Dourados, rebeldes e, agora, deprês

A estréia de Queridos Amigos, de Maria Adelaide Amaral, foi um sopro de oxigênio nos organismos desesperados com a indigência cultural dos BBBs. Pena que, justamente por causa da Siliconelândia, a série vá ao ar muito tarde. Quem resistir ao sono, será recompensado. Queridos Amigos é um belo trabalho conjunto de roteiro, direção e elenco - onde brilham Denise Fraga, Débora Bloch e Bruno Garcia. Histórias em que um personagem reúne amigos e faz aflorar paixões adormecidas não são novidade. O cinema volta e meia tem um filme assim e mais de uma novela usou esse ponto de partida - sem falar no popular romance de Agatha Christie, O Caso dos Dez Negrinhos, que envolve o reencontro forçado de velhos camaradas. Na série, o cenário é o Brasil dos anos 80. A ação começa em 89, pouco antes de o País pegar fogo com a campanha que opôs Lula e Collor (na qual, ironicamente, a Globo teve papel discutível). São 19 anos que nos separam da festa promovida por Léo (Dan Stulbach, exagerado na bondade do moço). Mas, em poucas cenas, espanta ver o quanto o Brasil se transformou desde aquela época. A geração que dançou coladinho nos anos dourados e fez a revolução nos anos rebeldes, chegou ao fim da década de 80 em estado de depressão. E não é porque a autora tem uma visão amarga da época. São suas criaturas que entraram na crise da meia idade com um travo na boca. Ninguém avisou, durante passeatas e temporadas no exílio, que eles iriam envelhecer. Os sonhos de mudar o mundo viraram fumaça. Nem mesmo no comportamento, eles conseguiram avançar: o adúltero Pingo (Joelson Medeiros) faz um espelho irônico ao igualmente adúltero Alberto (Juca de Oliveira). A geração que quis derrubar sistemas não varreu os próprios preconceitos. A reação do grupo "legal" à presença do travesti é um bom exemplo. Não é por acaso que o gay Benny (Guilherme Weber, com espaço para mostrar na TV o bom ator que é no teatro) parece tão desagradável. Se driblar o didatismo que permeia suas séries históricas, Maria Adelaide marcará um golaço, tocando em feridas incômodas, porém fundamentais para que nos entendamos como país. E a boa trilha sonora certamente terá espaço para a gravação de Elis Regina para Como Nossos Pais, de Belchior. Nada mais adequado - e doloroso. e-mail: mvianinha@hotmail.com

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.