'É só fazer a barba e entrar em cena'

Daniel de Oliveira, o doce Agnello da novela Passione, bem poderia ser um ‘vitellone’ de Fellini

Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2010 | 16h00

Sempre disposto a adequar o físico ao personagem, ele agora faz sucesso de cara limpa

 

Por coincidência ou caprichosa conspiração cósmica, não foi o autor Silvio de Abreu, mas a professora Brígida que pôs Daniel de Oliveira na rota do Agnello, o italiano mais encantador de Passione. É que quatro meses antes de o ator receber o convite para o papel, a professora, que já lhe dava aulas particulares de inglês, insistiu para que ele passasse a estudar também italiano. "Quatro meses depois, me chamaram para fazer o Agnello. Pensei: ‘estou no caminho certo’", conta Daniel.

 

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No começo da novela, Agnello, o filho mais rebelde do camponês Totó (Tony Ramos) parecia não ter lá um bom caráter. Mas logo se mostrou ingênuo e, agora, perdido em paixão por Stela (Maitê Proença), virou de vez um doce de coco. "É um personagem recorrente nos filmes italianos, principalmente em Os Boas Vidas (I Vitelloni), do Fellini", explica Silvio de Abreu, que logo que criou o personagem pensou em vesti-lo com o reconhecido carisma de Daniel.

 

Um dos atores mais elogiados de sua geração, pela capacidade de se transformar sem pudores, Daniel concedeu a seguinte entrevista ao Estado, em que fez questão de gastar um pouco do seu italiano, ainda em êxtase pelos 40 dias que passou na Itália, para as gravações da novela.

 

Primeiro, achei que o Agnello fosse meio mau caráter. Mas agora, estou achando que ele é meio ingênuo...

 

É, eu também estou descobrindo quem ele é. Acho que ele é um italiano cheio de sonhos e vontade de sair daquele universo de ‘contadino’ (camponês). É por isso que ele acreditou no Fred (Reynaldo Gianecchini).

 

Ele se acha malandro, mas é ingênuo.

 

É que naquele universo ali, na Toscana, ele é malandro. Mas esse mundo está cheio de malandros mais malandros do que a gente.

 

Você é conhecido por papéis de transformação física e apuro técnico. Como se sente, então, quando vai fazer uma novela e me diz, a essa altura do campeonato, que nem sabe se o personagem é bom ou mau caráter. Não fica aflito?

 

Não dá aflição, dá curiosidade. Tenho curiosidade não só sobre o Agnello, mas também sobre os outros personagens - também gosto de ver a novela em casa. Mas não fico ansioso, espero as coisas acontecerem.

 

Muito ator não gosta de se ver na TV. Não tem problema com isso, então?

 

Assisto, sim, não tenho paranoia, acho que me acostumei. Entendo que há limitações, e não fico me criticando nem me vangloriando. Não fico ali tendo egotrip na frente da TV. O que eu penso é que ali, naquele momento, fiz o meu melhor.

 

Você ficou três anos sem fazer novela, a última foi Desejo Proibido. Neste período, fez dois filmes e duas minisséries. Volta diferente para as gravações?

 

Acho que tem um lado muito bom de fazer novela, que é um exercício de rapidez. Mas não estou sentindo ainda a pressão, porque começamos a preparar Passione muito antes. Inconscientemente, comecei a me preparar até antes de receber o convite. A minha professora de inglês, a Brígida, começou a dizer "Daniel, vamos estudar italiano também". Eu não queria, dizia que o inglês estava bom demais. Mas topei fazer 20 minutos e me interessei bastante. Quatro meses depois, recebi o convite para fazer o Agnello Mattoli. Pensei "estou no caminho certo". Agradeci muito à Brígida! E intensifiquei minhas aulas de italiano.

 

A professora Brígida já viu a novela? Aprovou seu italiano?

 

Já, ela adora! Ela sabe que temos de misturar as duas línguas. Se falarmos só o português com um certo cantar italiano, fica estranho. Então, estamos misturando, e tem muita coisa em italiano mesmo. Teve gente que não gostou, claro. Mas a gente vai adequando.

 

As novelas sempre ficam no ‘eco’ e no ‘capisce’, mas em Passione a dose de italiano é bem maior.

 

Sim, hoje peguei um texto que tinha uma palavra em português e o resto todo em italiano. Mas acho que dá para entender, sim, até porque a gente explica muito bem a cena. Tem gente que fica incomodado com isso sei lá por quê. Mas a maioria das pessoas está gostando. É confortável aquele universo da Itália. A Gemma (Aracy Balabanian) e o Totó são personagens muito carismáticos, e o núcleo italiano tem uma coisa de família que é muito gostoso de ver.

 

Aonde acha que vai parar o romance do Agnello com a Stela (Maitê Proença)?

 

Acho que há um sofrimento mútuo, porque ela é casada. E que ele até pensou em se aproveitar dela, mas depois ficou envolvido de verdade. Mas acho que não é um romance que vai terminar bem.

 

No ano passado, em entrevista para o Caderno 2, você disse que quando vai viver figuras reais no cinema - como Cazuza - busca dentro de você mesmo uma chave que decodifique o personagem. Como faz com o Agnello, que é pura ficção?

 

É, acho que você tem de buscar uma relação com o personagem, já que usa sua voz, corpo, raciocínio e todos os seus músculos em cena. Dependo muito de mim para viver uma figura que não sou eu, mas que ao mesmo tempo sou eu totalmente - sou eu naquela pele ali. Já o Agnello está próximo de mim: cabelo enrolado, é só fazer a barba e ir pra cena! A única coisa que ele tem de diferente é esse acento italiano, essa língua que quero descobrir. Falei pro Tony (Ramos) que neste ano vou falar muito em italiano com ele!

 

A professora Brígida tem um aluno exemplar...

 

Mais ou menos... Eu nunca faço a lição de casa... Mas estou querendo dar um gás. Na Itália, qualquer um que vinha falar em inglês comigo e eu dizia "no, no, per favore, parla italiano con me".

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