Ele pagou a língua?

SUCESSO Autor de canção que critica a televisão, Tony Bellotto hoje colhe os louros de fazer TV inteligente

Alline Dauroiz

24 de julho de 2010 | 16h00

TV afiada. Programa gravado no Rio tem clima caseiro. Foto: Marcos Arcoverde/AE

 

 

 

Quando Tony Bellotto escreveu com os colegas do Titãs a letra de Televisão, para o álbum homônimo de 1985, não imaginou que um dia comandaria um programa tão duradouro no veículo que até então criticava. Hoje, 25 anos depois, o músico e escritor está prestes a estrear a 10.ª temporada de seu programa, o Afinando a Língua, que há 11 anos é um dos mais vistos do Canal Futura. A atração fala sobre Língua Portuguesa e literatura por meio da música.

 

Nesta temporada, que estreia dia 21 de setembro, foi lançado no Twitter o concurso Banda Afinada: a banda que obtivesse mais votos dos internautas faria um episódio do programa. Em duas semanas, 200 bandas se inscreveram - dessas, cinco foram selecionadas e, com 84,95% dos votos, os vencedores foram os meninos da Curimba, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

 

"Foi um case de sucesso", diz a diretora de programação do canal, Débora Garcia. Vencemos o desafio de falar com o jovem. Foram 25 mil rettwittes, o que significa mais de 2 milhões de público potencial alcançado". diz.

 

 

Era digital. Da plateia, Tony vê a banda que se inscreveu em concurso lançado no Twitter. Foto: Marcos Arcoverde/AE

 

 

 

Neste bate papo, entre as gravações de dois dos 13 episódios desta nova temporada, Tony Bellotto conta sobre sua relação de amor e ódio com a TV comercial.

 

Qual a fórmula para se manter em um programa cultural durante tanto tempo?

Foi uma sacada do Hugo Barreto (secretário Geral da Fundação Roberto Marinho), que me convidou em 1998, com uma ideia meio vaga de chamar a atenção dos jovens que ouvem música e têm resistência e preguiça de ler e mostrar, por meio das letras das músicas, que a literatura é tão interessante quanto. E com o tempo, o programa foi deixando o lado didático, para falar mais de linguagem. No começo, achamos que o público ia ser jovem, meio MTV, e com o tempo, vimos que a audiência é bem variada. Garçons e porteiros vêm me falar que adoram.

 

Você não acaba falando mais de música do que de literatura?

A gente tem uma certa liberdade. Porque falar de literatura não é a mesma coisa que ler. E a música acontece. Um Alceu Valença, que teve formação híbrida, ouvindo cantadores do Nordeste a um Elvis Presley, que recita um poema com tanta paixão, diz muito mais do que ficar ali falando da obra do Dostoievski, do Machado de Assis.

 

Seu programa contraria um pouco a letra da canção "A televisão me deixou burro, muito burro demais." Quem mudou: você ou a televisão?

(Risos) Acho que foi a televisão. Quando a gente escreveu Televisão não existia a TV a cabo, que permitiu uma TV de mais qualidade. A TV aberta continua deixando a música muito atual. Adoro assistir TV e vejo muito mais coisas de canais alternativos. Gosto de canais de jornalismo, de música, algo que cada vez menos a gente encontra na TV, de programas de gastronomia, que antes eram tão bagaceira e hoje são geniais.

 

A TV deixou de ser vilã?

Deixou. Mas quando a gente compôs a música, era uma crítica bem-humorada, de alguém que já estava inserido naquilo. Os Titãs sempre tiveram uma relação positiva com a TV. Acho que a TV foi vilã num pensamento meio marxista, que era o ópio do povo, que emburrecia as crianças. Quando eu era pequeno e morava no interior com meus pais, professores universitários, não tínhamos TV. Hoje não imagino uma sociedade sem televisão.

 

Você é um pai que pega no pé dos seus filhos (Nina, João e Antônio, de 28, 15 e 13 anos), com o português?

Lembro que quando meu filho mais velho estava na 5.ª série e não estava indo bem em gramática, eu disse: "Pô, João. Não faz isso comigo que pega mal para mim." Sempre corrijo essas manias de falar frases clichê, o "tipo assim". Tento mostrar a riqueza da língua, a possibilidade de usar palavras inusitadas. Mas não sou um pai chato. Não quer ler não lê.

 

Seu programa é um dos mais populares do Futura. Já te convidaram para uma TV comercial?

Nunca. Seria genial se rolasse, acredito que exista espaço. Um dos programas com mais música na TV aberta é o (Altas Horas) do Serginho Groisman (Globo)que, embora esteja num horário marginal, pelo menos não fica se mediocrizando em nome da competição. Acho estranho nunca terem me chamado.

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