuais, transexuais, heterossexuais, crossdressers. E aborda o amor romântico, mas também relações familiares e de amizade.

Diretor da produção, Bruno Barreto (O Que É Isso, Companheiro?), afirma que a série não tem como tema o universo LGBT. “Ela é, na verdade, uma história sobre a condição humana, sobre querer amar e ser amado”, explica. “Os personagens são diferentes do habitual, mas nem por isso são menos humanos”.

Uma das protagonistas da série, Marcela é uma jovem DJ transexual que enfrenta as batalhas da vida adulta. Sem querer, desperta a paixão de Daniel, dono da boate em que toca, heterossexual e filho de pastor. Intérprete da personagem e também transexual, a atriz Gabrielle Joie destaca a honestidade da produção. “Toda Forma aborda diversos assuntos, ambiguidades, um universo de possibilidades”, afirma. “É uma série muito verdadeira”.

A série tem um aspecto interessante. Ao contrário de uma parte significativa das produções que abordam o universo LGBT, não reduz seus personagens – e conflitos – à orientação sexual ou identidade de gênero. “É um outro momento do mercado e da televisão, que buscam mostrar essas questões de uma forma mais humanizada”, afirma Gabrielle. “É bom porque nos trata como seres humanos, que não frequentam só ambientes específicos, mas são pessoas ‘normais’, que existem em lugares ‘comuns’”. 

A atriz destaca que a série não tem intenção de ser engajada ou didática. “Desde o início, eu e o diretor tínhamos em comum isso de não querer pregar para convertidos”, explica. “Também não queríamos que fosse uma coisa explicativa, porque esse não é um assunto novo”. 

Para ela, não há motivo de apreensão em torno da recepção do público. “A única coisa que eu espero é que as pessoas se identifiquem”, diz. “E, se for para passar uma mensagem, que seja a de que a vida de uma pessoa trans não precisa ser doída”.

Confira o teaser da série

 

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‘A vida das pessoas transexuais não precisa ser doída’, afirma atriz Gabrielle Joie

Intérprete da protagonista da série ‘Toda Forma de Amor' também atua na novela ‘Bom Sucesso’

Thaís Ferraz, especial para O Estado

25 de outubro de 2019 | 03h00

No ar em duas produções (a série Toda Forma de Amor, no Canal Brasil, e a novela Bom Sucesso, na Globo), a atriz brasiliense Gabrielle Joie, 21, foi descoberta no Youtube. “Desde pequena, sempre tive esse lado de performance artística, atuação”, conta. “Com a internet, ficou tudo mais fácil, e nisso passei a usar todas as plataformas possíveis”.

Em um dos vídeos, Gabrielle, que é mulher transexual, falou sobre seu processo de transição – respondendo dúvidas sobre aceitação da família, descobertas e sexualidade. A repercussão foi grande, e o diretor Bruno Barreto entrou em contato para oferecer o papel de Marcela na série Toda Forma de Amor. “Ele me chamou para fazer os testes, eu achei que não ia rolar. Até parece, uma travesti protagonista de uma série no canal Brasil?”, lembra a atriz.

Foi o primeiro trabalho de Gabrielle na área. Na sequência, veio um episódio da série Sob Pressão, em que interpretou uma jovem trans que sofre complicações após injetar silicone industrial. Desde julho, Gabrielle integra o elenco da novela das sete, Bom Sucesso, onde dá vida a Michelly, uma adolescente trans.

Em entrevista ao Estado, Gabrielle falou sobre a importância de referências, as possibilidades que a arte oferece e seu desejo de, um dia, interpretar uma vilã – “bem má!”. Confira:

O que mais te atraiu na personagem Marcela?

Assim que eu peguei o texto, eu adorei muito a personagem, porque achei que era uma analogia a minha vida. Uma menina que sai de casa muito jovem para tentar a vida em uma cidade grande, que estuda, tem que trabalhar, se virar, pagar os próprios hormônios, tem um relacionamento que não é muito bom...o texto é muito rico na história dela, porque ela cresce muito do início ao fim. 

Ela tem uma personalidade rica: tem quem é ela no trabalho, quem é ela em casa, quem é com os pais, quem é com o namorado. Ela sofre diferentes tipos de preconceito, mas a série trata esse preconceito com muita naturalidade. A série é muito verdadeira. Ela trata de todos esses assuntos, ambiguidades, mas abre um universo de possibilidades. Ela vem em um outro momento do mercado e da televisão, que buscam mostrar gênero e sexualidade de uma forma mais humanizada. A série não trata muito dos dilemas da transexualidade, e eu não acho isso ruim. Acho bom. Porque nos mostra como seres humanos, que também estão em ambientes que não são transcentrados ou LGBTS. É muito legal tratar o tema mostrando pessoas normais, que existem em lugares comuns. 

Apesar dos personagens LGBTs, a série não parece enveredar por um caminho mais ‘militante’. Isso foi discutido na produção? Qual era a intenção da equipe?

Uma coisa que eu e o diretor tínhamos muito em comum, desde o início, é que não queríamos que ela fosse uma coisa didática, explicativa, ou que pregasse para convertidos, porque apesar de parecer um assunto novo, ele não é novo. Nós é que estamos falando sobre ele agora. Mas é uma coisa que acontece, essas pessoas existem, nós estamos falando sobre elas mas também sobre um sentimento que é o amor, como ele funciona, na família, nos relacionamentos. Eu acho que a série trata muito sobre vivência, sentimentos, conexões, pessoas, e não é uma coisa fadada ao sofrimento. Todos os personagens terminaram a série com alguma evolução. Eu achei muito natural como todos os assuntos foram tratados com delicadeza. Acho que isos é bom para as pessoas não verem só “ah, uma personagem trans sofrendo preconceito”. A série é um suspense, uma comédia, um drama, tudo. 

O que você espera da recepção do público?

Preocupada eu nunca vou estar. O que eu sinto como dever em pegar esses papeis é me divertir, e se for para passar alguma mensagem, que não seja uma mensagem doída. Porque a vida não precisa ser doída, a vida de uma pessoa trans não precisa ser doída, nem marginalizada, nem objetificada. Nós estamos falando sobre LGBTs, transfeminicídio, relacionamentos, desejos, medos. A única coisa que eu espero é que muitas pessoas se identifiquem. 

Essa é sua terceira personagem, e também sua terceira personagem trans. Você tem medo de estar ‘fadada’ a fazer sempre os mesmos papéis?

Eu não tenho nenhum problema em fazer personagens trans, mas ultimamente eu tenho sentido um desgosto em ficar tratando sobre nosso sofrimento, sobre o preconceito. Eu não quero mais falar sobre isso. A sociedade já está ‘grandinha’, já tem informações suficientes no computador, no celular, a gente já vive em outra era. Eu posso continuar fazendo personagens trans, acho rico, importante, divertido. Mas tenho vontade também de um dia fazer uma personagem cis. Se pessoas cis podem interpretar pessoas trans, por que não o contrário? 

Qual personagem você sonha em fazer? 

Eu quero fazer uma vilã, muito grande, de novela ou de filme. A arte é um ofício, e a gente tem um comprometimento não só com a arte, mas com nós mesmos, de nos libertarmos e fazermos o que sentimos que é certo, pegarmos o personagem que queremos. É uma questão também de ser camaleão, de poder mostrar o que você tem, porque atuar é também um estudo sobre o corpo humano. Interpretar uma pessoa trans é uma coisa; agora, se for uma vilã trans de novela das 9, a coisa é outra. É um pouco nesse sentido de sair só do LGBT e enriquecer a personalidade. Eu gostaria de ser uma vilã bem má, bem odiada. 

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