Heather Sten/The New York Times
Heather Sten/The New York Times

Em documentário da Amazon, Lorena Bobbitt fala dos abusos que sofreu do marido

Em 23 de junho de 1993, Lorena mutilou com uma faca o pênis de seu marido enquanto ele dormia depois que, segundo ela, a estuprou

Redação, AFP

18 de março de 2019 | 11h04

O nome de Lorena Bobbitt sempre é associado a um riso contido ou a uma piadinha, mas pouco se sabe de seu passado de abusos domésticos que a levou ao ato de cortar o pênis de seu marido.

Vinte e cinco anos depois, ela, que agora se chama Lorena Gallo, conta sua história em um documentário da Amazon.

"Eu sabia que cicatrizes seriam abertas, que sofreria um pouco de ansiedade ao reviver estas memórias dolorosas que eu havia praticamente enterrado", afirma à AFP a mulher de 48 anos nascida no Equador. "Mas eu fiz porque acredito que como mulher, mãe e sobrevivente era meu dever usar a voz que muitas vítimas de violência doméstica não têm".

O caso de Lorena e John Wayne Bobbitt gerou manchetes em todo o planeta.

Em 23 de junho de 1993, Lorena mutilou com uma faca o pênis de seu marido enquanto ele dormia depois que, segundo ela, a estuprou. Era a história perfeita para a imprensa sensacionalista e para as piadas.

Mas também abriu o caminho para um debate até então ignorado.

"Meu caso ajudou a desestigmatizar a violência doméstica, o abuso sexual e o estupro dentro do casamento", afirma Lorena.

E levou à aprovação em 1994 de uma lei nos Estados Unidos sobre violência contra a mulher.

As estatísticas no país, no entanto, ainda são alarmantes: uma em cada três mulheres é abusada física ou sexualmente em algum momento de suas vidas; quatro mulheres são assassinadas a cada dia por seu companheiro; uma mulher é maltratada a cada 15 segundos.

O documentário de Joshua Rofé, produzido pelo vencedor do Oscar Jordan Peele, foi exibido em janeiro no Festival de Sundance, quando movimentos como o #MeToo e Time's Up ainda organizam protestos contra o abuso sexual em Hollywood.

"Muitas vítimas conseguiram falar, praticamente sem tabu, e por isso agradeço mil vezes a Deus", comemora.

"John não está em minha mente"

Quando Rofé apresentou a proposta do documentário, Lorena já havia "enterrado" muitas recordações.

"Eu não queria fazer", conta Lorena. "Eu tinha cuidado porque até agora o enfoque era sempre John, a ação (a mutilação), muito sensacionalista, ignorando o que eu sofri, e isso me desagradava muito".

Em quatro episódios de uma hora, Rofé percorre de maneira cuidadosa a vida de Lorena: da jovem que se mudou de Caracas, onde sua família morava, para Virginia, Estados Unidos, onde ainda vive. Fala sobre seu casamento, o início dos abusos, a amputação do pênis, o julgamento... até os dias de hoje.

"Este é talvez o caso mais infame sobre uma pessoa que age a partir do trauma, onde ela é a vítima e ninguém se pergunta o que levou esta pessoa a fazer o que fez", explica à AFP o diretor, que registrou, além do relato de Lorena, o de seu ex-marido John Wayne, que até hoje nega os maus-tratos.

"É um mentiroso patológico", afirma Lorena, sempre de maneira calma. "Como é possível que continue mentindo? Ele foi preso por abuso doméstico, no por mim, mas por outras mulheres".

Rofé também conversou com os policiais que investigaram o incidente, os advogados, o promotor, jornalistas e ativistas.

O documentário exibe trechos do julgamento, dos depoimentos das testemunhas. Também aborda a vida midiática de Bobbitt, que inclui uma passagem pela pornografia e uma operação para aumentar o pênis que havia sido reconstruído. Mostra ainda o assédio da imprensa a Lorena, como ela tentou retomar sua vida, com o novo marido e sua filha de 13 anos.

"Você perdoa, mas não esquece", disse, antes de explicar: "John não está em minha mente, não acontece assim de repente, eu não vivo pensando nele".

Lorena foi julgada e absolvida por ter atuado sob um estado de perturbação mental temporária.

Católica praticante, tem uma ONG, a Lorena's Red Wagon, dedicada a combater o abuso. Ela passa dias em abrigos, onde não hesita em falar sobre seu passado para ajudar outras mulheres que são vítimas. Ela considera o trabalho terapêutico.

"Quanto mais falo, mais ajudo", revela.

Lorena não tem arrependimentos.

"Como se arrepender de algo que você não tem o controle? Eu não queria estar na situação, não era algo que eu procurava nem é agradável".

"Eu posso contar a qualquer pessoa, e eu fui uma das que se salvou, há muitas que não sobrevivem".

E retoma o discurso de luta: "Meu caso ajudou muito, mas ainda há muito por fazer".

Ela afirma que as leis devem mudar e cita como exemplo o fato de um agressor sexual ter a possibilidade de comprar uma arma de fogo.

"John Wayne Bobbit certamente tem uma e não é piada".

 

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