Paulo Giandalia/ Estadão
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Donos de recordes no cinema assinam série na Globo

Bráulio Mantovani ('Tropa de Elite') e Carolina Kotscho ('2 Filhos de Francisco') estreiam no formato com 'A Teia'

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2014 | 02h07

Bem-sucedidos na arte de contar uma história em duas horas, os roteiristas Bráulio Mantovani e Carolina Kotscho experimentam a condição de estreantes no ofício, graças às vantagens que só a narrativa seriada na TV propicia. Primeiro trabalho do gênero assinado pelos dois, A Teia estreia no próximo dia 28, na Globo, dando-lhes a inédita chance de apresentar seus personagens em 10 episódios e arrastar, por 10 semanas, o seu enredo policial na imaginação de plateia tão ou mais numerosa que as bilheterias de filmes como Cidade de Deus ou Tropa de Elite, roteirizados por ele, ou 2 Filhos de Francisco e Flores Raras, no currículo dela.

Em sua primeira entrevista sobre a nova cria, o casal recebeu o Estado no apartamento onde a trama foi escrita, nos Jardins, em São Paulo, com quatro colaboradores: Lucas Paraízo, André Sirângelo, Stefanie Degreas e Fernando Garrido. Com direção-geral de Rogério Gomes, o Papinha, A Teia traz João Miguel no papel de um delegado da Polícia Federal e Paulo Vilhena como chefe de uma quadrilha que no primeiro capítulo realiza um assalto a um carregamento de barras de ouro no Aeroporto de Brasília.

O caso aconteceu de fato, em 2002. Embora a série seja fictícia, vários episódios foram alinhavados a partir de histórias reais. "A gente vai inventando tanto, que perde a referência da realidade, mas a série se passa nos dias de hoje", ele conta.

O ponto de partida foi uma pesquisa feita por Carol desde 2007 com Antonio Celso dos Santos, policial federal hoje aposentado, que acabou se tornando consultor da série. "Eu o conheci por causa do assalto ao Banco Central, em Fortaleza, e, conversando com ele, vieram outras histórias até mais cinematográficas", ela fala. "A gente inventa muita coisa e pergunta a ele: 'Celso, estamos pensando em fazer isso e aquilo, é possível?' Aí ele diz, por exemplo: 'Ah, eu nunca vi acontecer, mas vi algo parecido'. Então juntamos uma coisa na outra e vai ficando melhor", conta Mantovani. Muitas vezes, a história é boa, mas falta um clímax ou um arco dramático, o que faz a imaginação do autor fervilhar.

Até por isso, Jorge Macedo, o personagem de João Miguel, não é um alter ego do consultor, eles avisam. "Ele inspira o personagem do João Miguel", diz Mantovani. "Mas não é ele, nem de longe: a história pregressa do personagem tem outra realidade, com uma família problemática", completa Carol. Mantovani cita que o consultor é muito "certinho". "Ele não faz nada fora dos procedimentos e isso, dramaturgicamente, ficaria sem graça. O que a gente tem dele é um lado meio Sherlock Holmes, que detesta violência e detesta dar tiros."

Isso não significa um cenário pacífico. "Tem bastante ação, a gente vai envenenando: ele não gosta de dar tiros, mas precisa", diz o autor. E os dois não economizam surpresa com os resultados de produção da série, que demandou longo prazo para cumprir gravações em quatro estados, entre Brasília, Curitiba, Cuiabá, Chapada dos Guimarães e Fortaleza. Não há cenas de estúdio, um luxo no que diz respeito à indústria televisiva.

"Ficamos muito impressionados com o resultado. O papel aceita tudo, até a explosão de cinco aviões. Já a produção disso pode não ser viável, mas não tivemos limitação alguma, nem de produção nem temática", fala Carol.

Não que A Teia reserva a explosão de cinco aviões, mas há sequências dignas de filmes de ação, como o capotamento de um caminhão de galinhas, o que remete à galinha de Cidade de Deus. "Mas agora foi ideia da Carol", acusa Mantovani. Para eles, a produção nada deixa a desejar a grandes produções americanas. "Ficamos emocionados mesmo, com o nível de produção, dos atores, tudo muito coeso. É de chorar", ela conclui.

Falando em lágrimas e na galinha de Cidade de Deus, Mantovani avisa que A Teia reserva cenas tão chocantes quanto a do garoto que leva um tiro no pé de Zé Pequeno (Leandro Firmino), no meio do longa-metragem de Fernando Meirelles. "Eu também choro, cada vez que vejo aquilo. Eu diria que na Teia, a gente tem cenas tão agressivas quanto aquela do tiro no pé. Não aguento ver depois, mas eu escrevo", fala.

Ao relembrar a sequência de Cidade de Deus, Mantovani revela que o garoto, no roteiro adaptado da obra Paulo Lins, morreria naquela cena. "O Zé Pequeno acabava matando o menino, como está no livro, e aquele trecho do filme é muito fiel à obra, mas a gente não aguentava ver. Achamos que era demais, não porque havia muita violência, mas, com uma depois da outra, acabaríamos anestesiando (o espectador) e achamos que era melhor segurar porque estava virando quase um melodrama. Não foi uma decisão de autocensura, foi uma decisão dramatúrgica, de balancear os acontecimentos para ter um resultado melhor lá na frente", ensina.

E, se no cinema os dois estavam habituados a ter de defender autoridade sobre suas linhas, a TV de novo os surpreendeu nesse quesito.

"Eu não faço longa nunca mais (risos)", ele fala, para depois corrigir que não pretende cuspir no prato em que bem comeu. Mas "o cinema é muito o feudo do diretor, no Brasil", completa. "Todo diretor é um Bergman, um Fellini, eles não escutam muito a gente. Difícil é ter uma parceria como eu tive com o Padilha (Tropa de Elite 1 e 2 ) e o Fernando Meirelles", fala. "Na televisão, ou na Globo, pelo menos, há um respeito mútuo. Ninguém mexeu no nosso texto."

Há ainda a vantagem dramatúrgica sobre o cinema. "No filme, você só tem duas horas para apresentar todos os personagens e traçar uma curva que faça sentido", explica Carol. "Com dez episódios semanais, aqueles personagens ficam na imaginação do espectador por mais tempo", completa.

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