Raquel Cunha/ Rede Globo
Raquel Cunha/ Rede Globo

Em novo papel cômico, Marcos Caruso evita se repetir com Pedrinho, em ‘Pega Pega’

Há seis anos escalado para papéis cômicos, ator se recicla em sua nova empreitada

Gabriel Perline, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2017 | 08h35

“Você não sabe fazer televisão.” Não deve ser fácil ouvir uma frase como esta, em início de carreira, ainda mais quando proferida por uma das principais estrelas da dramaturgia da época. Pois foi essa avaliação que Marcos Caruso recebeu de Tônia Carrero quando estreou na TV. Desistir da profissão não era uma opção. “Então me ensina, por favor”, teria respondido. “Conheço você do teatro. Você precisa se ‘limpar’”, devolveu a veterana. O conselho foi seguido e desde 2001, quando estreou na Globo, tem emplacado um ou mais trabalhos por ano na emissora.

Desde Cordel Encantado (2011), vem sendo escalado para personagens cômicos. E encontrar uma identidade individual para cada figura, sem revisitar seu próprio repertório, requer talento. E Caruso tem provado, mais uma vez, que essa característica não lhe falta. No ar em Pega Pega, conseguiu criar um tom único para o bon vivant Pedrinho Guimarães. A trajetória do personagem, que começa a história milionário e em poucos dias se vê sem um centavo no bolso, remete a outros trabalhos de sua biografia, como Leleco, de Avenida Brasil (2012), e Feliciano, de A Regra do Jogo (2015). Mas as semelhanças se restringem ao trânsito social, uma vez que Pedrinho, a alma da atual novela das 19h, passe longe desses papéis.

Quatro meses antes de a novela estrear, todo o elenco já se reunia nos Estúdios Globo para se ambientar na trama. O preparador Eduardo Milewicz acompanhou cada um dos atores em seus processos de construção de personagens. E foi ele quem ‘limpou’ Caruso e o fez ‘se livrar’ dos resquícios de Leleco e de Feliciano, para que Pedrinho Guimarães tivesse vida própria. 

“Acho que o Pedrinho tem essa limpeza. Ele é rico que já nasceu rico, veio de família rica, é milionário, nunca precisou trabalhar, nunca passou sufoco com dinheiro, nunca se preocupou se teria pão no café da manhã do dia seguinte. Ao contrário, ele tem a absoluta certeza de que terá espumante no café da manhã. Esse tipo de gente, que são pessoas extremamente distantes de mim e do meu dia a dia”, disse Caruso ao Estado. “Essa ‘limpeza’ me foi útil para encontrar essa pessoa que pensa que o mundo inteiro está a serviço dela. Esta empáfia e extrema autoestima eu consegui encontrar graças à ‘limpeza’ que o Milewicz me fez.”

Caruso sabe usar sua versatilidade a seu favor. “O ator é uma argila, e ele se molda à medida que os personagens vão se formando”, reflete. Dentro dessa gama de figuras semelhantes, ele diz recorrer a registros dramáticos para evitar que seus personagens cômicos entrem na linha das caricaturas sociais. “Essa facilidade eu tenho, não só de modificar a voz, mas também a maneira comportamental. O humor permeia meu trabalho desde que me conheço por gente. Mesmo tendo feito trabalhos dramáticos, como em Páginas da Vida (2006) e em Mulheres Apaixonadas (2003), eu me utilizo do bom humor. Sempre faço drama com a chave do humor, e sempre faço o humor com a chave dramática. Dessa maneira, você faz com que a vida da pessoa se torne mais misteriosa. Quando você coloca humor no drama e apresenta uma chave dramática na comédia, cria um mistério na vida do personagem. E acho que isso tem funcionado até agora.”

Pedrinho Guimarães herdou o Carioca Palace, instalado no coração de Copacabana. Preocupou-se apenas com seu bem-estar e deu de ombros para o negócio. À beira da falência, vendeu o hotel ao empresário Eric (Mateus Solano) pela bagatela de US$ 40 milhões. Durante a festa de aniversário de sua neta, Luiza (Camila Queiroz), quatro funcionários esvaziam o cofre e levam a fortuna. Sem um centavo, é acolhido pelo fiel escudeiro Nelito (Rodrigo Fagundes) em sua humilde residência no bairro da Tijuca, subúrbio carioca. Mesmo na pior, não se entrega à tristeza.

“Não quis fazer do Pedrinho um homem amargo, um homem lunar. Ele é um homem solar, que precisa do seu espumante para viver, mas constata isso sem se lamentar e sem se deprimir. Ele vai fazer do limão uma limonada? Não. Ele vai fazer uma caipirinha”, avalia.

Embora o personagem destoe de qualquer figura de seu círculo social, Caruso consegue traçar um paralelo entre Pedrinho e o cidadão comum.

“Nós todos somos um pouco Pedrinho Guimarães. Nós, brasileiros, dadas as devidas proporções, estamos sempre perdendo. É difícil a gente ganhar sempre. Ganha um pouco, perde um pouco. O povo brasileiro sobe cinco degraus, e desce três. Aí, quando você acha que está chegando ao topo, você desce mais alguns degraus. Essa é uma constante com todos os brasileiros”, avalia. “O cara que é de classe média baixa e está deixando de pagar o plano de saúde; o de classe média deixou de ir ao restaurante; o de classe média alta deixou de viajar nas férias com o filho; e o milionário deixou de comprar seu carrão de última geração. Todos eles estão no mesmo patamar. O que faz com que o Pedrinho seja esse personagem bem-humorado é porque ele é brasileiro. Se ele fosse um homem de outro país, não seria do jeito que é. Somos um povo extremamente dócil, temos esse bom humor em nosso DNA, temos o sol e a alegria em nós. E isso faz com que nós nos levantemos, sacudamos a poeira e damos a volta por cima. Tem vezes que dá vontade de cair no fundo do poço, mas nós não somos esse povo. Por sorte, por um lado. Por azar, por outro. A gente sempre ressuscita. Isso é muito bom, somos muito resilientes.”

Defesa. Pega Pega, primeira novela de Claudia Souto como titular, tem obtido resultados superiores aos de Totalmente Demais (2015) e Haja Coração (2016), fenômenos recentes da faixa das 19h, mas tem recebido críticas por não apresentar um roteiro inovador. Caruso defende a autora e pontua os fatores que, em sua opinião, fazem dessa novela um marco. “Ela não é uma autora que escreve a obra de fora, ela escreve de dentro. Por ter sido atriz, ter participado de peças de teatro, ela coloca na rubrica a marca. Ela está dentro do nosso corpo. E a novela não é calcada em situações, mas em personagens. Em Pega Pega o personagem tem voz ativa, vida própria, e não sobrevive da situação. A situação é determinada pela personalidade do personagem”, avalia.

 

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