'É uma comédia dos maus costumes do Brasil', diz Matheus Nachtergaele, sobre 'Filhos da Pátria'

'É uma comédia dos maus costumes do Brasil', diz Matheus Nachtergaele, sobre 'Filhos da Pátria'

Ator volta a viver o corrupto Pacheco na segunda temporada da série da Globo, que estreia em outubro; Matheus estará nesta sexta, 16, no Cinesesc, para debate de seu filme 'A Serpente'

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 06h00

Não raro, o ator Matheus Nachtergaele é visto transitando entre o drama e a comédia. Entre a TV e o cinema, passando também pelo palco. Atualmente, ele está no filme A Serpente, de Jura Capela, com texto de Nelson Rodrigues, exibido nesta sexta-feira, 16, às 19h, no Cinesesc, em São Paulo, seguido de debate com a presença do ator e do diretor. E, em outubro, Matheus retorna na 2.ª temporada da série Filhos da Pátria, de Bruno Mazzeo, na TV Globo. 

Eleito melhor ator coadjuvante por sua atuação em O Nome da Morte no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, na última quarta, Matheus interpreta Paulo em A Serpente, e contracena com Lucélia Santos, que faz as gêmeas Guida e Lígia, numa história bem rodriguiana, que envolve marido, mulher e cunhada. “A Serpente é um pequeno filme de grande arte, de baixo orçamento. É uma peça de um ato só. É a primeira peça que o Nelson esboçou, antes de realizar toda essa obra magistral como teatrólogo, dramaturgo, e foi a última que ele publicou antes de partir.” 

O filme marca ainda o reencontro de Lucélia com a obra do célebre dramaturgo. “Acho que a gente está devolvendo a Lucélia para o Nelson, em alto estilo. Ela era a atriz preferida do Nelson”, afirma. “A presença dela foi muito importante para nós, porque ela trazia notícias reais do Nelson. Para nós, ele é um grande autor; para ela, é um amigo também.” 

Na TV, Matheus retoma seu personagem Pacheco, que, na 1.ª temporada de Filhos da Pátria, exibida em 2017, já mostrava sua faceta corrupta, engendrando esquemas escusos com recursos públicos, auxiliado por colegas em seu ambiente de trabalho. Isso em pleno século 19, mais precisamente em 1822, na fase pós-independência no Brasil. Para esses esquemas no Paço Imperial, ele arrastava o ingênuo Geraldo Bulhosa (Alexandre Nero), casado com a ambiciosa Maria Teresa (Fernanda Torres), e pai do alienado Geraldinho (Johnny Massaro) e da jovem feminista Catarina (Lara Tremouroux). 

Nesta nova temporada, todos os personagens são transportados por Mazzeo para os anos 1930, no início da Era Vargas, período em que Getúlio Vargas governou o País. A época é diferente, os costumes também. Mas a corrupção segue atravessando gerações. “Bruno Mazzeo escreve muito para denunciar um tipo de atitude corrupta em nós, brasileiros, através dos tempos. E não só no Pacheco, acho que em todos, inclusive, no herói, que é o Geraldo, feito pelo Nero. Ninguém sai de mãos limpas. Todo mundo acaba sendo contaminado por essa má conduta”, acredita o ator.

E, mesmo mantendo os mesmos personagens, essas duas fases bem distintas do Brasil foram usadas como cenário para a 1.ª e a 2.ª temporadas da série. Como foi fazer essa passagem? “Acho que agora os procedimentos são outros. A pesquisa histórica se aprofundou bastante para esta 2.ª temporada. A gente teve Eduardo Bueno (consultor da temporada) bem presente, desta vez, escrevendo junto com o Bruno, para que a gente tivesse dados históricos concretos, fofocas de época de verdade”, conta. 

Segundo o ator, aliás, o fato desta nova temporada remeter a um período mais próximo da História do País ajudou nesse processo. “Os anos 1930 foram um pouco mais bem documentados para nós do que a Proclamação da República. Mas também acho que o Bruno e a equipe dele tomaram coragem como autores de botar o dedo nessa má conduta. Gosto de falar que é uma comédia de maus costumes, porque tem gente que fala que é comédia de costumes. Essa é uma comédia dos maus costumes do Brasil. Então, tem algum humor. A série era mais ingênua na 1.ª temporada, e agora ela se tornou mais ácida, porque o Brasil se tornou mais ácido.”

Agora, Pacheco é funcionário do alto escalão do Palácio do Catete. E leva Geraldo à sede do governo com um propósito: destruir os arquivos públicos, queimando a memória oficial. Retratado de uma maneira mais ingênua na temporada anterior, Geraldo, de acordo com Matheus, será menos poupado desta vez. “Ele já está mais comprometido mesmo.”

E o Pacheco? “Eu o localizei melhor: ele é aquele ser que se atrela ao poder, mas que não dá o rosto a tapa. Quanto mais anônimo ele estiver, é melhor para ele”, descreve Matheus. “Ele tem um cargo no Catete, mas não é chefe. Só é superior ao Geraldo. Tem pessoas maiores do que ele, sempre tem alguém maior do que o Pacheco, ele está sempre trabalhando para alguém. Ele é um poder oculto, é aquele cara que, na verdade, decidiu, mas não foi em quem você votou. Você não sabe o nome dele.” 

 

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