Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Ela não é mera desconhecida

Famosa por Som & Fúria, atriz é uma das diretoras mais conceituadas no meio

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2009 | 23h35

Acostumada a descobrir talentos, Cecília Homem de Mello se viu na condição de famosa da noite para o dia. Com Ana, a tímida secretária da série Som & Fúria (Globo) - que será lançada em DVD em outubro e pode ganhar 2ª temporada em 2010 -, ela se destacou em meio a um time estrelado, no que foi sua primeira atuação em TV.

O que poucos sabem é que ela já é conhecida - e paparicada - no meio artístico. Diretora de elenco da produtora O2 e fiel escudeira do cineasta Fernando Meirelles, é Cecília quem, há mais de 20 anos, chama atores para testes de comerciais e filmes. Nascida em Amparo, interior paulista há "50 anos e lá vai pedrada", como diz, ela é também jornalista e atriz há 30 anos.

Intimada por Meirelles a viver o papel de Ana, Cecília mostra neste bate-papo com o Estado que tem muito em comum com a personagem, descrita na sinopse como "eficiente, tímida, sensível e inteligente, que vive às voltas com atores e produtores".

Você é parecida com a Ana, não?Ana é meu alter ego. Tenho essa vontade dela de que tudo dê certo e esse jeitinho caipira (risos).

Como é, de repente, sair do anonimato?

Achei que não iam me reconhecer com cabelos brancos. E me pararam no restaurante, na locadora. Sei que vai passar.

E as cenas de romance? Foi difícil tirar a roupa?

Foi tudo de mentirinha. É, talvez tenha sido mais complicado que as outras coisas (risos).

No original canadense, a Ana é vivida por Susan Coyne, a roteirista da série. Sentiu o peso do papel?

Mas fiquei muito envergonhada, relutei. Dizia: "Com tanta atriz por aí". E adorei! No meio daqueles atores, me senti a Cinderela no baile (risos).

E sua Ana é mais engraçada que a canadense. Foi de propósito?

É uma adaptação. Talvez nossa temperatura seja outra. Mas o que me deixou feliz foi ter feito parte dessa homenagem aos atores de teatro.

Você é do teatro.

Sim. Fiz EAD (Escola de Artes Dramáticas, da USP) e, no último ano, entrei no Centro de Pesquisas Teatrais do (diretor) Antunes Filho. Fiquei lá uns quatro anos. Foi um período riquíssimo para amadurecer a sensibilidade.

Depois você virou jornalista?

Estudei jornalismo antes de fazer teatro. Nunca planejei muito as coisas, sabe? Fazia Educação Física na PUC, pedi realocação para Ciências Sociais e conheci a (jornalista) Silvia Sayão (hoje no Globo Repórter) que, na época, trabalhava no Diário Popular. Comecei como repórter estagiária lá.

Trabalhou na área?

Sim, no Estadão, Globo, Folha de S. Paulo, Abril. Foram uns quatro anos. Parei Ciências Sociais, comecei Jornalismo. Mas era idealista e achava que ia mudar o mundo. Quando vi que não dava, parei e entrei no teatro.

Ganhava dinheiro no teatro?

Nada. Frilava como repórter e fazia artesanato. Vi que a vida de ator é um sacerdócio. Hoje me disseram que a vocação do ator é saber viver com fome.

Por isso não continuou?

Estava me separando e, para ficar com meu filho, precisava garantir que tinha condições de manter minha casa e meu filho. Chorei uma semana para tomar a decisão.

Foi quando conheceu o Fernando Meirelles?

Sou péssima de datas. Marco pelo nascimento da filharada (Tuco, o mais velho dos 3 filhos, tem 31 anos, e a caçula, 15). Quando fizemos a primeira coisa juntos, o Tuco estava com 8 anos. Foi na (produtora) Olhar Eletrônico.

E virou produtora de elenco?

Fazia roteiros para institucionais. Como conhecia os atores, comecei a chamar os amigos. Era uma coisa informal, uma forma de estar com os atores. E quando vi, tinha um nome para esse cargo.

Você marca a vida das pessoas, muitas ficaram famosas após serem chamadas por você.

Tem gente que aposta todas as expectativas num teste. E não é bem assim. São as circunstâncias e sorte. E o mercado publicitário é louco.

Após anos na função, é mais fácil falar um não?

É terrível, dolorido. Sei que afeta a pessoa. Minha filha queria fazer teatro e segurei o quanto pude. Agora que tem 15 anos, deixei fazer um curso que sei que não vão alimentar esse papo do "vamos fazer um book artístico", transformando crianças em criaturas todas pintadas.

Acha que agora a TV vai começar a te chamar?

Acho que não. Eles têm tanta gente. Vejo tantos atores aí...

Você lida muito com a decepção. Isso dá medo?

Admiro os atores que continuam no front. Tenho dois filhos para acabar de criar. Fiz meu exame de consciência e pensei: qualquer pessoa pode fazer o que faço no teatro, mas mãe dos meus filhos, só eu. Quem sabe no asilo eu possa voltar à ativa (risos).

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