Ela quer seduzir jovens

Diretor Luiz Fernando Carvalho deseja que sua Capitu fisgue platéia ainda resistente a Machado

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2008 | 15h15

Os olhos de "cigana oblíqua e dissimulada" de Capitu, uma das mais famosas personagens da literatura brasileira, terão agora uma importante função: a de tragar e arrastar os jovens para a frente da TV, na tentativa de atraí-los para a obra de Machado de Assis. Pelo menos, é esse o desejo do diretor Luiz Fernando Carvalho, que estréia sua microssérie Capitu, baseada no livro Dom Casmurro, dia 9, na Globo, antes do Jornal da Globo.   Veja também: 'Participo (da indústria) na contramão' Psiu! Vai começar"Pensei muito nos jovens. Queria quebrar o preconceito com a obra de Machado, geralmente empurrada goela abaixo nas escolas. Existe a percepção de que Machado é confuso, obscuro e obtuso", explica Carvalho."Mas ele é tão moderno, jovem e vivo, que ficaria feliz em ser compreendido pelos jovens do século 21, 22...25".Assim, em cinco capítulos, a série trará uma versão que mistura figurinos do século 19 com adereços bem modernos - que lembram recursos do filme Maria Antonieta, de Sofia Coppola - , como valsa embalada por MP3 e a tatuagem à mostra da protagonista. A trilha sonora também é uma mescla, de sinfonias clássicas a rock do Black Sabbath.Cada palavra dita em Capitu, no entanto, está no texto de Machado. Não houve concessões no sentido de "amortizar" a literatura - apesar do risco que isso possa representar. A Pedra do Reino, adaptação para a TV da obra de Ariano Suassuna, último trabalho do diretor, teve a linguagem considerada confusa e espantou a audiência.Estímulo à criaçãoCoincidência ou não com o fracasso de público de A Pedra do Reino, e aliado ao fato de que Capitu não tem co-produção (A Pedra... foi uma parceria entre Globo e a produtora Academia de Filmes), Carvalho teve de lidar dessa vez com o orçamento mais baixo: R$ 1 milhão por capítulo.Por isso, as gravações foram quase 100% feitas no interior do Automóvel Club do Brasil, palácio em ruínas no centro do Rio. "Falta de dinheiro impõe criação", diz Carvalho. E haja criatividade! No único cenário da série não há paredes, as portas são móveis e carregadas pelos atores e o mar de ressaca é feito pelo movimento de um plástico. Carvalho nega qualquer referência à falta de cenário do filme Dogville, de Lars von Trier."A referência é a falta de dinheiro (risos). Tudo foi trocado pela imaginação dos atores." Para atingir essa profundidade na interpretação, o elenco teve quase três meses de ensaios diários e oficinas com psicanalistas, historiadores e comunicadores que esmiuçaram a obra de Machado.A preparadora de corpo Tiche Vianna explica que, para compor as protagonistas, uma das técnicas foi fazer com que as atrizes Letícia Persiles (Capitu Menina, no centro da página) e Maria Fernanda Cândido (Capitu Mulher, na foto ao alto, de noiva) - ambas grávidas durante as filmagens - imaginassem atitudes felinas. "O eixo delas deveria estar no olhar. O corpo não faria movimento sem que os olhos reagissem primeiro", explica Tiche. O olharTreinar na frente do espelho poderia ser um caminho para alcançar o olhar mais famoso da literatura. Mas, para as atrizes que compuseram Capitu, isso seria superficial. "Essa personagem não nasceria de trejeitos, mas da alma", teoriza Maria Fernanda. Já Letícia, atriz e cantora de 25 anos que estréia na TV, conta que, além dos trabalhos com os profissionais, ela montou uma caixinha. "Lá, guardei cartas de namorados da adolescência, coisas da Capitu e o que pudessem despertar sensações."Mas engana-se quem pensa que esses olhos "de ressaca" entregarão o mistério da obra. Afinal, Capitu traiu ou não Bentinho? O diretor responde: "Fomos fiel a Machado. Dom Casmurro é um ensaio sobre a dúvida. E assim mantivemos Capitu."  

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