Divulgação
Divulgação

Em 'The Dresser', Anthony Hopkins não se deixa consumir pelo palco

Ator mostra lado contrário do seu personagem no telefilme

Mary McNamara, LOS ANGELES TIMES

02 Julho 2016 | 16h00

No filme O Fiel Camareiro, de 1983, uma coprodução Staorz-BBC, Anthony Hopkins interpreta o papel de um velho ator shakespeariano, conhecido apenas como Sir, à beira de um colapso nervoso, que faz Rei Lear em um pequeno cinema durante a 2.ª Guerra. Ian McKellen é seu ator coadjuvante como Norman, o fiel assistente, cuja carreira e identidade dependem inteiramente de Sir. Os dois atores estrelam o telefilme The Dresser, adaptação da BBC de O Fiel Camareiro. O personagem de Hopkins – um de seus papéis favoritos em uma carreira cheia de memoráveis – avalia o custo cobrado pela arte da representação, com suas exigências contraditórias do ego e da humildade.

No fim de uma tumultuada carreira, ele se dá conta de que desperdiçou sua vida. “Sir percebe que não tem amigos, foi um tirano; as pessoas tentaram amá-lo, mas nada funcionou”, conta o ator britânico. “Então, ele estabelece que, um dia, encontrará seu apogeu. Em meio ao colapso, ele é conduzido ao palco e ali ocorre o momento divino, e Sir compreende: ‘Eu cheguei lá. Cheguei lá’.”

É verdade que nunca havia trabalhado com o ator Ian McKellen?

Não, e ele é um ator incrível. Tínhamos amigos comuns, mas... Então foi um grande acontecimento conhecê-lo, ensaiar e filmar com ele.

Você não pisava num palco há algum tempo. Representar em Rei Lear no filme trouxe de volta memórias amargas?

Sim. Porque a última grande produção que fiz no National Theatre foi Rei Lear, há 30 anos. Na época, eu era jovem demais para o papel, mesmo assim quis tentar e depois fiquei temeroso. Por isso, fazer o papel de novo foi uma volta à mesma experiência, com a exceção de que, desta vez, tenho 78 anos. Foi fantástico: experimentei o terror de me apresentar no palco, mas no filme, meu personagem se dá conta de que sua vida foi desperdiçada, que ele se consumiu no teatro. Foi justamente isso que quis evitar, anos atrás. Não queria me desgastar nessa profissão. Queria outra vida fora do teatro; por isso, decidi fazer uma pausa, e por isso, voltar ao teatro com Ian McKellen foi um verdadeiro prêmio, uma das melhores coisas da minha vida.

Vocês compartilham as histórias de guerra dos velhos tempos?

Os outros atores do elenco, mais jovens do que nós, não queriam ensaiar para ficar ouvindo as nossas histórias – Edward Fox, Ian e eu. E eles até pediam: “Não ensaiem. Continuem falando”. E Ian e eu ríamos.

Vai fazer novamente Lear?

Espero que Sir Richard Eyre o dirija. Colin Callender vai produzi-lo para a BBC em Londres, no ano que vem.

Para muitos atores, Rei Lear é o último papel de sua vida – e você já disse que era jovem demais quando o representou.

Somente agora tenho consciência disso. Seja pela falta de paciência, na minha vida pessoal, porque quaisquer que sejam as nossas convicções, nós somos aceitos e amados por aquilo que somos e não por aquilo que poderíamos ser. Não podemos ser tudo. Somos o que somos, com nossos defeitos, pecados e virtudes. Também cometemos erros e, por fim, você pensa: Bom, é isso aí. Fiz o melhor que pude. É disso que ele se dá conta no fim.

Houve algum papel no cinema que exigiu demais de você?

Foi Nixon, uma verdadeira loucura, porque Oliver Stone me convenceu a fazê-lo. Foi o mais difícil e complexo que já fiz. Por outro lado, é sensacional trabalhar com Oliver, porque ele pressiona até que a resistência ou medo se quebre e você faz o que deve ser feito.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.