Leon Galan Marquez/Netflix
Leon Galan Marquez/Netflix

Dramalhão 'Ingobernable', da Netflix, quer ser o novo 'House of Cards'

Série aparenta ser promissora nos dois primeiros capítulos, mas logo se revela uma irrecuperável trama de tons mexicanos

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2017 | 03h00

Tratada no México como uma versão latina de House of Cards, a série Ingobernable, da Netflix, parece promissora nos dois primeiros capítulos, mas logo descamba para o dramalhão. Para encarar seus quinze episódios é preciso abstrair a verossimilhança e realocar as expectativas para o modo humor. Chega a ser divertido brincar de pescar absurdos, especialmente nas cenas de ação e espionagem. 

Conhecida no Brasil pela telenovela A Rainha do Tráfico, também da Netflix, a atriz Kate del Castillo é a força matriz da atração. Ingobernable marcou o retorno triunfal às telas após ela intermediar no ano passado uma entrevista do ator Sean Penn com o então procurado traficante ‘El Chapo’. 

O caso causou uma controvérsia internacional, o que ajudou na promoção da série mexicana. A trama é interessante e sedutora. Emília Urquiza (Kate) é a primeira-dama do México, uma mulher popular de personalidade forte que atua para promover a paz em um país pressionado pelo tráfico de drogas.

No primeiro episódio vemos o conflito dela com o marido, o presidente Diego Nava (Erik Hayser), de quem está se separando. O casal deflagra uma briga violenta no momento em que o país espera ansioso por uma entrevista coletiva que mudaria o rumo da nação.

 

Até esse momento, a impressão é de que estamos diante de um bom thriller político. A produção é caprichada, as cenas de ação bem coreografadas e os bastidores políticos contam com diálogos honestos, que cumprem o papel.

 

O presidente então despenca da varanda da cobertura do hotel e a primeira dama decide fugir para não ser incriminada. De tirar o fôlego. Mas aí vem o segundo episódio e com ele os primeiros sinais ruins. 

A fuga de Emília pelas ruas da Cidade do México bebe na fonte de todos os clichês possíveis. De salto e vestido manchado de sangue, ela circula a esmo com pano sobre a boca, como se isso servisse para não chamar atenção. Enquanto isso, o mundo político se agita, mas nas prometidas cenas de bastidor tipo House of Cards os diálogos são tão ruins que chegam a ser constrangedores. 

Mas o pior ainda está por vir. A trilha sonora vai ficando cada vez mais pesada e invasiva, até dominar quase todo o cenário o tempo todo. O uso excessivo de câmera lenta e a atuação sofrível do elenco de apoio remontam às piores novelas mexicanas exibidas SBT. 

Lá pelo terceiro episódio torna-se impossível levar Ingobernable a sério. Tem tiroteio com munição infinita, presidente fazendo sexo com assessora no gabinete presidencial sem perceber a filha e a amante escondidas em baixo da mesa e frases de efeito do tipo “a felicidade não é um direito. Ela se ganha ou não”. 

Além de cafona, a conspiração por trás da morte do presidente é confusa e maniqueísta. Isso sem falar no núcleo “operativo” liderado por Emília. 

Em sua fuga desesperada, ela encontra um time de marginais que vivem na periferia da capital mexicana. O grupo não tem onde cair morto, mas de repente começa a usar tecnologia de ponta para desvendar as tramoias governamentais. 

Uma das aliadas de Emília não dispensa o batom vermelho e a maquiagem nem na hora de invadir um armazém na calada da noite, quando o ideal seria usar uma máscara. De tão ruim chega a ser engraçado. 

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