Porta dos Fundos
Porta dos Fundos

‘Dona Helena’, do Porta dos Fundos, ironiza pessoas que espalham fake news sobre a covid-19

Com ‘fórmulas mágicas’ de cura e teorias da conspiração sobre a pandemia, personagem começou a competir com a vida real: ‘tem gente que acredita mais no pastor da igreja do que no cientista formado’

Caio Nascimento, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2020 | 12h27

"A troça [graça] é a maior arma de que nós podemos dispor e sempre que a pudermos empregar, é bom e é útil. Nada de violências, nem de barbaridades. Troça é simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo. O ridículo mata e mata sem sangue". O trecho escrito num artigo de 1922 pelo autor brasileiro Lima Barreto - defendendo o uso da ironia e do deboche para criticar perfis sociais dos quais discorda - se fez presente nos últimos meses nos vídeos semanais da Dona Helena, do Porta dos Fundos.

De quarentena numa cisterna com medo do coronavírus, por ser idosa, hipertensa, fumante e diabética, a personagem representa o típico cidadão brasileiro alienado pelas fake news: acredita em teorias da conspiração contra a pandemia, espalha áudios levianos de fontes desconhecidas e adora receitas mirabolantes que prometem a cura da covid-19.

"Dona Helena é uma caricatura exagerada do descaso com a ciência e com a imprensa profissional. Ela representa também a galera que se informa por grupos de WhatsApp recheados de notícias falsas. Assim como muitas pessoas, ela é a ‘tia do zap’ que transforma discussão política em conversa de futebol”, diz o intérprete e comediante Fábio De Luca.

Com o primeiro episódio publicado em meados de março, quando a quarentena havia iniciado em algumas cidades brasileiras, o quadro de humor começou a chamar atenção pelas ideias alucinantes da senhora: sucos milagrosos que barram o contágio, esquemas ilegais para receber o auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal e até a falsa ‘descoberta’ de um código por trás do coronavírus, envolvendo a Globo e o Partido dos Trabalhadores (PT).

Segundo De Luca, a ideia inicial era criar um roteiro com uma dose de eloquência  acima da média, a fim de satirizar a ‘verdade absoluta’ que alguns grupos políticos pregam na internet. Mas não demorou muito para as falas da personagem competirem com a realidade. Enquanto Dona Helena sugeria um chá de mamona carrapateira como ‘vacina’ contra o coronavírus, por exemplo, correntes falsas da web defendiam a ingestão de limão com água quente para combater a doença.

“A vida real está competindo com a ficção de uma maneira muito forte nesta pandemia. Encontramos pessoas que, se não conhecêssemos pessoalmente, diríamos que foram inventadas. Já ouvi falar em remédio de piolho que cura a covid-19, borra de café. Exagerei com a Dona Helena e ainda assim estou pau a pau com a realidade”, afirma o ator.

De Luca busca em Dona Helena trazer à tona uma crítica contra o negacionismo científico. É comum, nas falas da personagem, citar fontes distantes - sempre um ‘amigo do amigo do amigo’ -, sem rigor técnico e acompanhadas de discursos ofensivos. “As pessoas gostam mais de acreditar na amiga do crochê e no pastor da igreja do que num cientista formado”, reflete.

Leia a entrevista completa com Fábio De Luca:

De onde veio a ideia de criar a Dona Helena?

Criei a personagem com base no que vejo nos grupos da minha família, nas redes sociais e nos argumentos das ‘vovós e vovôs do zap’, que espalham fake news e teorias da conspiração. Infelizmente, tem muita gente que só se informa pelo WhatsApp, que alimenta e consome notícias falsas, não acredita na ciência e muito menos na imprensa profissional. Há uma desconfiança muito grande em torno de tudo, e a Dona Helena é a caricatura exagerada disso.

Já vi notícia falsa sobre piolho que cura o coronavírus, buda da prosperidade… está demais. Já tínhamos as maluquices dos terraplanistas, mas agora está ainda mais surreal. Até a ONU [Organização das Nações Unidas] e a OMS [Organização Mundial da Saúde] estão sendo vistas como inimigas conspiradoras.

Caricatura exagerada… mas nem tanto.

Pois é, rapaz. A vida real está competindo com a ficção de uma maneira muito forte nesta pandemia. Encontramos pessoas que, se não conhecêssemos pessoalmente, diríamos que foram inventadas. Já ouvi falar em remédio de piolho que cura a covid-19, borra de café. Exagerei com a Dona Helena e ainda assim estou pau a pau com a realidade. Está tudo muito louco.

Os argumentos da Dona Helena podem ficar ainda mais radicais daqui pra frente?

Sim e não. Ela tem um apego à política e é bolsonarista a níveis de verdade absoluta: politiza tudo, vê conspirações em tudo e opina sobre tudo como se estivesse numa discussão de futebol. Creio que uma hora essa personagem terá que questionar se o Bolsonaro está maluco ou não, pois tem um limite de loucura que a própria Dona Helena se questionaria. Ela é pró-governo, mas não acatou, por exemplo, a narrativa de que a covid-19 é uma ‘gripezinha’, tanto é que está na 'quarentena da quarentena', isolada na cisterna.

Qual a importância desse humor inteligente em tempos de pandemia?

Acho que primeiro é ser um reforço de que as fake news são um problema. Tem gente que compra ideias absurdas e isso é um grande perigo. Neste cenário, o humor empacota uma crítica social e faz o público rir e refletir. Às vezes, há mais alcance que uma palestra de horas no YouTube. Temos muito isso na história do Brasil: Chico Anysio com Salomé [personagem que satiriza a ditadura militar] e Jô Soares com suas caricaturas críticas.

Tem gente que acredita mais na amiga do crochê e no pastor da igreja do que no cientista formado. Isso vem ganhando eco nas redes sociais e formando bolhas de pessoas que colocam a ciência em segundo plano. Dona Helena tenta trazer essa questão com coisas malucas, abordando o negacionismo científico, mas ainda vejo gente que sempre aparece com fake news ainda mais absurdas que as dela.

Qual o futuro da Dona Helena? Um pequeno spoiler será muito bem-vindo.

Ainda não sei pra onde vai a Dona Helena. Posso garantir que uma hora ela vai sair da cisterna, que é a metáfora da pessoa idosa da família, que ninguém dá atenção. Quero que uma hora ela saia para dar mais possibilidades de dramaticidade. Enquanto ela estiver com espaço no Porta dos Fundos, ela vai acontecendo, depois já não sei.

Você recebeu críticas sobre a personagem?

Pensei que receberia, sim. Mas os feedbacks têm sido positivos. Algumas pessoas criticaram o formato diferente, devido à estética do vídeo em pé. O que me chama a atenção é que as pessoas que são alvo da crítica estão gostando da Dona Helena, pois o nível de alienação faz com que elas saibam o que é fake news, mas não considerem que estão fazendo fake news. A lógica que se emprega nessas pessoas é a de que o problema é sempre do outro e jamais delas.

Onde você grava os episódios da Dona Helena?

Gravo embaixo da cama do meu quarto. Pego a cama, a coloco em pé para simular a parede da cisterna, boto umas latas e o celular me filmando. Meu vizinho, que trabalha com audiovisual, me ajuda com a maquiagem e a caracterização. Tudo muito caseiro. Aliás, a luz e sombra dos vídeos é uma metáfora do que é falso e verdadeiro, mas isso já é um devaneio estético.

Por que se chama Dona Helena?

Já estava construindo este personagem antes mesmo da pandemia do coronavírus, mas não tinha nome. Aí surgiu essa crise e quis um nome que rimasse com quarentena.  

Receba no seu email as principais notícias do dia sobre o coronavírus

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.