Timothy O' Connell / The New York Times
Timothy O' Connell / The New York Times

Edward Burns volta a Long Island dos anos 1980 com ‘Bridge and Tunnel’

A nova série do diretor na Epix retrata o período posterior à universidade, quando 'ainda não somos exatamente adultos, mas não somos mais crianças', disse ele

Stuart Miller, The New York Times

27 de janeiro de 2021 | 10h00

Edward Burns criou para si um rumo particular enquanto cineasta independente nos vinte e cinco anos transcorridos desde o seu bombástico filme de estreia, Os Irmãos McMullen. Consistentemente, envolveu-se em produções de orçamento pequeno (US$ 250 mil em Looking for Kitty) e minúsculo (US$ 9 mil - isso mesmo, não é erro de digitação - em Newlyweds), e experimentou com novos modelos de distribuição antes mesmo da ascensão dos serviços de streaming. Em 2007, fez seu primeiro filme distribuído diretamente no iTunes, Segunda Chance Para o Amor, e, em 2010, inaugurou o Indie Film Club da Comcast com Os Amores de Johnny.



Ele já tentou a sorte nas emissoras e na TV a cabo com séries de curta duração como Public Morals, mas sua nova comédia dramática, Bridge and Tunnel, que estreia domingo no Epix, marca a estreia do diretor na TV a cabo premium.

Situada em 1980 na cidade de Valley Stream, Nova York, em Long Island, onde Burns cresceu, o programa gira em torno de seis jovens recém-formados na universidade tentando descobrir como será o seu futuro. “Aquele período no qual, depois de passar quatro anos longe, voltamos a morar na casa dos pais - para alguns é uma semana, e para outros, um par de anos - e ainda não somos exatamente adultos, mas não somos mais crianças, é muito interessante para mim", disse Burns.

O diretor, que também interpreta o pai de Jimmy (Sam Vartholomeos), um aspirante a fotógrafo, inclui vários floreios da época. Um pôster do jogador Rusty Staub, favorito entre os torcedores dos Mets, pode ser visto na parede do quarto a infância de Jimmy, e Burns emprestou sua própria camisa original dos Mets da década de 60 a Brian Muller, que interpreta Pags. Um personagem participa de um comercial que homenageia o apresentador Crazy Eddie, rosto conhecido da TV nova-iorquina dos anos 1980; se uma segunda temporada for produzida, Burns espera colocar outro personagem nos anúncios de Lullaby of Broadway, no Milford Plaza Hotel, que passavam sem parar na época.

 


Recentemente, conversei com Burns pelo telefone a respeito de Bridge and Tunnel e o que ele teve de fazer para manter a produção viva durante a pandemia (a série foi filmada em Long Island durante o verão e o outono americanos). Eis alguns trechos editados da conversa.

 

Como torcedor dos Mets, adorei o trecho que mostra um jogo narrado por Bob Murphy, mas por que não situar a série em 1984, para vermos Dwight Gooden arremessando, e não um jogador dos Mets sendo suspenso por excesso de faltas?

Decidi situar a história em meados de 1980 porque essa é a época de Nova York em relação à qual me sinto mais nostálgico. As pessoas falam da Paris dos anos 1920 - sempre pensei na nova York do início dos anos 80. Temos o punk, o new wave, o hip-hop, a cena da moda e das artes. Quando finalmente cheguei a Manhattan, em 1990, 1991, olhava ao redor e pensava, “Nossa, as coisas eram tão melhores então".

Tenho 52 anos, ou seja, em 1980 estou no sexto ano da escola e sou fácil de impressionar. Romantizava as vidas e as escapadas dos rapazes e garotas mais velhos do meu bairro - eu só podia imaginar o que estavam fazendo quando passavam pela minha rua em direção à estação de trem nas noites de sexta ou sábado, indo para a cidade para aproveitar.

Eu me apaixonei pela ideia dessa molecada pegando a ponte e o túnel para chegar a Manhattan e ir atrás dos seus sonhos. É como a frase de Scott Fitzgerald a respeito da cidade e “sua promessa selvagem". Dei a cada personagem um sonho que, para a juventude de classe trabalhadora, parece realmente fora da realidade - eu não conhecia ninguém que trabalhasse com arte, moda ou fotografia, de modo que meus amigos com ambições artísticas pareciam perseguir um sonho impossível. Mas tínhamos também a sensação de que, se chegássemos a Manhattan, conseguiríamos realizar nossos sonhos.


 

Temos uma trilha sonora de época, com bandas que vão de Toto a Blondie, e a música é um assunto recorrente nas conversas. Mas por que nenhuma menção é feita a Billy Joel, o maior astro de Long Island? 'Glass Houses' chegou ao topo das paradas de álbuns em 1980.

Quando eu era jovem, certa vez vi Billy Joel do lado de fora de uma pizzaria e, quando ele entrou no carro, eu e meus amigos o seguimos. Assim, estou guardando Billy Joel e essa cena para a temporada 2.


 

Seus personagens são de classe trabalhadora, mas a maioria frequentou a universidade e tem ambições maiores. A questão de classe não é explícita, mas Jill (Caitlin Stasey) é ridicularizada pelos chefes esnobes de Manhattan por causa do seu sotaque, mas você sublinha como as coisas eram diferentes.

Acho que, hoje, os jovens de classe trabalhadora têm mais dificuldade em seguir seus sonhos. Pude frequentar a Hunter College pagando US$ 600 por semestre, onde tive aulas de cinema. Os obstáculos para a entrada em algumas dessas áreas são mais difíceis hoje. Tammy (Gigi Zumbado) faz faculdade de administração na Universidade Columbia e paga as despesas de ensino com o emprego de garçonete, mas, hoje em dia, não creio que essa renda seria suficiente para tornar a situação realista.


 

Você estava pronto para rodar a série quando a pandemia teve início, e os protocolos da covid, com testes constantes e limpeza extrema trazem um custo de US$ 2 milhões, uma fatia considerável do seu orçamento. Sua experiência como cineasta independente o preparou para tal situação?

Já fiz muitos filmes sem orçamento e com orçamento limitado: é necessário improvisar rápido, reescrever uma cena de uma hora para a outra, desistir dos planos para o dia seguinte quando perdemos um ator ou quando a polícia chega e diz, “Ei, vocês não têm alvará".

Se eu tenho uma qualidade enquanto cineasta, esta seria a capacidade de mudar de planos. Eles disseram que, sem esses US$ 2 milhões, não acreditavam que seria possível rodar a série. Eu disse, “Posso reimaginar o programa". Originalmente, seriam oito episódios, e metade da ação se passaria em Manhattan - com personagens saindo de entrevistas de emprego ou se encontrando em um bar da cidade.

Eu disse que reduziria para seis episódios e reescreveria as cenas para que se passassem no quarteirão em que eles cresceram. Transferi para ambientes externos tantas cenas internas quanto o possível, por questões de segurança, motivo pelo qual eles estão sempre no parque ou conversando no jardim dos fundos.



 

No começo da sua carreira, você trabalhou com estrelas em ascensão como Connie Britton, Leslie Mann, Cameron Diaz e Amanda Peet. Foi divertido voltar a trabalhar com novos nomes?

Sem dúvida. Não precisávamos de grandes nomes para chamar atenção e, por isso, eu disse "Vamos encontrar os melhores atores, mas fiquem de olho nos novos nomes que sempre perdem os melhores papeis para atores mais conhecidos". Como um jogador da segunda divisão que está pronto e só precisa de alguém disposto a dar-lhe uma chance.

Sam Vartholomeos é de Astoria e ainda vive no Queens. Quando ele chegou, disse no teste que sempre chegava à fase final do processo de seleção do elenco, mas perdia para o outro concorrente. Mas eu sabia que ele tinha talento de verdade.

Ele fez o ensino médio na LaGuardia High School e ouviu de um professor, “Você precisa se livrar desse sotaque do Queens". Ele ficou muito preocupado com isso e trabalhou duro nessa característica, até que outro professor disse, “Não se preocupe tanto - muitos atores têm sotaque e trabalham normalmente. Com sorte, um dia alguém o chamará para interpretar o filho de Ed Burns".

E, no primeiro teste de figurino, ele perguntou quem interpretaria os pais dele. Quando soube que eu seria o pai, ele disse, “P… que pariu, só pode ser brincadeira!”

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