Ele faz 50 com alma de 5

Dividido entre mil projetos, Renato Aragão começa a comemorar o aniversário do Didi Mocó

Patrícia Villalba, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2009 | 16h00

.

Didi Mocó é o tipo de figura cuja idade pouco importa. Mas não se pode deixar de notar que o personagem criado por Renato Aragão faz rir há 50 anos – e, muitas vezes, da mesma piada. Também vale dizer que, campeão de audiência e de bilheteria no cinema, ele chega a essa idade produzindo como nunca.

 

Além do programa Turma do Didi (Globo), que é apresentado aos domingos, Didi protagoniza Acampamento de Férias, uma série de aventura que vai ao ar a partir de amanhã, em cinco capítulos, até sexta-feira. No fim do ano, mais um especial, A Princesa e o Vagabundo, um telefilme com ares de superprodução. E no ano que vem, se der tempo, mais um filme, que será o 48º de sua carreira e, quem sabe, sua estreia na tecnologia 3D.

 

Para falar do começo de tudo isso, Renato Aragão recebeu o Estado num dos intervalos de gravação da Turma do Didi, nos estúdios da Globo, o Projac. Modesto e muitas vezes emocionado, ele lembrou dos primórdios na TV Ceará e até mesmo do convite que recebeu para estrelar um filme pornô soft. Só não falou em comemorações, porque não gosta. "Não sei se vou ter tempo de comemorar alguma coisa; só se a Globo quiser fazer algo, sei lá", desconversou.

 

Passava pela sua cabeça que o Didi chegaria aos 50 anos fazendo tantas coisas?

De jeito nenhum. Quando comecei, nunca tinha visto uma televisão na vida. Fiz meu primeiro programa por dois meses sem ter uma televisão em casa, foi muito estranho. Eu escrevia, dirigia, produzia e atuava. Era um sitcom, quem diria. Chamava Vídeo Alegre, uma historinha com começo, meio e fim, que eu escrevi durante dois anos e meio na TV Ceará. Só tinha duas câmeras pesadíssimas, difíceis de arrastar.

 

Foi em que ano?

Em 1960. Então, vamos fazer 50 anos agora em 2010.

 

Foi quando surgiu o Didi?

Sim, ele foi criado para a televisão. Lembro que estava fazendo o primeiro script na máquina de escrever e botei "Renato fala...". Daí, pensei "Renato não é nome de personagem de humor". E veio na cabeça, porque era fácil de bater na máquina: D-I-D-I. Pronto. Lembro como se fosse hoje.

 

Como eram as histórias?

Eram sátiras da cidade – buracos na rua, falta de transporte. O Didi sofria para ir trabalhar de ônibus. Chegava atrasado, o patrão dava esporro.

 

Tudo isso em estúdio?

É, porque nem tinha como sair com aquelas câmeras pesadas... (risos) Mas a dor ensina a gemer, e a gente tinha de se virar. Tanto é que quando eu vim para o Rio, sofri um pouco. Fui criado em televisão, mas os humoristas daquela época eram todos do rádio. Então, eram piadas faladas, não tinha movimento, ação. Quando cheguei aqui, me falaram que eu tinha de criar um bordão. Fiquei preocupado, porque a minha dicção é horrível! Eu precisava usar o corpo para ficar engraçado. Daí, criei Os Legionários, uma turma da Legião Estrangeira – porque não podia ser soldado, por causa da ditadura militar.

 

Como foi sua vinda para o Rio?

Não tinha pensado em sair do Ceará não. Fui contratado, menina. Estava lá e a TV Tupi queria fazer um programa bem popular e mandou procurar humoristas do Nordeste. Eu estava bem lá no Ceará, mas queria aproveitar para fazer cinema.

 

E foi conseguir isso quando?

Logo depois, em 1965. Foi uma emoção enorme. Foi Na Onda do Iê-Iê-Iê, um musical com todos os hits e cantores famosos daquela época. Desde os 12 anos eu queria fazer cinema. Fazia historinhas em casa sem nem saber o que era televisão.

 

Você fica chateado quando te chamam de Didi?

No começo, achava estranho. Eu não aceitava, mas achava gracioso, porque se estão me chamando assim é porque são fãs. Agora, misturou tudo. Às vezes, um funcionário em casa me diz "pois não, senhor Didi".

 

E quando foi que ele ganhou aquele sobrenome enorme?

Foi num improviso. Quando comecei na TV Tupi, fiz um quadro em que era um candidato a uma vaga de emprego, que preenchia uma ficha. O sujeito disse "Seu nome?", e eu "Didi". E ele "Só Didi?". E eu fui falando "Didi Mocó Sonrisel Colesterol Novalgina..." O público riu muito. É um nome que não tem nada a ver, apareceu na minha cabeça na hora. Mocó é um rato grande, tipo preá. Sonrisel, por causa do Sonrisal. Colesterol não sei por quê. E Mufumo é um arbusto que tem no Nordeste.

 

Qual foi a mudança fundamental do Didi nestes 50 anos?

Nenhuma! O Didi é um personagem fixo, o que muda é o que está em torno dele.

 

Muda o mundo, mas não muda o Didi?

É isso mesmo, mudam as situações. Numa hora, ele é soldado, na outra, ajudante de cozinha. Ele tem todas as profissões do mundo, mas não muda. É que já passaram não sei quantas gerações, e eu não posso mudar aquilo que mais agradou. Não adianta querer fazer outra coisa. Já tive convites para fazer filme dramático, mas seria até ridículo.

 

Recebeu esse tipo de convite quando?

Logo no começo. Até para filme pornográfico me chamaram! Aquelas pornochanchadas... Queriam que eu fizesse um 007 sensual. Imagina, não teria como (risos).

 

As pessoas te cobram que seja engraçado o tempo todo?

Sim, ficam esperando isso. Mas ao contrário, sou muito diferente do Didi. Ele é meu avesso, meu alter ego. Eu sou até tímido. No começo da carreira, cheguei correndo ao aeroporto para pegar a última ponte aérea. Veio um senhor dizendo "ô, Didi, dá uma cambalhota?". Não dei e ele me xingou muito. Agora, fico feliz, porque significa que o personagem é tão forte que as pessoas acham que ele existe mesmo.

 

Se você é tímido, quando percebeu que era engraçado?

Até hoje não percebi... (risos) Não me sinto engraçado. Me vendo na TV, sempre penso que em sã consciência não faria aquele tipo de coisa.

 

***

OS TRAPALHÕES | "Não gosto de rever o programa antigo, porque me entristeço muito quando vejo os colegas (Zacarias e Mussum) que perdi"

 

EM SERRA PELADA | "Os Trapalhões em Serra Pelada (1982) foi muito difícil de rodar. Eu desci e subi naquele buraco do garimpo umas mil vezes"

 

OS SALTIMBANCOS | "Levamos um ano para fazer Os Saltimbancos Trapalhões (1981). Gravamos em Hollywood, nem sei como conseguimos"

 

AVESSO DO AVESSO | "As pessoas esperam que eu seja brincalhão. Mas eu sou muito diferente do Didi. Ele é meu avesso, meu alter ego. E eu sou tímido"

 

SEMPRE ALERTA | "Meu público não é só criança, tenho de agradar aos adultos também. Por isso, digo que o sucesso é eterna vigilância"

 

***

OS HITS DA VITROLA DO DIDI

 

BANDIDO CORAZÓN | Numa loja de discos, Didi imita Ney Matogrosso

http://tinyurl.com/yhnov5b

 

TERESINHA | Didi e os amores de Teresinha, na voz de Bethânia

http://tinyurl.com/dcceoy

 

CAMA E MESA | Didi e Mussum interpretam o clássico do Rei

http://tinyurl.com/yjuzbp8

 

A FILHA DO SEU FACETA | Didi e Zacarias cantam a moda da filha doida pra casar

http://tinyurl.com/yk2v5ab

 

SUPERBACANA | Didi e os Trapalhões atacam de backing vocals de Caetano

http://tinyurl.com/yjxxb98

 

MEU SANGUE FERVE POR VOCÊ | Didi e Sidney Magal em uma performance em dupla

http://tiny.cc/ypMVh

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.