Donas de casa, sem razão, desesperadas

A pergunta vem por e-mail, de Campinas: a quem interessa produzir a estranhíssima versão brasileira de Desperate Housewives? Cartaz da Rede TV!, a série Donas de Casa Desesperadas é uma co-produção da emissora brasileira com a americana Disney ABC. No ar, o que vemos é uma dublagem visual da série pioneira. Cenários, figurinos, tramas, ângulos de câmera, é tudo seguido à risca. A quem, afinal, interessa investir dinheiro nessa cópia? Antes de prosseguir a leitura, fica o aviso: eu não sei a resposta.Até agora a única certeza que se tem é sobre quem saiu ganhando com a versão brasileira: os 13 atores, o diretor e uma parte da equipe técnica (outra parte é co-dividida com Argentina, Colômbia e Equador). A Rede TV!, no material para os jornalistas, diz que aplicou US$ 5 mi na brincadeira, cabendo o restante ao braço da Disney. O.k. Por quê?Pelo jeito, nenhum dos responsáveis pelo projeto, nos escritórios da Disney nos Estados Unidos, parou para se perguntar: quem são os bons profissionais de TV nesses países? Sinceramente, não faço a menor idéia de como é a TV equatoriana, mas a brasileira, nós sabemos, é capaz de exibir produções muito melhores que essa anêmica reunião de dondocas mal traduzidas. E não é de hoje. Disponíveis em DVD, quaisquer episódios de Malu Mulher (1979) ou Armação Ilimitada (1983/1988) dão de goleada nessa nova série. Até mesmo Mothern, apesar do título bobo e das traminhas frouxas, tem mais apelo.Embutida nessa produção, reside uma teoria sinistra: os roteiristas verde-amarelos não exibem mais a criatividade de outrora. Digamos que isso seja verdade - não é, mas digamos que. A RedeTV! deglutiu os roteiros originais, chamou um diretor experiente de cinema e botou o trem nos trilhos. O resultado é o que se vê: fraco. Então, não é só uma questão de roteiro, hein? A parte técnica brasileira - direção, cenografia, etc. - também merece ser revisitada. Será?Há no fundo disso a prepotência primeiro-mundista de negar a nós, do andar de baixo, o direito de fazer uma boa TV. E pior: nós mesmos acreditamos nisso. Eles fazem seriados melhores? Sem dúvida. Os canais pagos provam isso diariamente. Mas nós também fazemos. Por que não ir atrás da nossa produção, como têm feito HBO e GNT? Prefiro mil vezes descobrir quem matou Taís (a essa altura, o Brasil inteiro já sabe) do que saber por que morreu Alice Monteiro (Sônia Braga).

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